Confira nossa versão impressa

São João Paulo II e as mazelas do Brasil

Com suas mazelas políticas, econômicas, culturais e sociais, que – esperamos – vão diminuindo, mas não acabam, o Brasil vê crescer a polarização e o enfrentamento ideológico na sociedade. O fenômeno se repete no seio da Igreja Católica, que, sendo a confissão religiosa com maior número de praticantes no País, reflete o quadro geral. Acusações de neoliberalismo, fascismo, marxismo cultural e comunismo pipocam em discursos inflamados. Como todos estão sujeitos ao erro, mas a raiva é má conselheira, as denúncias geralmente se referem a problemas reais. As interpretações ideológicas, porém, se prestam a manipulações e confusões que pouco ajudam na construção do bem comum.

Nesse contexto, vale a pena rever uma passagem do discurso de São João Paulo II, na Favela do Lixão de São Pedro, em Vitória (ES), em sua visita ao Brasil de 1991: “A doutrina social católica repudiou sempre a organização da sociedade baseada em um determinado modelo de capitalismo liberal, justamente qualificado de ‘capitalismo selvagem’, que tem como notas dominantes a procura desenfreada do lucro, unida ao desrespeito pelo valor primordial do trabalho e pela dignidade do trabalhador. Esta procura, não raro, é ‘acompanhada pela corrupção dos poderes públicos e pela difusão de fontes impróprias de enriquecimento e de lucros fáceis, fundados em atividades ilegais’ […] A Igreja repudiou, igualmente, as soluções perversas do coletivismo marxista, que asfixia a liberdade, sufoca a iniciativa, reduz a pessoa humana à condição de simples peça de uma engrenagem, fomenta o ódio e acaba no empobrecimento, que pretendia superar […] É na fidelidade a Cristo, seu Fundador, que a Igreja, sem propor modelos concretos de organização político- -social, oferece, ‘como orientação ideal indispensável, a sua doutrina social’ (Centesimus annus, 43)”.

A atualidade do texto chega a ser dolorida. São João Paulo II faz uma denúncia explícita do “capitalismo selvagem” (nos tempos atuais denominado “economia que mata”, pelo Papa Francisco, na Evangelii gaudium, 53). Esse é o foco do trecho, pois o Brasil – objetivamente – é um país de economia capitalista, ainda que o Papa lembre também os limites do “coletivismo marxista”. As novas esquerdas do século XXI são muito diferentes do comunismo do século XX: nem toda a direita pode ser considerada “capitalismo selvagem”. Independentemente disso, fica evidente que São João Paulo II não se esquiva à denúncia das mazelas do País por medo de ser instrumentalizado por um grupo ideológico ou de enfraquecer políticos que considera mais afinados com seu pensamento.

O Papa acrescenta que a Igreja oferece sua doutrina social “como orientação ideal indispensável”. Essa orientação ideal não chega a propor “modelos concretos”. Essa é a tarefa da reflexão e da atuação dos leigos. É, contudo, na busca por esses modelos concretos – e não num debate ideológico estéril – que os problemas são superados. A denúncia, se não é seguida por propostas realistas e comprometidas com o bem comum, pode ser facilmente esvaziada ou instrumentalizada pela propaganda partidária. Não se pode deixar de fazer a denúncia porque não se tem ainda uma proposta alternativa clara, mas também não se pode fazer a denúncia sem dar o passo seguinte, que é a busca de novos caminhos.

Extremistas de ambos os lados negam a realidade, proclamando suas ideologias (quer de direita, quer de esquerda) e se recusando a reconhecer os erros dos correligionários. A mensagem cristã convida a olhar os fatos com realismo, reconhecer erros e acertos de todos os lados, buscar o diálogo para formular propostas realistas de construção do bem comum.

Colunas relacionadas

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Últimas Colunas

Quem foi o sacerdote Melquisedeque?

O Ricardo Paiva, que mora no bairro do Itaim, pede que eu fale a respeito de Melquisedeque, citado na Bíblia.

Para ter a paz no coração

É possível ter paz no coração em um tempo tão difícil como o que estamos vivendo? Minha mãe repetia-nos muitas vezes (tanto...

Ecologia integral

A celebração do Dia da Árvore, estipulada no Brasil para o próximo dia 21, antevéspera da primavera, nos dá a ocasião de...

Vem trabalhar na minha vinha

Para pregar o retiro do Ano Santo do Grande Jubileu de 2000, São João Paulo II convidou o Cardeal vietnamita François-Xavier Nguyên...

‘O que vou ser, agora que cresci?’

Quem de nós não viveu em sua biografia este dilema: “Que profissão devo escolher, o que me fará feliz?” Com certeza, passamos...

Newsletter