O ano litúrgico tem como balizas fundamentais eventos significativos do plano salvífico de Deus. Em preparação ao Mistério da Encarnação, no qual o “verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), temos o tempo do Advento e Natal, grande epifania do rosto invisível de Deus por meio do rosto visível do Filho. Pavimentando o evento da Morte e Ressurreição de Jesus, por sua vez, o tempo da Quaresma e do Mistério Pascal constituem o ponto focal de nossa fé. Com efeito, “se Jesus não ressuscitou, vã é nossa fé”, diz o apóstolo Paulo (1Cor 15,14).
O calendário litúrgico, porém, celebra ainda a festa do Pentecostes, da Ascensão do Senhor, da Santíssima Trindade, de Corpus Christi, de Cristo Rei, da Sagrada Família, do Sagrado Coração de Jesus e de Maria; as diversas festividades em honra da Mãe de Deus e da Igreja; o nascimento e martírio de São João Batista, a memória dos apóstolos, doutores da Igreja, mártires, santos e santas ao longo da história, padroeiros e padroeiras, e assim por diante.
Com razão, alguém poderia perguntar: e o tempo comum, cujo primeiro domingo foi comemorado neste ano no dia 18 de janeiro, para que serve? O que celebramos nestas semanas que, além do mais, divididas em dois momentos, tomam o maior espaço de calendário? Qual o valor dessa longa caminhada? Aqui, é preciso parar para refletir. Não será o tempo comum justamente o período de frequentar a escola de Nazaré? Escola do silêncio e da escuta, tempo de aprendizado. Nos lábios de José, os evangelistas não colocam uma única palavra. Dizem apenas que se trata de um homem justo. Homem certo, no momento certo para fazer a coisa certa: salvar o menino, a família e o plano de Deus.
De Maria, Lucas, no segundo capítulo, praticamente repete por duas vezes uma frase com o mesmo sentido: “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (v. 19). “Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração” (v. 51). Conservar e meditar, dois verbos que supõem um olhar de fé sobre os fatos históricos. As digitais de Deus estão impressas na história humana, pessoal e coletiva.
Quanto a Jesus, surpreendem-nos esses trinta anos de silêncio para vir a público anunciar a Boa Notícia de que que “o tempo se cumpriu, o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e convertei-vos” (Mc 1,15 e Mt 4,17). A família de Nazaré, de fato, constitui a escola de um silêncio reverente e fecundo, terreno em que, por meio da escuta ativa, nasce, cresce e amadurece a palavra da salvação: criativa, libertadora, viva e que vai direta ao coração.
No tempo comum, somos convidados a sentar aos pés do Mestre. Tornamo-nos discípulos para ouvir o que Jesus tem a nos transmitir da escola de Nazaré. Para ser missionário são necessários longos anos de discipulado. Tempo de saborear o sentido das palavras e parábolas do Senhor, suas obras e encontros. Tempo que reforça os alicerces da fé e da esperança, sobre as quais se assentam a justiça e a paz e a solidariedade. Tempo que cimenta as peças e o sentido de todo o edifício litúrgico.





