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Cristo nas artes plásticas e no cinema

Na Páscoa, é comum a exibição de filmes sobre Jesus. Uma admoestação da série The Chosen é oportuna: se quiser conhecer a Cristo, leia os Evangelhos; os filmes são entretenimento. Eles nos falam mais sobre nossa busca por Aquele pelo qual nosso coração anseia… Mas a arte faz isso desde os inícios do Cristianismo.

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No Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, do século VI, repousa a mais antiga representação de Cristo conhecida: um Pantocrator, o Cristo “Senhor do Universo”. Não se conhece o seu autor (os ícones não costumam nomear o autor, que se considera mero instrumento do Espírito). O rosto de Cristo é assimétrico, um lado representando sua divindade, outro sua humanidade – a obra não quer mostrar a realidade visível, mas a transcendência invisível aos olhos. O Senhor da Glória amou a cada um de nós, a ponto de se sacrificar por nós… Mas, mesmo em seu sacrifício, resplandece Sua glória.

Essa visão, até hoje presente no Catolicismo oriental, marcou a arte cristã por séculos. O Pantocrator, emoldurado por mosaicos dourados, adornou as igrejas medievais até o Renascimento. A partir do século XIV, o antropocentrismo humanista quis exaltar o humano, não tanto o divino. Cristo permanecia central, mas agora representado de forma realista, com beleza harmônica e equilibrada. Na encarnação se valoriza o humano, Deus torna-se homem para revelar no humano uma centelha divina. Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo, entre os séculos XV e XVI, são os grandes mestres deste tempo.

Mas a glória humana é fugaz! Os cristãos logo perceberam que ela é incomparavelmente menos presente que a injustiça, a dor e a morte. O Barroco, a partir dos séculos XVII e XVIII, com Caravaggio, Rubens, Velázquez e outros, passou a mostrar Cristo sofredor, padecendo intensamente. O povo simples se identificou e até hoje grande parte do imaginário cristão popular carrega essa imagem, que não deixa de ser justa: “A morrer crucificado / teu Jesus é condenado / Por teus crimes, pecador!”.

Nos séculos XIX e XX, gravuras como as de Gustave Doré e reproduções comerciais cristalizaram outra imagem de Cristo: sentimental e devocional, reconfortante, perpetuada em calendários, Bíblias ilustradas e cartões. Democratizaram a imagem sagrada, levando Cristo para cada lar – mas muitas vezes banalizaram o Mistério, transformando o Transcendente em decoração pietista.

Paralelamente, mestres da arte moderna, como Gauguin, com seu Cristo Amarelo; Rouault, Nolde, com seus perturbadores Cristos expressionistas; Chagall, com sua Crucificação Branca, negaram a representação naturalista. Suas imagens tornam-se manifestos que exprimem a dor do mundo com cores violentas, agonia evidente, formas fragmentadas.; ou parecem desenhos ingênuos de crianças, refletindo o desejo de uma paz e uma pureza inalcançáveis.

Após o Concílio Vaticano II, a arte sacra vem fazendo um movimento de volta às origens. A sede por um encontro com Cristo simples, encarnado e profundo, revela-se, por exemplo, na obra do brasileiro Cláudio Pastro. Ele recuperou a transcendência das fontes paleocristãs e bizantinas, rejeitando o sentimentalismo, encarnando traços brasileiros mestiços. É uma arte que afirma: o Verbo continua presente em nossos tempos, na carne de nosso povo.

Cada rosto de Cristo é espelho da fé. Não pintamos Cristo como foi, mas como se manifesta a nós. Algumas vezes essas representações atestam nosso fechamento diante do Mistério. Em outras, são o retrato comovente do coração que busca a Deus e dedica toda a sua arte para celebrar o encontro com Ele.

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