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Tempo para crescer e progredir

Na Quaresma, a Igreja nos convida a preparar bem a celebração da Páscoa com o chamado à penitência, à conversão e ao crescimento na vida cristã. Esse chamado deve ser compreendido à luz da dinâmica da fé batismal, que nos é dada como uma semente com grandes potencialidades para produzir o seu fruto (cf. Mc 4,3-8). Contrariamente, ela fica sem desabrochar e sem mostrar todo o seu potencial de vida e fruto. A vida cristã também nos é dada como uma plantinha, com extraordinária possibilidade de crescimento e de frutos; mas se for deixada sem cultivo e poda, ela não produzirá frutos (cf. Mt 13,24-30).

Quantas vezes o Batismo é recebido, mas a vida cristã não se desenvolve, por falta de cuidado e de cultivo dessa graça tão extraordinária! Quem é batizado é chamado a crescer na fé e na vida cristã; a evitar que as ervas daninhas dos vícios e do pecado sufoquem a boa plantinha, deixando-a sem vitalidade (cf. Mt 13,1-8). A vida cristã nos é dada como um imenso dom, cujo significado e possibilidades mal conseguimos imaginar.

Qual é o crescimento e qual é o progresso esperado de quem foi batizado? As respostas podem ser resumidas nesta: crescer na fé, esperança e caridade. Não é tudo, mas isso diz muita coisa. Crescer no conhecimento de Deus e de sua vontade; conhecer e amar mais a Jesus Cristo Salvador e crescer como seus discípulos, assumindo mais e mais o Evangelho como norma para a vida; progredir no amor e na comunhão com Deus e no amor ao próximo; crescer em humildade e fidelidade a Deus; progredir na coerência da vida prática com a fé professada; progredir na fidelidade aos mandamentos da lei de Deus; crescer na esperança e no desejo de encontrar Deus e de receber Dele a recompensa eterna; crescer na comunhão e corresponsabilidade para com a comunidade da Igreja, da qual se faz parte por graça de Deus. E ainda muita coisa mais.

Na Quaresma, é oportuno que nos perguntemos: a quantas anda nossa vida cristã? Ela cresceu de acordo com a idade que temos, ou se manteve estagnada na infância? Ela frutifica em boas obras, ou somos como aquela figueira do Evangelho, cobrada por Jesus por não ter frutos (cf. Mc 11,12-14)? Ou como aquele “servo inútil” do Evangelho, que foi severamente repreendido pelo seu senhor por ter sido preguiçoso e não ter feito render o capital que lhe foi confiado? (cf. Mt 25,26-27). Lembremos que, na parábola da videira e dos ramos, os galhos infrutíferos são cortados e jogados ao fogo (cf. Jo 15,6).

No Evangelho, Jesus repreendeu os escribas e os fariseus que se contentavam com uma religião “do mínimo necessário”, convidando os seus discípulos a observarem honestamente os mandamentos da lei de Deus e a viverem de forma sincera o seu culto a Deus (cf. Mt 5,17-37). E o Salmo 118 proclama “feliz, quem na lei do Senhor Deus vai progredindo” (v.1-2). Jesus deu a entender que um dia devemos dar contas a Deus sobre a “administração dos bens” que nos foram confiados durante a vida (cf. Lc 16,2). E São Paulo exorta a comunidade de Corinto a progredir na busca dos bens espirituais para consegui-los em abundância (cf. 1Cor 14,12), e exorta a comunidade dos Tessalonicenses a “progredir mais” na realização do bem (cf. 1Ts 4,10).

No Sermão da Montanha, Jesus corrige a observância minimalista dos mandamentos de Deus e adverte os discípulos: “Se a vossa justiça não maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino de Deus” (Mt 5,20). Tratava-se de estabelecer quanto devem ser obedecidos os mandamentos para não faltar para com Deus. Jesus rejeita essa atitude pouco generosa na religião. A advertência serve também para nós: se nos contentamos com o mínimo do mínimo na prática da fé e da glorificação de Deus, isso significa que que corremos o risco de não entrar no Reino de Deus. Com Deus, devemos ser generosos, já que Ele é providente e misericordioso para conosco e todas as suas criaturas.

Durante a Quaresma, nossa revisão de vida pode estender-se a todos os âmbitos da vida: às práticas religiosas propriamente ditas, que muitas vezes ficam a dever até mesmo o mínimo do mínimo; aos deveres familiares; às responsabilidades sociais; à honestidade nos negócios e nos deveres de cidadania; à prática das obras de misericórdia; aos deveres de respeito e justiça com o próximo… A vida cristã cobre todos os aspectos da vida, na qual somos chamados a crescer e produzir frutos do Evangelho. Que esta Quaresma seja muito proveitosa para todos!

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