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A educação e o diálogo do coração

Na passagens a seguir, de Desenhar novos mapas de esperança, Leão XIV nos apresenta o valor cristão da educação, mostrando-a não como uma simples exposição de conteúdos e valores formativos, mas como um espaço em que ‘o coração dialoga com o coração’.

A educação e o diálogo do coração - Jornal O São Paulo

Com a declaração conciliar Gravissimum educationis, o Concílio Vaticano IIlembrou à Igreja que a educação não é uma atividade acessória, mas forma o próprio tecido da evangelização: é o modo concreto pelo qual o Evangelho se torna um gesto educativo, uma relação, uma cultura. Hoje, diante das rápidas mudanças e das incertezas desorientadoras, esse legado demonstra uma resiliência surpreendente. Onde as comunidades educativas se deixam guiar pela palavra de Cristo, elas não recuam, mas se revitalizam; não constroem muros, mas pontes […] porque o Evangelho não envelhece, mas faz “todas as coisas novas” (Ap 21,5) […]

Vivemos em um ambiente educativo complexo, fragmentado e digitalizado. Precisamente por isso, é sábio fazer uma pausa e voltar o nosso olhar para a “cosmologia da paideia* cristã”: uma visão que, ao longo dos séculos, soube renovar-se e inspirar positivamente todos os aspectos multifacetados da educação. Desde as suas origens, o Evangelho gerou “constelações educativas”: experiências humildes e poderosas, capazes de interpretar os tempos, de preservar a unidade entre fé e razão, entre pensamento e vida, entre saber e justiça. Em tempos de tempestade, foram uma tábua de salvação; em tempos de calmaria, uma vela desfraldada […]

A Igreja é “mãe e mestra” não por supremacia, mas por serviço: acompanha o crescimento da liberdade, assumindo a missão do Divino Mestre para que todos “tenham vida, e a tenham em abundância” ( Jo 10,10) […] A educação cristã é um esforço coletivo: ninguém educa sozinho. A comunidade educativa é um “nós”, em que professores, alunos, famílias, pessoal administrativo e de apoio, pastores e sociedade civil convergem para gerar vida […] O fundamento permanece o mesmo: a pessoa, imagem de Deus (Gn 1,26), capaz de verdade e de relacionamento. Portanto, a questão da relação entre fé e razão não é um capítulo opcional: “A Verdade Religiosa não é apenas uma parte, mas uma condição do conhecimento geral”. Estas palavras de São João Henrique Newman […] são um convite a renovar o nosso compromisso com um conhecimento que seja tão intelectualmente responsável e rigoroso quanto profundamente humano. Devemos também ter cuidado para não cair na armadilha de um iluminismo de fé associado exclusivamente à razão. Precisamos emergir da superficialidade, recuperando uma visão empática e aberta, e compreender melhor como a humanidade se compreende hoje, a fim de desenvolver e aprofundar nosso ensinamento. É por isso que o desejo e o coração não devem ser separados do conhecimento: isso significaria dividir a pessoa. As universidades e escolas católicas são lugares onde as perguntas não são silenciadas e a dúvida não é banida, mas sim acompanhada. O coração, ali, dialoga com o coração, e o método é o da escuta que reconhece o outro como um trunfo, não como um mero obstáculo.

* Sistema de educação e formação integral, na Grécia Antiga, que buscava desenvolver o homem em suas esferas física, intelectual, moral e artística, visando a criar um cidadão completo

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