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Sacrifício não é sofrimento, é amor e treinamento

Outro dia, indo para o escritório, estava tratando de amenidades com o motorista de aplicativo que me levava. Já na porta do meu destino, ele me disse: “O mundo está numa grande desordem, mas é difícil entender por que!”. 

A frase atirada sem aparente intenção, me deu motivos para muitas meditações. Não apenas sobre a tal desordem, seus motivos, mas, por que uma pessoa comum estaria tão incomodada? 

De fato, ninguém pode discordar do motorista filósofo. O mundo está de cabeça para baixo, uma desordem sem tamanho. E isso nos causa grande incômodo, mas por quê? 

Há algo dentro de nós que deseja e nos impulsiona em direção à ordem. Uns mais, outros menos, mas todos nos sentimos melhores em um ambiente organizado e ordenado. 

Isso nos remete aos nossos primeiros pais. Por força do pecado original, perderam seus dons preternaturais, um deles o pleno ordenamento: Espírito, Inteligência e Vontade. 

No plano de Deus, nosso Espírito, em plena harmonia com Ele, ordenaria a nossa Inteligência, que com pensamento igualmente ordenado, comandaria a nossa Vontade. Uma vida alinhada com Deus simples e eficiente. 

Nós, cristãos, em busca da santidade, vivemos essa luta cotidiana para tentarmos nos aproximar desse “ordenamento original”. Contudo, muitas vezes, o que nos comanda são as vontades de nosso corpo, em outras, são as demandas de nossa inteligência que ganham prioridade. 

Seguimos em conflito para que nosso Espírito nos mantenha alinhado à Suma Vontade. Que luta! 

No carnaval, vemos com clareza essa dicotomia entre ordem e desordem. Se, de um lado, muitos deixam suas vontades reinarem nos quatro dias da “festa da carne”, outros lutam com bravura nos 40 dias da Quaresma. 

E isso nos leva a uma das facetas do sacrifício durante o período da Quaresma. Durante essa longa jornada, consentimos em nos sacrificar, nos privamos de algo, nos obrigamos a realizar algum propósito, em amor ao Cristo que tanto se sacrificou por nós. 

Não se trata de alguma medida de compensação, mas sim um sinal de que queremos estar junto a Jesus na Sua jornada até a ressurreição. É o amor, o centro de tudo o que fazemos a Deus. 

O sacrifício, porém, carrega um outro aspecto: buscar nos aproximarmos daquele ordenamento original que nos abandonou. 

Modificados pela vida nos sacramentos, missa, comunhão e penitência, passamos a experimentar um pouco do que isso significa. 

Nosso Espírito elevado a Deus influencia a nossa Inteligência. Nossa Inteligência, então, vê uma lógica inegável no sentido do sacrifício e comanda a nossa Vontade: hoje faremos jejum! 

Não que nosso Espírito não fraqueje, que nossa Inteligência não tenha alguma dúvida ou que nossa Vontade não grite, como criança mimada, querendo que seus desejos sejam atendidos imediatamente. 

Do outro lado, vemos que o nosso mundo se especializou em criar meios para realizamos as nossas vontades. Qualquer dos sentidos, dos mais simples aos mais nefastos, pode ser rapidamente atendido no pressionar de alguns botões. 

E é aqui que voltamos ao carnaval. Não digo que uma folia entre amigos e família, com fantasias engraçadas ou uma reunião festiva seja algo que o cristão não possa fazer. Refiro-me aos exageros, às ações que ofendem a Deus e que muitos dizem ser a grande motivação da festa, a plena realização da desordem. 

No reino de Momo, quem reina, de fato, é o corpo. Como que em um complô, para que suas vontades sejam plenamente atendidas, o mundo empurra a todos para anestesiar a Inteligência. Nem ela poderá alertar sobre os atos sem sentido que a Vontade vai demandar. Ao fundo, o Espírito sofre calado, pois sabe que as consequências têm a dimensão da eternidade. 

Diante disso, nos preparemos para o início desse período frutífero para nosso ordenamento interior. Rezemos a Deus, fonte de toda Ordem, para que nos ajude. Que nossa fidelidade possa servir de reparação pelos pecados cometidos contra o Sagrado Coração de Jesus. 

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