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A consciência que se cumpre – e a fé que chama

Para o cristão, toda boa leitura é um diálogo entre sua humanidade e a do autor, como demonstrado neste artigo

A consciência que se cumpre – e a fé que chama - Jornal O São Paulo

SABINO, Fernando. O encontro marcado. São Paulo: Record, 2023 [1ª. Edição: Civilização Brasileira, 1956]

Há livros que não nos pedem leitura, mas resposta. O Encontro Marcado pertence a essa categoria rara. Fernando Sabino não constrói uma narrativa de feitos extraordinários, mas um itinerário interior: o percurso de uma consciência diante do tempo, da liberdade e do sentido. Sua importância não reside nos acontecimentos que encena – discretos, quase banais –, mas na inquietação que instala, persistente e silenciosa, como uma pergunta que não se deixa calar.

O romance acompanha a vida de Eduardo Marciano. Inteligente, sensível, curioso, cercado de amigos, leituras e oportunidades, Não sofre de carência, mas de excesso. Nada lhe falta. Seu drama nasce justamente daí. O mundo não lhe impõe limites claros; oferece-lhe muitos caminhos. Incapaz de hierarquizar, ele substitui a decisão pela experiência sucessiva. Vive como quem ensaia indefinidamente uma vida que nunca assume como tarefa. Não escolhe; experimenta. Não se compromete; observa-se.

A primeira parte do romance constrói essa dispersão com rigor silencioso. Amizades, debates, projetos intelectuais – tudo começa, quase nada se fixa. Eduardo não foge do mundo; adia-o. Não recusa a vida; suspende-a. Sua inteligência, em vez de ordenar, multiplica possibilidades e dissolve o tempo em uma sucessão contínua de começos.

É ao final dessa etapa que surge a frase mais citada do livro: “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando; a certeza de que era preciso continuar; e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.” Fora do contexto, a passagem soa como síntese de sabedoria. Inserida na narrativa, porém, funciona como balanço existencial. Ela descreve um estado da alma – não um destino.

Foi exatamente nesse ponto que o livro mais me tocou – e me exigiu. Não pela beleza da formulação, mas pelo risco que ela revela quando tomada como palavra final. A frase é bela, mas perigosa se absolutizada. Pode transformar a interrupção em virtude, o adiamento em método e a procura em identidade. Aqui se impõe o discernimento: há correntes existencialistas que vivem dessa elegância, fazendo da inquietação não um caminho para a Verdade, mas um fim em si mesma. Minha fé resiste a essa sedução – não por desprezo da fragilidade humana, mas por recusa de uma estética do provisório que abdica da decisão.

O romance, contudo, não se encerra nesse impasse. A pergunta sobre Deus – lançada ainda no ginásio – retorna como ferida viva ao longo do livro. Sua inquietação não é apenas psicológica ou moral, mas religiosa. Deus não é negado; é resistido. Amor, amizade, cultura e reconhecimento são buscados com intensidade, mas revelam seu limite quando chamados a ocupar o lugar do fim último.

O desfecho simbólico confirma essa chave (evitemos spoilers): não é apenas tragédia narrativa; é figura de renascimento. O encontro anunciado no título não é social nem sentimental, mas sobrenatural: encontro com a Verdade que não se fabrica, mas se recebe.

Aqui a tradição cristã oferece a chave decisiva. Como escreveu Santo Agostinho, o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. O Encontro Marcado não é o romance de uma consciência fracassada, mas de uma consciência em vias de conversão. A inquietação não é negada – é redimida. E o encontro deixa de ser ensaio para tornar-se, enfim, caminho.

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