‘O Sínodo não é um parlamento, mas um caminho de escuta iluminado pelo Espírito Santo’

Cardeal Scherer, durante Sínodo de 2015 (foto: Arquivo/Vatican Media)

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Cardeal Odilo Pedro Scherer explicou o significado do processo sinodal convocado pelo Papa Francisco e enfatizou que esse caminho tem por objetivo aprofundar a consciência sobre a natureza e missão da Igreja.

O Arcebispo de São Paulo também destacou que a experiência vivida durante o sínodo arquidiocesano, convocado em 2017, é um exemplo concreto da sinodalidade à qual toda a Igreja é chamada a refletir. Confira.

O SÃO PAULO – Em que consiste o caminho sinodal aberto pelo Papa Francisco?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – Antes de tudo, é preciso dizer que este é um momento novo e bonito na vida da Igreja, em que o Papa convoca toda a Igreja para uma nova tomada de consciência sobre si mesma. O Sínodo é sobre a sinodalidade, algo que faz parte da Igreja desde o seu início e se traduz como a unidade, a colegialidade e a comunhão eclesial. A sinodalidade é uma qualidade na qual o povo dos batizados é considerado Igreja. O Papa, portanto, faz uma chamada a todo este povo para que tome consciência de si mesmo. A Igreja é o povo dos batizados, em que nem todos fazem as mesmas coisas, mas todos são importantes com seus próprios dons e, portanto, chamados a contribuir para a vida e a missão da Igreja.

É por isso que haverá as fases diocesanas e continentais do Sínodo?

Nas assembleias sinodais anteriores, também aconteciam as fases prévias de consultas aos vários organismos eclesiais e conferências episcopais. É a primeira vez, porém, que essa consulta acontece mais amplamente a todo o povo de Deus. Agora, uma vez que o tema é a própria sinodalidade da Igreja, o Papa deseja que todos participem do processo desde o início, tomando consciência do tema e, ao mesmo tempo, daquilo que somos como Igreja. Por isso, essa etapa inicial não é considerada apenas uma preparação para o Sínodo, já é parte da vivência do Sínodo.

Durante os eventos relacionados a este Sínodo, o próprio Papa afirmou que, talvez, não devamos falar tanto de “sinodalidade”, mas de uma “Igreja sinodal”. A sinodalidade é um conceito teológico, bonito, mas que, por vezes, pode ser apenas um conceito abstrato, árido, que não desce à realidade concreta. O que se pretende é, de fato, fazer a experiência do caminho sinodal.

Nesse sentido, o Pontífice alertou para alguns riscos da má compreensão desse processo. O senhor poderia nos citar alguns? 

O Santo Padre enfatizou que o Sínodo não consiste em um simpósio teológico que reúne peritos para discutir sobre a sinodalidade. Não! É importante que todo o povo de Deus possa perceber o que significa uma Igreja sinodal. Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco tem alertado bastante para o “clericalismo”, isto é, a ideia de que a Igreja pertence ao clero. Isso está muito presente na opinião pública hoje em dia, que entende o clero como o dono da Igreja e os fiéis como os seus “fregueses” ou beneficiários. Essa é uma imagem totalmente equivocada da Igreja. Ela não é uma ONG [organização não governamental] que tem donos. É uma instituição que tem um Senhor, Jesus Cristo, que se doou inteiramente por ela, derramando o seu sangue e, portanto, é seu maior servidor.

Nos noticiários, o Sínodo tem sido apresentado como uma ‘grande escuta democrática’ para decidir sobre o futuro da Igreja. Isso corresponde ao seu real significado?

Não! A Igreja permanece aquilo que ela é, ou seja, obra da graça de Deus. A Igreja não é criatura humana nem invenção dos homens. É fruto do anúncio da Palavra de Deus e da resposta dada pela humanidade a ela. A Igreja é, portanto, animada pelo Espírito Santo. Se não fosse assim, não estaríamos aqui depois de 2 mil anos. É esse Espírito que a conduz e a renova. Estamos, de fato, em um processo de renovação da Igreja para que ela seja cada vez mais aquilo que é chamada a ser. Então, não se trata simplesmente de uma organização humana que se pauta e se orienta por critérios humanos, tais como pesquisas de opinião ou um processo decisório democrático. A Igreja, sim, está usando meios abertos de escuta, pois queremos ouvir o que as pessoas dizem. Mas não significa que essa escuta leve imediatamente a decisões de maioria. É preciso haver um discernimento eclesial, segundo aquilo que é próprio da Igreja. Por isso, o Papa, no seu primeiro discurso, falou com muita ênfase que o Sínodo não é um parlamento, tampouco um processo político para formar maiorias. Temos que ter isso muito presente, senão formamos ideias equivocadas a respeito do processo sinodal.

Na conclusão da assembleia do Sínodo, o que é entregue ao Papa como resultado desse processo?

