Que rei é esse?

A solenidade litúrgica de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, marca a conclusão do ano litúrgico. Ao longo de um ano inteiro, as celebrações da Liturgia nos levam a viver misticamente a história da salvação, acolhendo com fé a ação de Deus e correspondendo com Ele em nossa vida. No centro das celebrações da Igreja está o Mistério da Páscoa de Jesus Cristo, de sua paixão, morte e ressurreição, no qual somos mergulhados e beneficiados continuamente. 

Grande parte do ano litúrgico é dedicada ao anúncio do Evangelho: a comunidade dos discípulos de Cristo acolhe com alegria e vive com gratidão os mistérios da salvação e, também, se faz testemunha e missionária no meio do mundo da vida nova que brota da vivência do Evangelho. A conclusão do ano litúrgico aponta para o final do caminho da história da salvação, para onde se orienta todo o nosso peregrinar pessoal e da história da Igreja e do mundo. 

São Paulo, no início do Cristianismo, já ensinava: nós não cremos apenas para esta vida e para a vida neste mundo (cf. 1Cor 15,19). 

Jesus Cristo glorioso, que em nossa linguagem chamamos de “Cristo Rei do Universo”, está no final de nosso peregrinar. Ele também já está no começo e nos acompanha todos os dias como “caminho, verdade e vida”. A Ele tudo se orienta e todos terão seu encontro pessoal com Ele. A festa de Cristo Rei expressa a compreensão cristã sobre a vida humana e a história, que não estão fechadas sobre si mesmas nem acabam aqui mesmo, neste mundo belo e fascinante, mas com tantas perguntas ainda sem resposta. Toda pregação de Jesus e da Igreja está marcada pela abertura à transcendência e à dimensão sobrenatural da existência humana. O Transcendente já está presente, de alguma forma, em nossa vida humana e na vida do mundo: “O reino de Deus já está no meio de vós” (cf. Lc 17,21). Em outras palavras, Deus e a vida sobrenatural já estão “misturados” com o presente histórico, ainda confuso e ambíguo, pois não vemos claramente, mas por meio do véu da fé. 

Na entrada de Jesus em Jerusalém, o povo aclamou Jesus como “rei de Israel” (cf. Jo 12,13), e isso era uma alusão ao Messias esperado, o descendente de Davi prometido, para ocupar o seu trono de forma eficaz e universal. A expectativa era que Jesus se tornasse rei e expulsasse os romanos. Jesus, porém, não assumiu essas expectativas messiânicas e fugiu quando o queriam aclamar rei (cf. Jo 6,15). Pilatos, no julgamento, perguntou a Jesus, acusado, odiado e jurado de morte: “Tu és o rei dos judeus?” À pergunta insistente de Pilatos, Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo” (cf. Jo 18,33- 38). Ao mesmo tempo, a pregação inteira de Jesus, desde o início até à sua morte na cruz, foi marcada pelo anúncio do reino de Deus: “O reino de Deus chegou, convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15). 

Que rei é esse, que anuncia o “reino”, mas não aceita ser “rei”? Não disputa reinos na terra quem é rei do universo inteiro, dizia um antigo pregador da Igreja. O reino de Deus e o reinado de Cristo Rei não podem ser compreendidos, simplesmente, em comparação com os reis e reinos deste mundo. Seria como colocar Deus ao lado dos reis da terra e reduzir o reino de Deus à sua dimensão humana e política. O reino de Deus e o reinado de Cristo dizem respeito ao senhorio e à soberania de Deus e ao seu “plano” amoroso de criação, vida e salvação. Deus deu origem a este mundo para manifestar seu amor e sua glória, e isso permanece pelo tempo afora, apesar do pecado e da confusão que nós podemos desencadear no mundo e na vida social com nossas escolhas erradas (pecados): escolhas contrárias ao desígnio bom e amoroso de Deus. O reino de Deus é o mundo “salvo” dos males que o afligem, como consequências do pecado. É o mundo, sobretudo o homem, sintonizado com o que Deus pensou para ele. A vontade de Deus é boa, santa e salvadora, e seu reino é eterno e universal: “...reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, amor e paz” (cf. Prefácio da missa de Cristo Rei). 

Que rei é esse, que se esvaziou de sua glória para descer ao encontro da realidade humana, fazendo-se servo de todos, estendendo a mão aos pecadores, procurando os perdidos e entregando sua vida inteira para testemunhar o amor misericordioso de Deus? Ele sabe que o reino de Deus é tão precioso e nos considerou tão preciosos, que considerou de pouca conta tudo o que fez para nos salvar e salvar este mundo. Resta agora fazer a nossa parte. 

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