Para a surpresa de muitos, A Peste, de Albert Camus, é um livro indispensável também para o cristão. Ele purifica a fé das explicações fáceis e obriga a permanecer junto da cruz. Mas, diante do silêncio final que Camus preserva com honestidade, a fé cristã ousa responder: nem a peste, nem a morte, nem o silêncio são absolutos.

CAMUS, Albert. A peste. Rio de Janeiro: Record, 2025.
Publicado em 1947, no imediato pós-guerra, A Peste, de Albert Camus – escritor franco-argelino marcado por uma ética rigorosa da responsabilidade e pela recusa de explicações fáceis – nunca foi apenas um romance sobre uma epidemia. Desde o início, impõe-se como alegoria do mal histórico: não aquele que explode com violência, mas o que se instala lentamente, protegido pela rotina, pela prudência mal compreendida e, sobretudo, pela indiferença.
A narrativa se passa em Orã, cidade argelina atingida por uma peste que começa de modo quase banal: ratos mortos, sinais dispersos, fáceis de relativizar. As autoridades hesitam em nomear o problema; a população adapta-se. Cada um prefere preservar sua normalidade a formular um juízo. Nesse instante, o mal ainda poderia ser contido, mas não é – não por crueldade, mas por adiamento moral.
Essa progressão constitui o coração político do romance. A peste simboliza a chegada do totalitarismo, em particular do nazismo, não como exceção monstruosa, mas como processo. Camus não descreve a violência final; descreve o caminho que a torna possível. Antes dos campos, há o silêncio. Antes do cerco, a recusa em ver.
É nesse cenário que surge o médico Bernard Rieux. Ele não é herói nem ideólogo; tampouco um crente em crise. É um homem que faz o que precisa ser feito. Diante da peste, cuida, organiza, insiste. Recusa explicações que tornem o sofrimento aceitável. Sua ética é terrestre: agir sem ilusão, sem consolo metafísico, sem discursos que anestesiem a consciência.
O Padre Paneloux, jesuíta respeitado, oferece em um primeiro sermão uma explicação clássica: a peste como castigo, como pedagogia divina. Ele se desfaz na longa agonia de uma criança, presenciada por Rieux e por ele próprio. Diante daquele sofrimento, toda explicação se torna indecente – não por ser falsa, mas por ser insuficiente. Em um segundo sermão, Paneloux hesita. A linguagem se fratura. Ele percebe que, depois daquela morte, não há mais espaço para teologias confortáveis. A fé entra em uma zona de risco, na qual já não protege nem consola. À luz de uma leitura teológica exigente, como a de Hans Urs von Balthasar, essa cena revela sua gravidade extrema: o Cristianismo só permanece fiel quando aceita descer até o escândalo da cruz sem domesticá-lo. Cristo não explicou o sofrimento; assumiu-o.
Camus não ridiculariza a fé, tampouco a salva. Ele a deixa suspensa, exposta, sem garantias. A cruz é contemplada, mas a esperança não é ousada. A fé permanece austera, trágica. É aqui que o olhar católico, sem trair Camus, é chamado a ir além. O Cristianismo não explica o sofrimento inocente; afirma que Deus entrou nele. A cruz não é resposta ao mal, mas sua assunção por amor. E a Ressurreição não apaga o escândalo da Sexta-feira Santa – atravessa-o, afirmando que o mal não tem a última palavra.


