A Igreja e a árvore das ciências

“Precisaria a Igreja da ciência? Certamente que não, a cruz e o Evangelho bastam-lhe. Mas ao cristão nada de humano é alheio. Como poderia a Igreja desinteressar-se da mais nobre das ocupações estritamente humanas: a busca da verdade?” (Mons. Georges Lemaître (1894-1966), astrofísico, precursor da teoria do “Big Bang” e um dos presidentes da Academia Pontifícia das Ciências citado por SÃO JOÃO PAULO II, no Discurso à Academia por ocasião do primeiro centenário do nascimento de Albert Einstein).

A Igreja e a árvore das ciências, Jornal O São Paulo
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A relação Igreja e ciência pode soar para muitos um grande conflito, como se nossa adesão à fé fosse provada quando preterida à ciência. E, para combinar com essa lógica, supõe-se que o cientista exitoso leve uma vida caracterizada pela rejeição à fé.

Portanto, causa certa surpresa encontrar na estrutura organizacional da Igreja a Pontifícia Academia de Ciências, considerada uma das mais conceituadas entidades científicas do mundo. Tem suas raízes na Academia dos Liceus, fundada em Roma, que existiu de 1603 a 1630, e foi a primeira academia exclusivamente científica do mundo. Em 1847, foi restabelecida pelo Papa Pio IX, e, em 1936, renovada e reconstituída por Pio XI, que lhe deu o nome atual.

Eleitos pelos demais acadêmicos e nomeados pelo Santo Padre, seus 80 membros são cientistas reconhecidos internacionalmente. Entre eles encontram-se desde Stephen Hawking (1942-2018), um proclamado ateu, popularizador da Cosmologia, até Jérôme Lejeune (1926-1994), católico zeloso, descobridor da anomalia cromossômica responsável pela Síndrome de Down, grande defensor da vida e um dos idealizadores da Pontifícia Academia Pró-Vita.

A Igreja e a árvore das ciências, Jornal O São Paulo
A Igreja e a árvore das ciências, Jornal O São Paulo

Ao cultivar a ciência, por meio da Academia, a Igreja estimula o desenvolvimento de uma frondosa árvore, cujos ramos são as diferentes áreas do conhecimento científico, e assim pode colher três preciosos frutos.

O primeiro fruto é o da fidelidade ao anúncio de Cristo, como alertado por São João Paulo II, numa carta ao Pe. George V. Coyne, na época diretor do Observatório Astronômico Vaticano, “a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição”. Visto que fé e ciência provêm da mesma fonte divina de toda a Verdade, corremos o risco de sobrepô-las se não entendermos que pertencem a duas diferentes ordens de conhecimento, desvirtuando a Palavra de Deus com falsas interpretações. As Sagradas Escrituras são um tesouro para nós, mas nelas não estudamos ciências, e sim conhecemos a Cristo, o Verbo encarnado do Pai, latente no Antigo Testamento e revelado no Novo Testamento.

O segundo fruto considera a condição material da humanidade e o serviço que a ciência presta ao ser humano visando a prover suas necessidades físicas. Continua São João Paulo II, na carta citada, “a religião pode purificar a ciência da idolatria e do falso absolutismo”, portanto a ciência não fica ensimesmada em si mesma, é para nós.

A Igreja é chamada, pela sua essencial vocação, a promover o desenvolvimento integral do ser humano, porque, como explica São João Paulo II na encíclica Redemptor Hominis (RH 14), ele é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão, via traçada pelo próprio Cristo.

Tendo em vista o princípio do destino universal de todos os bens da criação, Bento XVI, numa carta à então presidente da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, Mary Ann Glendon, nos ensina que “tudo aquilo que a terra produz e tudo o que o ser humano transforma e fabrica, toda a sua ciência e a sua tecnologia, tudo deve servir para o bem do desenvolvimento e para a realização da família humana e de cada um dos seus membros”.

Como terceiro fruto para a Igreja, a Academia incentiva a conciliação entre a fé e a ciência, colaborando para que todos, representantes da Igreja, membros católicos, membros que professam outras religiões e membros ateus, se reúnam na procura da Verdade, busca que foi colocada no coração do ser humano por Deus. Nesse sincero diálogo, se destacaram ocasiões muito importantes, como as primeiras pesquisas de datação do Santo Sudário (1988), a reabilitação de Galileu Galilei (processo de 1981 a 1992) e a compreensão de como a evolução é compatível com a fé católica.

Sobre a questão da evolução, por exemplo, se sobressaem justamente as palavras de São João Paulo II e do Papa Francisco proferidas à Pontifícia Academia de Ciências. O primeiro, em 1996, lembrava: “Em sua encíclica Humani generis (1950), meu predecessor Pio XII já afirmou que não há conflito entre a evolução e a doutrina da fé sobre o homem e sua vocação, desde que não percamos de vista certos pontos fixos [...] Hoje, mais de meio século após o aparecimento dessa encíclica, algumas novas descobertas nos levam a reconhecer a evolução como mais do que uma hipótese”. O Papa Francisco, no encerramento de uma sessão plenária sobre o tema em 2014, declarou que “a evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem”.

Atualmente, o trabalho da Academia compreende seis grandes áreas: Ciência fundamental, Ciência e tecnologia dos problemas globais, Ciência para os problemas do mundo em desenvolvimento, Política científica, Bioética e Epistemologia.

Que a Pontifícia Academia de Ciências possa sempre cultivar essa árvore de bons frutos, pois “a ciência em si mesma é boa, por ser conhecimento do mundo que é bom, criado e visto pelo Criador com satisfação” (SÃO JOÃO PAULO II. Discurso à European Physical Society).

5 comentários em “A Igreja e a árvore das ciências”

  1. Ótimo texto, Marina! É muito importante ver uma cientista, como você, mostrar que a ciência e a igreja (analoganente, razão e fé) não andam separadas.

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  2. Parabéns pelo texto à Marina e a'O São Paulo pela iniciativa. Deixaria a indicação de outra encíclica para leitura: Fides et Ratio de São João Paulo II.

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  3. Parabéns pelo artigo. Oportuno. Ainda Monsenhor Georges Lemaître: «Ambos (o sábio crente e o sábio não crente) se esforçam por decifrar o palimpsesto multiplamente imbricado da natureza, em que os vestígios das diversas épocas da longa evolução do mundo se foram cobrindo e confundindo. O crente possui talvez a vantagem de saber que o enigma tem solução, que a escrita subjacente é afinal obra dum ser inteligente, portanto que o problema apresentado pela natureza foi posto para ser resolvido, e que a sua dificuldade é sem dúvida proporcionada à capacidade presente ou futura da humanidade. Isto não lhe dará talvez novos recursos na investigação, mas contribuirá para o conservar neste são optimismo sem o qual um esforço suportado não pode manter-se muito tempo» (O.c., p. 11).

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  4. Parabéns Marina! Ótimo texto esclarecendo que ciência e religião andam de mãos dadas. Lembrando ainda que muitas fontes do direito encontram suas raízes nas passagens bíblicas.
    Forte Abraço

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