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Tempo quaresmal: a coragem de recomeçar 

Há palavras que envelhecem mal na opinião pública. Quaresma é uma delas. Evoca restrição, culpa, uma pedagogia severa que parece deslocada em um mundo educado para a satisfação imediata. No entanto, talvez nenhuma palavra seja hoje mais atual – precisamente porque quase ninguém suporta a própria dispersão. 

A Quaresma não é nostalgia religiosa. É método. Durante 40 dias, a Igreja propõe ao homem algo profundamente contracultural: interromper o automatismo, suspender a voragem, examinar a própria vida com rigor. Não para humilhar-se, mas para reencontrar eixo. 

Recomeçar não é fraqueza; é lucidez. Só recomeça quem reconhece que se desviou. E a experiência moderna, com todo o seu brilho técnico, multiplicou as ocasiões de desvio: excesso de estímulos, opinião permanente, consumo transformado em identidade. A liberdade, confundida com disponibilidade ilimitada de desejos, tornou-se uma forma sofisticada de cansaço. 

A esse cansaço, a tradição cristã responde com três gestos concretos: oração, jejum e esmola. 

A oração é o escândalo do silêncio, ela ensina a escutar. Rezar não é recitar fórmulas; é admitir que não somos o centro do universo e reconhecer que existe uma verdade anterior aos nossos impulsos e preferências. Bastam 15 minutos diários – sem telefone, sem notificações, sem música para que essa experiência se imponha. Mesmo para quem não professa a fé, essa disciplina do silêncio é resistência contra a tirania do ruído. 

O jejum, por sua vez, é pedagogia da liberdade. Renunciar voluntariamente a algo legítimo – alimento, tecnologia, palavras precipitadas – é recordar que o desejo não é soberano. Quem não sabe dizer “não” a si mesmo termina escravo de impulsos que prometem prazer e entregam dispersão. O caminho começa por um limite verificável: reduzir o uso das redes sociais, suspender o álcool durante a semana, calar antes de reagir. O jejum não empobrece, hierarquiza. 

A esmola completa a arquitetura. Não basta ordenar a interioridade; é preciso deslocar-se. Dar – tempo, atenção, recursos – rompe o círculo estreito do próprio interesse. A caridade não é sentimentalismo; é decisão de reconhecer no outro uma dignidade igual à própria. Quase sempre começa por gestos simples e exigentes: visitar alguém esquecido, comprometer-se com uma obra social, destinar parte real do orçamento a quem precisa. Sem essa saída de si, a vida espiritual degenera em narcisismo moral. 

Na mensagem para a Quaresma de 2026, o Papa Leão XIV não ofereceu conselhos piedosos; propôs dois verbos exigentes: escutar e jejuar. Escutar não como etiqueta civilizada, mas como disposição real de deixar-se corrigir. Jejuar não como cálculo alimentar, mas como recusa da palavra precipitada, da reação automática e da agressividade verbal que deteriora a vida comum. A verdadeira abstinência, sugeriu ele, começa na língua: abdicar das frases que atingem, aprender a medir o discurso, aceitar que a conversão passa pelo modo como falamos – e, sobretudo, pelo modo como ferimos. 

Tudo converge para a Páscoa – essa afirmação escandalosa de que a vida pode vencer a morte. A fé cristã sustenta que nenhum fracasso é definitivo e nenhuma queda é irrecuperável. 

Em um tempo que celebra a performance e teme o exame de consciência, a Quaresma reaparece como coragem de recomeçar. Não se trata de privação, mas de clareza; não de culpa, mas de responsabilidade. 

A pergunta decisiva não separa o religioso do humano; obriga-os a coincidir: estamos vivendo segundo a verdade? Para o Cristianismo, essa verdade não é conceito nem opinião – é uma Pessoa. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”: a afirmação não admite reduções. Quando o homem evita essa pergunta, dispersa-se; quando a enfrenta, converte-se. Se ela nos inquieta, então a Quaresma já começou – não como tradição cultural, mas como decisão de alinhar a própria vida com a verdade que a sustenta. 

 

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