Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

São Paulo e a Igreja sinodal

Falar de “Igreja sinodal” parece ser uma novidade. No entanto, seria equivocado pensar assim. O Papa Francisco ajudou-nos a redescobrir que a Igreja de Jesus Cristo é “sinodal” por sua natureza e assim também foi na prática desde a época apostólica. Isso vem retratado bem no Documento conclusivo das duas assembleias do sínodo sobre a sinodalidade da Igreja (2023 e 2024).

Marcas sinodais da Igreja são a comunhão, a participação e a missão e essas marcas estão claramente presentes nos Evangelhos, na Igreja da era apostólica, especialmente nos escritos de São Paulo, São Pedro e São João. Vejamos como isso aparece nos escritos paulinos.

Marca sinodal fundamental da Igreja é a comunhão em diversos níveis: comunhão em Cristo, uma vez que é Ele o fundamento de nossa fé. A Igreja está unida a Ele, ou não é sua Igreja. No Evangelho de Jesus e na palavra dos Apóstolos, os cristãos encontram os motivos mais profundos de sua vida de fé. “Em Cristo, somos todos unidos num só corpo”. Somos todos membros de um único corpo, do qual Cristo é a cabeça (cf. 1Cor 12). São Paulo intervém na comunidade de Corinto, onde havia divisões, justamente por esse motivo: “Cada um de vós afirma: ‘Eu sou de Paulo’; ou: ‘Eu sou de Apolo’; ou: ‘Eu sou de Cefas’; ou: ‘Eu sou de Cristo’. Acaso Cristo está dividido? Acaso Paulo foi crucificado por vós? Ou é no nome de Paulo que fostes batizados?” (1Cor 1,12-16).

A Igreja, para ser de Cristo, precisa cultivar a comunhão e a unidade. Infelizmente, as divisões acontecem quando se esquecem, ou se deixam de lado os princípios da comunhão e da unidade da Igreja e se colocam particularismos, gostos, ideologias, partidos, interesses e vaidades acima daquilo que é o essencial para a comunhão na Igreja: a união em Cristo, a fé comum, o amor fraterno, a dignidade comum e o serviço ao Evangelho e à glória de Deus. As divisões causam feridas no corpo da Igreja, difíceis de serem cicatrizadas. São Paulo nos ensina muito sobre isso.

Outra marca sinodal importante da Igreja é a participação, o que significa que todos os batizados têm parte no bem da Igreja: o bem do Evangelho, da redenção, da misericórdia alcançada por Cristo para todos sobre a cruz; o dom do Espírito Santo, dos Sacramentos, da fé comum, esperança e caridade; das promessas de Deus, do patrimônio espiritual da vida bimilenar da Igreja, com o testemunho dos Santos e mártires, a sabedoria da fé desenvolvida por tantos pregadores e doutores da Igreja… Quanta bela participação! E isso, a partir da graça batismal e do caminhar com a Igreja, povo dos batizados. Na Igreja, a participação antes de ser ação nossa, é graça recebida de Deus. A participação como ação deve ser nossa resposta aos dons recebidos.

Na Carta aos Efésios, o autor se refere à grande graça da participação dos batizados na bênção de Deus que nos veio por Jesus Cristo: “Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bens espirituais em Cristo!” (Ef 1,3). E considera um mistério da benevolência de Deus que, em Cristo, também os pagãos sejam chamados à mesma bênção: “Nele, também vós ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação. Nele acreditastes e fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia de nossa herança.” (Ef 1,13-14). Todos os cristãos são participantes da família de Deus e ninguém é estranho um ao outro: “Portanto, já não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, tendo o próprio Cristo Jesus como pedra angular” (Ef 2,19-20).

Marca sinodal da Igreja é também a missão, abraçada por todos os batizados, de múltiplas maneiras. Todos os membros da Igreja participam da missão que Jesus Cristo confiou aos seus discípulos. Na Igreja de Cristo ninguém está dispensado de colocar seus próprios dons a serviço do Evangelho e do testemunho do Reino de Deus. A missão não é uma atividade reservada apenas a alguns poucos. São Paulo foi um grande missionário e evangelizador e se entregou inteiramente à missão. Mas não foi um pregador isolado ou solitário: pelo contrário, ele contou com a participação de muitos companheiros de missão (cf. Rm 16) e em cada comunidade deixava encarregados para exercerem o cuidado e a animação da missão (At 20,25-35).

São Paulo usa a comparação do corpo e dos membros para ensinar que na Igreja há uma única cabeça: Cristo. E há muitos membros e funções, como num corpo; nem todos os membros têm a mesma função, mas cada um contribui para o bem do corpo todo. Assim deve ser na Igreja também. Muitos membros, muitas funções e serviços na Igreja; cada batizado e membro da Igreja ajuda na missão da Igreja com o próprio dom. Que São Paulo nos ajude a sermos cada vez mais uma Igreja verdadeiramente sinodal.

Deixe um comentário