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O verdadeiro sentido da Quaresma 

A Igreja inicia na Quarta-feira de Cinzas o tempo da Quaresma. Nele, durante os 40 dias que antecedem a Páscoa de Nosso Senhor, os fiéis preparam-se de forma especial para viver piedosamente a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, por meio de mortificações, penitências e orações. Nesse período, portanto, os cristãos são chamados a viver uma verdadeira conversão e transformação interior: esvaziando-se de si mesmos, abrem caminho para Deus os completar e os transformar com sua graça. 

Por vezes, isso entra em contraposição com aquilo que muitos vivem neste tempo de preparação. De fato, há diversos fiéis que se utilizam deste período para fins secundários, exclusivamente exteriores ou meramente sociais – limitam-se, por exemplo, a retirar o açúcar de suas dietas, mas continuam cometendo as mesmas ações e alimentando-se dos mesmos maus pensamentos de outrora. É sobre isso que o profeta Isaías diz quando afirma: “Este povo se aproxima apenas com sua boca e louva-me apenas com seus lábios, enquanto seu coração está longe de mim” (Is 29,13). 

Ter isso em mente é fundamental para o reto aproveitamento da Quaresma. São realmente muito desejáveis os sacrifícios exteriores: a própria Igreja sempre aconselhou neste período uma maior intensidade na oração, no jejum e na esmola. Quando, todavia, essas práticas não são acompanhadas de uma busca interior por Deus, de um esforço ativo para crescer em santidade, todo o mérito dessas ações se perde. Quanto a isso, diz o Salmista: “Pois não te agradas de um sacrifício, e se oferecem um holocausto, não o aceitarias. O sacrifício agradável a Deus é um espírito contrito” (Sl 51,18-19). 

Nesse sentido, a motivação que deve guiar os cristãos nestes 40 dias é a de crescer em intimidade com Deus, norteados pela caridade em suas vidas. A grandeza de nossas penitências, o valor de nossas esmolas e a eficácia de nossas orações não são medidas por critérios humanos; pelo contrário: a medida de seus efeitos é igual à medida do amor que colocamos em cada ação. Assim, muito maior aos olhos do Senhor é um pequeno sacrifício feito com muito amor do que um grande sacrifício feito com pouco. Muito mais valiosa é a fome da Palavra do que jejuar prolongadamente, quinze minutos de oração sincera do que um Rosário rezado desatentamente. 

Para se preparar apropriadamente para a Páscoa, portanto, vale voltar o olhar ao que realmente importa: Cristo. Por mais que cada pessoa tenha suas próprias responsabilidades, deveres, rotinas e trabalhos, neste período quaresmal o esforço de cada uma deve ser o de viver como que em um constante retiro, meditando as coisas de Deus em seu coração e combatendo heroicamente todo vício e pecado que nos afasta Dele. Desse modo, “joguemos fora todo peso e o pecado que nos envolve. Corramos com perseverança para o combate que nos cabe, de olhos fitos no autor e consumador da fé, Jesus” (Hb 12,1-2). 

Sendo assim, que nesta Quaresma possamos fazer propósitos realmente centrados no crescimento de nossa vida cristã. Combatamos nossa maledicência, preguiça, luxúria e gula; cultivemos nossa generosidade, dando esmola aos pobres e colocando-nos a serviço do próximo; aumentemos nossa piedade, adicionando mais momentos de oração ao longo do dia e presença em nossos momentos com Deus. Em nossas vidas, Nosso Senhor não nos pede muitas coisas. O que Ele pede, no entanto, é um coração transformado, repleto de amor para si e para o próximo. Que neste tempo santo possamos nos aproximar cada vez mais desse ideal. 

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