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Lutar por moradia digna também é uma questão de fé 

Expressão de comunhão, conversão e partilha, a Campanha da Fraternidade (CF) tem como objetivos permanentes despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, especialmente para a busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor; e renovar a consciência à responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária.

A temática escolhida para este ano – “Fraternidade e Moradia” – trata de um direito humano fundamental, mas ainda não amplamente assegurado no Brasil; afinal “6 milhões de famílias necessitam hoje de uma moradia, por estarem em habitação precária, em coabitação ou com aluguel excessivamente caro, o que representa 8,3% dos domicílios existentes no País. Somam-se a elas outras 26 milhões de famílias que moram em situação inadequada (em áreas de risco, sem infraestrutura ou com infraestrutura insuficiente, segregação social, longe de equipamentos públicos e sem as políticas públicas básicas, com forte influência do crime organizado, entre outros). Além disso, existem mais de 300 mil pessoas vivendo na rua – número que cresceu expressivamente nos últimos dez anos” (Texto-base da CF 2026,30). 

Por meio do método Ver, Julgar e Agir, a Igreja no Brasil, na CF 2026, aponta um caminho de fé e compromisso perante os problemas habitacionais, sem assumir partidarismos, como destacado pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, na coletiva de imprensa do lançamento da Campanha: “A Igreja não propõe a questão a partir de um olhar partidário, mas a partir da realidade que existe, do sofrimento das pessoas, da necessidade de maior fraternidade para ter maior coerência na vida social, maior justiça na convivência”. 

O tema deste ano, portanto, não está a serviço de um espectro político-partidário, nem se espera que seja “capturado” por algum deles, pois isto seria um desvio à natureza da CF: ser uma campanha de evangelização, fato que ajuda a entender a temática tratada desta vez: “Lutar por moradia digna, por exemplo, é lutar para que todas as pessoas possam viver com dignidade. Isso faz parte da missão da Igreja. Não é apenas uma questão social e política, mas é também, mais radicalmente, uma questão de fé. É uma dimensão fundamental da missão evangelizadora da Igreja. Diz respeito aos direitos humanos, à promoção da família, à função social da propriedade e à dimensão política da fé” (Texto-base,153). 

O lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) reforça a fundamentação bíblica da Campanha. Ele expressa “a Encarnação, quando o Filho de Deus assume a condição humana e vem morar entre nós, ser o ‘Emanuel’, Deus conosco (cf. Mt 1,23; 28,20). Nestes versículos, desemboca toda a Tradição do Antigo Testamento (AT) sobre a presença de Deus, que toma a iniciativa de fazer morada no meio do povo, mediante o Filho, ao tornar-se humano, ao vir se comunicar e estabelecer uma Aliança com a humanidade” (Texto-base,119). 

Cumpre lembrar que a realização da CF neste período não deve se sobrepor à autêntica vivência da Quaresma, tempo de graça, de penitência e de abertura à infinita misericórdia de Deus, que por amor enviou, para a salvação da humanidade, o seu próprio Filho, Jesus Cristo, nascido em meio aos que não tinham casa e que em toda a sua vida pública “estará junto daqueles que foram abandonados às margens do caminho em virtude de suas diferenças – pobreza, deficiência, doenças, exclusão – e sua vida será dedicada a integrá-los, não à mesma sociedade excludente, mas a uma sociedade renovada por sua Palavra e compaixão” (Texto-base 125). Que ao final desta Quaresma, Cristo verdadeiramente encontre morada em nosso coração, e os que habitam em precárias condições ou que não têm lar possam ver planificados caminhos para assegurar-lhes moradia digna. 

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