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No meio do caminho tinha uma cruz

A vida não obedece sempre às nossas expectativas! Imaginando que tivéssemos todas as alegrias e realizações que procuramos, crendo que nossos sonhos pudessem fazer poesia de nossos anseios profundos e belos, assim mesmo, haveria sempre alguma coisa a deslocar a nossa direção ou, pelo menos, tornar mais difícil a continuidade da história. 

São Paulo Apóstolo queria que sua vida em Cristo pudesse estar livre de contrariedades e distrações, mas afirma que isso não foi possível e ele teria de se conformar com alguma coisa “fora do lugar” em sua vida terrena. Ele a chama de “espinho na carne”. Diz que esse espinho tinha uma utilidade. Servia para que ele não se orgulhasse das revelações que tinha. Dizia ele: “E para que a grandeza das revelações não me enchesse de orgulho, foi me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear, a fim de que eu não me torne orgulhoso” (2 Cor 12,7). 

Paulo afirma que teria implorado a Deus que o aliviasse desse sofrimento, mas não foi atendido: “A esse respeito, roguei três vezes ao Senhor que ficasse longe de mim. Mas o Senhor disse-me: ‘Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente” (2Cor 12,8-9). Por fim, Paulo se conformou e assumiu plenamente aquela situação indesejada, concluindo: “Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim; e me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então sou forte” (2 Cor 12,9-10). 

Por sua vez, o mestre Jesus também havia pedido, se fosse possível, para que o Pai o livrasse do seu iminente sofrimento da cruz, quando disse: “Meu Pai, se possível, que este cálice passe de mim. Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Tanto o caráter enigmático do mencionado sofrimento de Paulo quanto a necessidade de conformar-se com sua realidade inevitável, assemelham-se muito àquilo que foi transmitido em um precioso poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) intitulado “No meio do caminho”, publicado pela primeira vez em 1928. O poeta fala ali de alguma dificuldade impressionante e inevitável, simbolizada por uma pedra: “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra. / Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / no meio do caminho tinha uma pedra”. 

Entre os críticos, muitos consideram o texto demasiado simplório e repetitivo, outros o consideram genial e expressivo. O fato é que se trata de uma mensagem com a qual todos podem se identificar, porque parece que todo mundo deve sempre lembrar-se de que há uma pedra no caminho, conhecida apenas por quem a encontra no caminho da própria história. Em meio a tantas tentativas de interpretação do poema, alguns acham que “pedra” teria sido a maneira do poeta se referir a uma “perda” recente, a de seu filho falecido logo após o nascimento. Entretanto, ninguém sabe dizer exatamente do que se trata. 

A inspiração de Drummond pode ser relida por nós cristãos para lembrarmos que, como São Paulo, todos nós temos um “espinho na carne”; e como Cristo, todos nós temos uma “cruz” no meio do caminho. Por isso, poderíamos reescrever o nosso poema, substituindo o símbolo. Ficaria assim: “No meio do caminho tinha uma cruz / tinha uma cruz no meio do caminho / tinha uma cruz / no meio do caminho tinha uma cruz. / Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma cruz / tinha uma cruz no meio do caminho / no meio do caminho tinha uma cruz”. 

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