Apesar de sua enorme importância e de ser um dos personagens mais fascinantes dos primeiros anos da colonização brasileira, pode-se dizer que José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, permanece pouco conhecido até mesmo onde sua presença foi mais decisiva, como é o caso de São Paulo. Alguns leitores acharão estranho afirmar que se trata de figura pouco conhecida: afinal, todos já ouviram falar de sua atuação no Pateo do Collegio, núcleo que deu origem a esta cidade; muitos também têm notícia sobre seus autos e poemas, embora eles sejam cada vez menos lidos nas escolas. Mas provavelmente as informações que a maioria das pessoas possui sobre Anchieta se restringem a isso. Desse modo, continua válida a recomendação desta que talvez seja a melhor biografia existente sobre o Santo

O jesuíta Armando Cardoso, provavelmente o maior especialista brasileiro sobre Anchieta, uma vez que foi o responsável pela edição de sua obra, é o autor de Vida de São José de Anchieta: um Carismático que Fez História (São Paulo, Edições Loyola). Um dos grandes méritos do livro é sua despretensiosa simplicidade. Diferentemente da maior parte dos historiadores, o autor não almeja empreender análises elaboradas ou interpretações profundas sobre o personagem biografado ou o tempo em que viveu. Ele tenciona apenas oferecer algo que falta a muitos outros livros de história: um relato fiel dos fatos, baseado em abundante documentação primária, ou seja, em testemunhos da época.
Assim, embora tal opção possa parecer simplista ou até ingênua, o resultado representa uma verdadeira lufada de ar fresco no debate sobre temas espinhosos e polêmicos como os que envolvem a colonização portuguesa e a evangelização dos povos indígenas. Sem enveredar pelos debates ideológicos que frequentemente contaminam a compreensão de nossa história, Armando Cardoso nos coloca em contato por assim dizer “direto” com uma personalidade extraordinária: um jovem nascido nas Ilhas Canárias e educado em Coimbra, que, mesmo acometido por graves problemas de saúde, decide aos 19 anos de idade transpor o Atlântico e mudar-se para terras estranhas por amor a Cristo.
Aqui chegado, em 1553, Anchieta exerceu incansável atividade missionária até a morte, em 1597, com passagens por Salvador, por todo o litoral paulista e pelo Rio de Janeiro (sendo um dos fundadores das atuais capitais dos dois estados) e pelo Espírito Santo, onde veio a falecer.
Sua abertura à civilização que viria a encontrar é comprovada pelo fato de ele ser o autor da primeira Gramática do Tupi: com efeito, sabe-se que aprender uma nova língua com perfeição requer convivência e identificação com outras formas de ver o mundo. Sua vasta obra literária também testemunha essa incomum capacidade de diálogo: escrita em latim, português, castelhano e tupi (em várias ocasiões, alternando idiomas no interior do mesmo texto), ela demonstra como Anchieta desejava fazer-se entender por todos.
Apesar da predileção que manifestou pelos indígenas, e de modo especial pelas crianças, Anchieta sempre esteve aberto a encontrar todos, desde os ricos donos de terra até os excluídos que a sociedade já começava a produzir. Apesar de sua debilidade física, não hesitou colocar-se em risco, oferecendo-se como refém durante as tratativas de paz com os tamoios em Ubatuba (ocasião na qual compôs seu célebre Poema àVirgem).
Assim, a vida de Anchieta continua a testemunhar ainda hoje como o encontro com Cristo pode ser fonte de coragem, criatividade, abertura e ímpeto para a construção de um mundo novo: ainda que não isento de contradições, certamente um no qual busca-se reconhecer e afirmar o valor da pessoa.