O Sínodo, por sua natureza, é consultivo. O Papa o convoca para ouvir e ele é, de fato, o primeiro ouvinte do processo sinodal. Eu participei de quatro assembleias sinodais – 2008, 2012, 2014 e 2015 –, e é interessante ver que o Santo Padre faz um discurso de abertura e, depois, nas três semanas que se seguem, ele apenas ouve e praticamente não faz intervenções. O Papa recebe todo esse processo de escuta reunido em um documento final. Eventualmente, o Pontífice pode decidir que esse documento seja publicado como palavra do Sínodo, portanto, consultiva; também pode dar voz decisória para o sínodo sobre algum tema específico. Isso, porém, não tem acontecido até agora. Esse documento final traz indicações, proposições, sugestões ou manifestações de anseios da Igreja. O Papa, então, reflete sobre isso e dá a sua palavra, que é a exortação apostólica pós-sinodal, portanto, sua palavra de autoridade sobre aquilo que ele ouviu.   

No que o Sínodo difere de um Concílio?

Embora o Concílio muitas vezes seja chamado de Sínodo, como podemos ver em vários documentos conciliares se referirem a ele como o “santo sínodo”, sua natureza é diferente do Sínodo dos Bispos, que é apenas representativo do episcopado, pois apenas alguns bispos participam das suas assembleias. Em um Concílio, todo o episcopado é convocado a participar. Presidido pelo Papa, o Concílio tem uma voz de magistério. Mesmo assim, a palavra conciliar deve ser sempre promulgada pela autoridade do Pontífice. Já o Sínodo, como disse antes, é por sua natureza consultivo. A diferença básica está aí.

É possível dizer que os frutos desse Sínodo poderão ser colhidos já ao longo do caminho?

Sem dúvidas. Nós temos essa experiência também aqui em São Paulo, pois já estamos no quarto ano do nosso sínodo arquidiocesano. Embora esteja parado por causa da pandemia, o processo ainda está vivo. Houve um primeiro momento de preparação, oração e tomada de consciência. Depois, começou o processo de escuta, mediante um levantamento que envolveu muitas pessoas. Foram mais de 300 voluntários treinados e orientados por uma comissão técnica para ir às ruas e ouvir o povo. Foram abordados mais de 50 mil domicílios. Nem todos abriram as portas. No entanto, mais de 21 mil quiseram responder às 112 perguntas do questionário elaborado. Para nós, esse processo já está trazendo resultados. Em primeiro lugar, o povo que foi visitado e teve a possibilidade de ser ouvido ficou muito feliz. Em segundo, a tomada de consciência da situação já motivou o surgimento de muitas iniciativas nas paróquias, nas organizações da Igreja e na vida pastoral. Portanto, a experiência de Igreja sinodal, de uma forma ou de outra, traz resultados.

E como fica o sínodo arquidiocesano em meio ao processo convocado pelo Papa? 

Nós faremos na Arquidiocese tudo aquilo que foi pedido para todas as dioceses nesse Sínodo universal. Só que temos a vantagem desse caminho percorrido, de uma experiência que ainda estamos vivendo. Devo dizer que foi nas reuniões do Conselho do Sínodo dos Bispos, do qual fui membro por oito anos, que percebi a insistência com que o Papa falava da sinodalidade. Então, pensei que seria o momento de a Arquidiocese ter um sínodo, inclusive para ir mais a fundo na percepção das grandes questões postas à Igreja desde o Concílio, que ainda não foram assimiladas suficientemente, sobretudo as grandes propostas que dele emanaram.

Por isso, deve ser motivo de alegria podermos compartilhar com a Igreja toda a experiência que fizemos aqui em São Paulo. Aliás, o vademécum do Sínodo dos Bispos diz que as dioceses que tenham experiência de um caminho sinodal devem compartilhá-la com toda a Igreja. Isso também, por outro lado, permite-nos aprofundar mais ainda a reflexão do nosso sínodo de maneira que, aquilo que trabalhamos nos últimos três anos, toma uma nova percepção. Fico muito feliz em ver confirmado o caminho que empreendemos em 2017.

Como a Arquidiocese deve viver essa fase do Sínodo da Igreja?

Convido todos a viver este processo como um grande momento do Espírito Santo na Igreja. Sempre que o invocamos, pedimos que ele renove a face da terra, mas ele conta conosco para essa renovação. Portanto, vivamos o Sínodo como um momento de graça, escuta e discernimento a partir das luzes do Espírito Santo. Por outro lado, vivamos com gratidão e generosidade. Vamos dar os passos que nos foram propostos com o maior número de pessoas possível, sobretudo envolvendo os conselhos paroquiais de pastoral, as lideranças de todas as organizações eclesiais, de maneira que, fazendo isso, nossa Igreja só tem a se enriquecer. Assim, também “reaqueceremos os motores” para bem retomarmos o nosso sínodo arquidiocesano, que consiste justamente na etapa do discernimento para a apresentação de sugestões e tomada de decisões.

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