O caminho de amadurecimento político até as eleições de outubro

No capítulo 5 do livro de Oseias (Os 1-7), o profeta descreve a ruína de Israel por culpa de seus líderes religiosos (sacerdotes) e políticos (reis), bem como do povo escolhido (Israel). Diz o texto: “Ouvi isto, sacerdotes, escutai casa de Israel… casa do rei, abre os ouvidos… vós tendes sido uma armadilha em Mispá, um laço armado sobre o Tabor”. 

Fica claro que, no contexto do Antigo Testamento, a causa da ruína é o distanciamento de Deus que deixou de ser escutado. Por decorrência, no regime teocêntrico de então, a política passou a criar armadilhas para o povo que vivia nos territórios sagrados. 

As semelhanças com os tempos atuais são grandes, mas devemos sublinhar que não vivemos em uma teocracia, mas, sim, em uma democracia. Isso demanda uma reflexão sobre o posicionamento político dos católicos que vivem no mundo, ainda que não sejam deste mundo (cf. Jo 17,16). 

Desde os tempos de Aristótoles, na Grécia antiga, os homens se associam no plano político não somente para viver, mas, sobretudo, para ter uma vida boa e garantir uma existência perfeita e autônoma (Política, Livro III, cap. 9). Como lograr a vida boa para toda uma comunidade, sem pessoas excluídas e descartadas, se não por meio da escuta e do diálogo entre os cidadãos? 

Por exemplo, são divulgadas pelo WhatsApp mensagens e vídeos inflamados e contagiantes em que clérigos e lideranças eclesiais leigas, em nome de convicções religiosas, convocam o povo a dar apoio ou condenar candidatos totalmente opostos. Esse tipo de conduta simboliza o cenário de polarização que vem se arrastando desde 2018. Fazem pensar na já referida profecia de Oseias: “Mas o coração deles será dividido por falta de sinceridade!… Eles vão dizer: não existe mais um rei para nos defender, porque nós temos vivido sem temer a Javé… Eles se derramam em palavras, jurando falso e fazendo conluios, e as falsificações do direito se alastram como ervas venenosas na superfície dos campos!” (Os 10,2-4). 

Neste cenário, nada mais oportuno do que ver, julgar e agir, pois a situação é complexa e exige uma reflexão profunda à luz do Magistério. O número 571 do Compêndio da Doutrina Social da Igreja nos ensina: “Quando o Magistério da Igreja se pronuncia sobre questões inerentes à vida social e política, não desatende às exigências de uma correta interpretação da laicidade, porque não pretende exercer um poder político nem eliminar a liberdade de opinião dos católicos em questões contingentes. Intenta, em vez – como é sua função própria –, instruir e iluminar a consciência dos fiéis, sobretudo dos que se dedicam a uma participação na vida política, para que o seu operar esteja sempre a serviço da promoção integral da pessoa e do bem comum” (Grifos meus). 

O Magistério, portanto, não se sobrepõe à liberdade de opinião dos católicos no caminho sinodal de amadurecimento político a ser percorrido até outubro de 2022. O voto solitário e secreto, de cada eleitor e eleitora, poderá ser animado pela passagem “quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la e quem perder sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16,25). 

O Papa Francisco tem procurado abrir espaços para um fecundo diálogo no âmbito da Igreja por meio de percursos sinodais, que são caminhos de comunhão e busca de caminhos em unidade. O mesmo poderia ser feito no âmbito político e, desde logo, devemos convir que as redes sociais não se prestam a isso, pois se tornaram espaços de propaganda ideológica e polarização política. 

José Mario Brasiliense, master em Teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense, doutor em Administração Pública pela EAESP-FGV e presidente da Oficina Municipal, uma escola de cidadania e gestão pública vinculada à Fundação Konrad Adenauer. 

Deixe um comentário