Cercado de incógnita e fascínio, o Sudário de Turim, de tempos em tempos, volta a ser envolvido em polêmicas. Autores recentes tentaram retomar a ideia de que se trata de uma impressão feita a partir de um molde medieval, apesar de a própria ciência já ter descartado esta hipótese. A Igreja não declara que seja realmente o lençol que envolveu Cristo morto, incentivando as pesquisas científicas sobre ele. Porém, como lembra Bento XVI, na belíssima meditação da qual extraímos os trechos a seguir, é um “ícone extraordinário” da Paixão de Cristo.

Pode-se dizer que o Sudário é o Ícone do Sábado Santo. De fato, é um lençol sepulcral, que envolveu o corpo de um homem crucificado, totalmente correspondente a quanto os Evangelhos nos dizem de Jesus […] O Sábado Santo é o dia da ocultação de Deus, como se lê em uma antiga homilia: “O que aconteceu? Hoje sobre a terra há um grande silêncio, grande silêncio e solidão. Grande silêncio porque o Rei dorme… Deus morreu na carne e desceu para abalar o reino dos infernos” (Homilia sobre o Sábado Santo, pg 43,439) […]
[Neste tempo] a humanidade tornou-se particularmente sensível ao mistério do Sábado Santo. A ocultação de Deus faz parte da espiritualidade do homem contemporâneo, de maneira existencial, quase inconsciente, como um vazio no coração que se foi alargando cada vez mais. Esta célebre expressão, observando bem, é tomada quase ao pé da letra da tradição cristã, frequentemente a repetimos na Via-Sacra, talvez sem nos darmos conta plenamente do que dizemos. Depois de duas guerras mundiais, os lager e os gulag, Hiroshima e Nagasaki, a nossa época tornou-se um Sábado Santo em medida cada vez maior: a escuridão desse dia interpela todos os que se questionam sobre a vida, de modo particular interpela a nós, crentes. Também nós somos responsáveis por esta escuridão.
E, no entanto, a morte do Filho de Deus, de Jesus de Nazaré, tem um aspecto oposto, totalmente positivo, fonte de consolação e de esperança. Isto faz-me pensar no fato de que o Santo Sudário se comporta como um documento “fotográfico”, dotado de um “positivo” e de um “negativo”. Com efeito, é exatamente assim: o mistério mais obscuro da fé, ao mesmo tempo, é o sinal mais luminoso de uma esperança que não tem confim. O Sábado Santo é a “terra de ninguém” entre a morte e a ressurreição, mas nesta “terra de ninguém” entrou Um, o Único, que a atravessou com os sinais da sua Paixão pelo homem: Passio Christi. Passio hominis. O Sudário fala-nos precisamente deste momento, testemunha aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo, no qual Deus, em Jesus Cristo, partilhou não só o nosso morrer, mas inclusive o nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical.
Naquele “tempo-além-do-tempo”, Jesus Cristo “desceu à mansão dos mortos”. O que significa esta expressão? Quer dizer que Deus, feito homem, chegou até ao ponto de entrar na mais extrema e absoluta solidão humana, onde não chega raio de amor algum, onde reina o abandono total sem palavra de conforto alguma: “mansão dos mortos”. Jesus Cristo, permanecendo na morte, ultrapassou a porta desta solidão última para nos guiar também a nós a ultrapassá-la com Ele. Todos nós sentimos algumas vezes uma sensação assustadora de abandono, e o que mais nos assusta é precisamente isso, como quando somos crianças, temos medo de estar sozinhos no escuro e só a presença de uma pessoa que nos ama pode dar-nos segurança.
No Sábado Santo, no reino da morte, ressoou a voz de Deus. Sucedeu o impensável: ou seja, que o Amor penetrou “na mansão dos mortos”: também no escuro extremo da solidão humana mais absoluta nós podemos escutar uma voz que nos chama e encontrar alguém que nos pega pela mão e nos conduz para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar; e se até no espaço da morte penetrou o amor, então também lá chegou a vida. Na hora da extrema solidão, nunca estaremos sozinhos: “Passio Christi. Passio hominis”.
Este é o mistério do Sábado Santo! Exatamente do escuro da morte do Filho de Deus brilhou a luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição. E eis que, parece-me, olhando para este Santo Lençol com os olhos da fé se perceba algo desta luz. Com efeito, o Sudário foi imerso naquela escuridão profunda, mas, ao mesmo tempo, é luminoso; e eu penso que se milhões e milhões de pessoas vêm venerá-lo – sem contar quantos o contemplam por meio das imagens – é porque nele não veem só a escuridão, mas também a luz; não tanto a derrota da vida e do amor, mas, ao contrário, a vitória, a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio; veem a morte de Jesus, mas entreveem a sua Ressurreição. Agora a vida pulsa no seio da morte, porque lá habita o amor. Este é o poder do Sudário: do rosto deste “Homem do sofrimento”, que traz em si a paixão do homem de todos os tempos e lugares, também as nossas paixões, os nossos sofrimentos, as nossas dificuldades, os nossos pecados – Passio Christi. Passio hominis – promana uma solene majestade, um senhorio paradoxal. Este rosto, estas mãos e estes pés, este lado, todo este corpo fala, ele próprio é uma palavra que podemos escutar no silêncio. De que modo fala o Sudário? Fala com o sangue, e o sangue é a vida! O Sudário é um Ícone escrito com o sangue; sangue de um homem flagelado, coroado de espinhos, crucificado e ferido no lado direito. A imagem impressa no Sudário é a de um morto, mas o sangue fala da sua vida. Cada traço de sangue fala de amor e de vida. […] É como uma fonte que murmura no silêncio, e nós podemos ouvi-la, podemos escutá-la, no silêncio do Sábado Santo.
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