O Tempo da Quaresma constitui, na tradição litúrgica da Igreja, um período privilegiado de preparação espiritual para a celebração do Mistério Pascal. Estruturado a partir da simbologia bíblica dos 40 dias, este tempo expressa um itinerário de conversão, purificação e renovação da vida cristã, orientado para a participação plena na Páscoa do Senhor.
Este tempo introduz o fiel em um caminho penitencial marcado pela consciência da fragilidade humana e pela esperança na misericórdia divina. A imposição das cinzas, depositada sobre as nossas cabeças, acompanhada da exortação bíblica: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15), possui profundo significado teológico. Elas recordam a transitoriedade da vida terrena, a realidade do pecado e a necessidade permanente de conversão. Ao mesmo tempo, não exprimem desespero, mas abertura confiante à ação restauradora de Deus. No Antigo Testamento, o uso das cinzas está associado à atitude de arrependimento e humildade diante de Deus (cf. Jn 3,6; Jó 42,6). Assim, a Quarta-feira de Cinzas não inaugura apenas um tempo litúrgico, mas estabelece uma disposição espiritual: reconhecer-se uma criatura necessitada da graça, chamada a retornar ao Senhor “de todo o coração” (cf. Jl 2,12).
Por outro lado, os 40 dias vividos por Jesus no deserto (cf. Mc 1,12–13) e que constituem o tempo quaresmal, remetem à experiência do povo de Israel, que peregrinou durante 40 anos rumo à terra prometida (cf. Nm 14,33), bem como à experiência de Moisés no Sinai (cf. Ex 34,28). Em todos esses episódios, o deserto aparece como lugar de prova, escuta e dependência radical de Deus. A Quaresma, portanto, não é mero tempo ascético, mas espaço teológico de reencontro com a Palavra que sustenta a vida: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (cf. Mt 4,4).
O Magistério da Igreja reafirma esse caráter profundamente pascal e existencial da Quaresma. São João Paulo II afirma que este tempo “é uma chamada forte à conversão e à reconciliação” (cf. São João Paulo II, Mensagem para a Quaresma, 2001), recordando que as práticas quaresmais — jejum, esmola e oração — só possuem autenticidade quando conduzem à transformação interior e à caridade concreta. Do mesmo modo, Bento XVI sublinha que a penitência cristã não é autossuficiente, mas participação no mistério da Cruz, pela qual o fiel se associa à entrega redentora de Cristo (cf. Bento XVI, Mensagem para a Quaresma, 2009).
O Papa Francisco aprofunda essa compreensão ao situar a conversão quaresmal no horizonte da misericórdia e da justiça social. Na Evangelii gaudium (EG), ouvimos que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante das estruturas que geram exclusão, pois “Deus se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (cf. EG 97). A Quaresma, assim, torna-se tempo favorável para reconhecer Cristo presente nos pobres e sofredores (cf. Mt 25,40). Nesse contexto, a Campanha da Fraternidade de 2026, celebrada no Brasil durante o tempo da Quaresma, assume valor teológico-pastoral significativo ao propor o tema “Fraternidade e Moradia”, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1,14). A encarnação do Verbo revela que Deus não permanece distante da realidade humana, mas assume a condição histórica dos homens, fazendo da morada digna uma expressão concreta da dignidade da pessoa humana. A reflexão quaresmal, assim, é chamada a integrar fé, liturgia e compromisso social, especialmente em favor daqueles que vivem sem condições adequadas de habitação.
Portanto, o tempo da Quaresma é um verdadeiro caminho de configuração a Cristo, no qual a conversão pessoal se articula inseparavelmente com a responsabilidade comunitária; a Quaresma, assim, conduz a Igreja a uma fé encarnada, pascal e solidária, preparando os fiéis para celebrar, com autenticidade, a vitória da vida sobre a morte na Ressurreição do Senhor.





