Três advertências de Francisco

O Papa Francisco nos tem alertado contra três perigos que, a seus olhos, constituem as maiores ameaças à vida cristã na atualidade. As advertências contra essas três tentações se encontram principalmente nas exortações apostólicas Evangelii gaudium (EG) e Gaudete et exsultate (GE), porém são recorrentes em todo o ensinamento de Francisco e foram igualmente recolhidas na Carta Placuit Deo (PD), da Congregação para a Doutrina da Fé.

Esses perigos espirituais são a tentação neopelagiana, a tentação gnóstica e a ideologização da fé. Essas três ameaças estão íntima e logicamente relacionadas, como veremos a seguir.

A atitude neopelagiana: o pelagianismo é uma antiga heresia. Seu autor, Pelágio, negava o pecado original e seus efeitos negativos sobre a condição humana; ensinava que está no livre-arbítrio do homem salvar-se por suas próprias forças, sem a necessidade do auxílio sobrenatural de Deus, a graça. O pelagianismo exerceu no Ocidente cristão o mesmo papel do arianismo no Oriente: uma tentativa de destruir o que há de propriamente sobrenatural no Cristianismo. Enquanto o arianismo fazia isso pela negação da divindade de Jesus, o pelagianismo o fazia negando a necessidade da graça.

O neopelagianismo criticado por Francisco é menos uma falsa doutrina do que uma atitude viciosa. Em nossos dias, não mais contesta teoricamente a necessidade da graça. Entretanto, prega que se vive como se a graça não existisse ou não se precisasse dela. Constrói sua vida espiritual baseada em suas próprias forças. O paroxismo desse fenômeno é encontrado em certos jovens que, perplexos com os problemas internos da Igreja e com a hostilidade que ela sofre do mundo, pretendem salvá-la. Essa pretensão, todavia, desconhece o que a Igreja tem de sobrenatural e de mistério. Tratase da inversão completa das relações que deve haver entre a Igreja e seus filhos: a Igreja não precisa que eu a salve, eu é que preciso dela para me salvar. Uma Igreja que precisasse ser salva pelos homens não mereceria ser salva.

A tentação gnóstica: o gnosticismo, talvez a pior heresia de todos os tempos, acompanha a Igreja desde Simão, o Mago (cf. At 8,8-24). Foi denunciado por São Paulo Apóstolo (cf. 1Tm 4,1-5) e São João Evangelista (cf. 1Jo 4,1-6). Santo Irineu de Lião, no século II, o chamou simplesmente de “a Heresia”. Sua malignidade especial vem de seu caráter capcioso, pelo qual, como alerta Francisco, “disfarça-se de verdade católica” (GE, 35) ou, no dizer de Santo Irineu, “parece mais verdadeiro que a própria verdade”. O gnosticismo promete o encontro com Deus por meio de um conhecimento salvador que o homem encontraria, para além da lógica e da razão, no interior de si mesmo. Trata-se de um pseudomisticismo em que o indivíduo, buscando aderir a Deus, na verdade consegue apenas se inebriar de si mesmo, ao contrário da autêntica mística cristã, em que o homem se une a Deus pela caridade sobrenatural e pelo dom espiritual da sabedoria. Na medida em que dispensa a graça, o gnosticismo pode ser visto como uma forma sofisticada de pelagianismo, particularmente sedutora para aqueles interessados numa vida espiritual mais profunda.

A ideologização da fé: se a atitude neopelagiana na vida contemplativa acaba conduzindo ao gnosticismo, a ideologização da fé é o neopelagianismo em ação. O Cristianismo é reduzido a mero pretexto retórico para agir no mundo ou mesmo a um instrumento de manipulação das consciências e aquisição de poder. As exigências da vida cristã são assim prostituídas a conveniências políticas e a paixões partidárias, quando, na reta razão das coisas, a política é que deveria se subordinar à ordem moral, sem se comprometer a identidade cristã nas disputas ideológicas.

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