A cada ano, a Igreja nos oferece a Quaresma como um tempo de graça e de renovação espiritual. Inspirado nos 40 dias de Jesus no deserto, este período nos convida a percorrer um verdadeiro caminho interior. Mais do que práticas externas, trata-se de redescobrir o essencial da fé e recolocar Deus no centro da vida. Como recordava o Papa Francisco, a Quaresma é “uma viagem de regresso a Deus”, expressão que ilumina todo o caminho quaresmal.
Regressar a Deus significa reconhecer que, muitas vezes, Dele nos afastamos em meio às preocupações cotidianas, ao egoísmo e à indiferença. A Quaresma surge como um convite misericordioso a retornar ao coração do Pai, sempre aberto a acolher seus filhos.
Esse retorno passa também pelo encontro com os desertos da humanidade. O deserto bíblico simboliza as fragilidades, sofrimentos e provações presentes no mundo e em nossa própria história. Por isso, a espiritualidade quaresmal possui uma dimensão social: somos chamados não apenas à conversão pessoal, mas também a olhar com compaixão para as dores do nosso tempo.
Em sua primeira mensagem quaresmal, o Papa Leão XIV recorda que este é o tempo favorável para recolocar o mistério de Deus no centro da existência, permitindo que a fé recupere vigor em meio às distrações do cotidiano.
Mas como realizar isso de forma concreta? O Papa aponta dois caminhos fundamentais: a escuta e o jejum.
Somos chamados à escuta. Dar lugar à Palavra de Deus é essencial para quem deseja retomar a própria vida espiritual. Escutar é mais do que ouvir; é abrir o coração e permitir que Deus fale à nossa existência. A disponibilidade para escutar é também o primeiro sinal de quem deseja entrar em verdadeira relação com o outro. Em um mundo marcado por tantas vozes e ruídos, redescobrir o silêncio e a escuta se torna um gesto profundamente espiritual.
Outro caminho proposto é o jejum. O jejum não se reduz a uma prática externa, mas revela aquilo de que realmente temos fome e o que consideramos essencial para nossa vida. Ele nos ajuda a discernir e ordenar os nossos desejos, mantendo viva a fome e a sede de justiça. Assim, o jejum nos educa espiritualmente e nos conduz a uma atitude de responsabilidade para com o próximo.
A Quaresma é também um caminho comunitário. Caminhamos juntos como Igreja, em nossas paróquias, famílias e comunidades, recordando que a conversão não nasce apenas do esforço humano, mas é obra da graça de Deus que nos transforma.
Nesse horizonte, a Campanha da Fraternidade convida a refletir sobre a realidade da moradia em nosso País, aproximando-nos da Doutrina Social da Igreja e das situações de exclusão que atingem tantas famílias. A experiência quaresmal torna-se, assim, apelo concreto à solidariedade e ao compromisso com a dignidade humana.
O Papa também recorda a importância do cuidado com a linguagem. Somos convidados a jejuar das palavras que ferem e dividem, aprendendo a construir pontes por meio do respeito, da escuta e da caridade. Em um tempo marcado por divisões e julgamentos, somos chamados a jejuar também das palavras que ferem. Palavras podem construir ou destruir, aproximar ou afastar. Viver a Quaresma significa aprender a desarmar a linguagem, renunciando ao julgamento precipitado e ao hábito de falar mal do outro. Trata-se de uma conversão que passa pelo coração e pela forma como nos relacionamos.
A Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de recomeço. Deus não nos chama para a condenação, e sim para a renovação.
Caminhar na Quaresma é preparar o coração para a Páscoa, permitindo que a graça de Deus transforme nossa vida. Que este tempo seja, para todos nós, uma verdadeira viagem de regresso a Deus, marcada pela misericórdia, pela reconciliação e pela esperança.





