A penitência nos dá um presente: sermos fortes contra o espírito do mal; como diz a oração da Quarta-feira de Cinzas. O monaquismo se inicia no deserto, região desolada na qual só existe silêncio e uma vastidão nua coberta de areia. O deserto é um lugar que exige constante vigilância para sobreviver; é quente demais durante o dia e gelado demais durante a noite. Ali, os monges viviam sós, sem nenhuma distração, no vazio completo. A única coisa que podiam fazer é voltar o olhar para dentro de si mesmos e imergir nos seus pensamentos. No despojamento completo, os monges começaram a descobrir a presença dos espíritos maus. Começaram a “vê-los”. Descobriram que eles são oito: gula ou voracidade; luxúria; avareza ou mesquinhez; ira; tristeza; preguiça; vanglória; e soberba (ver o artigo “Os quatro tipos de pensamentos”, publicado no O SÃO PAULO em 16/07/2025).
O tempo de Quaresma nos é particularmente propício e de grande ajuda para combater os espíritos maus que trabalham contra nós e geram infelicidade. Os mestres do monaquismo diziam, seguindo as Escrituras, que são três práticas (que eles praticavam ao longo de toda a vida e não só na Quaresma) que nos tornam fortes, ou seja, que nos tornam capazes de permanecer serenos diante das coisas mais terríveis, não perder a paz, a paciência, a mansidão; saber agir sempre com prudência e sabedoria. Coisa dificílima!
São três atos simples e não muito difíceis: a esmola, que é um modo de agir doando o nosso tempo, as nossas habilidades, os nossos bens materiais para quem precisa de ajuda; a oração, que é um modo de pensar por meio do qual nós nos voltamos para Deus para pedir por nós mesmos, pelos outros e pelo mundo, sem deixar de agradecer a Deus por ser Deus, Senhor e criador de tudo e que nos mostrou em Jesus Cristo ser Deus-conosco; e o jejum, que significa ser sóbrio com o próprio corpo no comer, no beber, no exercitar-se, no prazer.
A esmola, a oração e o jejum são as práticas que chamamos de penitência ou sacrifício (sacro-ofício) que significa tornar sagrado e vivido diante de Deus, por Deus e para Deus, o nosso agir, pensar e cuidar do corpo. Ser fortes de acordo com a Bíblia, como diz Jesus nas Bem-aventuranças, é o contrário do que diz o mundo, pois o mundo diz que ser forte é ser violento e dominar, mas a Bíblia nos ensina que é ilusão, pois a violência e o domínio têm curta duração, e tudo – só é uma questão de tempo – terminará em derrota para a pessoa. Ao contrário, para ser fortes para sempre e sobretudo nas situações mais terríveis, é preciso ser manso, ter paz interior, firmeza interior. E essa força se conquista com a penitência. São os mansos que possuíram a terra.
Não percamos o presente que a Quaresma nos dá.





