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São José de Anchieta, o santo pioneiro da cultura brasileira

Em meio às contradições da atuação missionária no Brasil Colonial, São José de Anchieta, um dos missionários fundadores da cidade de São Paulo, dedicou sua vida à evangelização dos povos indígenas, realizando um trabalho cultural original, que valorizava a cultura indígena ao mesmo tempo em que a integrava ao contexto católico. Criou a primeira gramática tupi e fundou aldeamentos que protegiam os indígenas convertidos da sanha dos colonos europeus. Compreendido dentro do contexto de seu tempo, representa um exemplo de compromisso social e criatividade cultural cristã.

São José de Anchieta, o santo pioneiro da cultura brasileira - Jornal O São Paulo
Arte: Sergio Ricciuto Conte

São José de Anchieta (1534-1597), o “Apóstolo do Brasil”, é um dos personagens mais fascinantes da nossa história. Modelo de missionário jesuíta de seu tempo, é igualmente reverenciado e atacado por sua obra gigantesca. O problema não é o homem que muito jovem veio, movido pelo ardor da fé e do amor cristão, dedicar toda a sua vida a povos que lhe eram totalmente estranhos. O problema está na relação contraditória que, frequentemente, combina e confunde a dedicação espiritual com a dominação temporal.

Missionários não vieram para “matar povos indígenas”, como diz certa afirmação rasa frequente em nossos tempos, nem para aproveitar as benesses do catolicismo hegemônico na Europa… Quem viesse para isso viria com espadas e bacamartes, não com terços e cruzes; quem quisesse aproveitar das benesses da Igreja, não entraria em uma ordem missionária que atuava nos rincões mais distantes do planeta. Os missionários vinham para pregar uma nova religião, que consideravam mais verdadeira e adequada à humanidade – e isso implica, evidentemente, em uma transformação cultural sem precedentes. Mas, mesmo aqui, tiveram um cuidado com as culturas locais, procurando valorizá-las.

Por outro lado, o respeito genuíno pelas culturas indígenas por parte da sociedade laica ocidental vem dos trabalhos antropológicos a partir do século XIX. A figura do “bom selvagem”, que, a partir principalmente do romantismo, nos séculos XVIII e XIX, consagrou a noção de uma humanidade naturalmente boa, ingênua e que seria corrompida por um processo civilizatório, ficava circunscrito aos salões das elites, totalmente distante da realidade daqueles povos, que continuavam a ser expropriados e mortos. Naquele período, no qual os missionários são acusados de destruir as culturas indígenas, a sociedade laica explorava brutalmente esses povos. No Direito, com as bulas papais Sublimis Deus (1537) e Commissum Nobis (1639), e na vida cotidiana, a Igreja Católica foi a grande defensora dos povos indígenas no período colonial.

Um grande legado cultural. A Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, escrita por Anchieta e publicada em 1595, representa um marco na história da linguística brasileira. É um tratado gramatical sofisticado, que ajudou o tupi a originar a chamada “Língua Geral”, idioma popular no Brasil Colonial até meados do século XVIII, quando foi proibida pelo Marquês de Pombal.

Suas obras teatrais são um legado igualmente impressionante. Entre 1560 e 1580, escreveu pelo menos doze peças. Na Festa de São Lourenço (1583), por exemplo, alterna entre tupi, português, espanhol e latim, criando um texto híbrido que reflete a complexidade linguística do Brasil colonial, incorporando personagens da mitologia tupi, como Anhangá.

Entre maio e setembro de 1563, durante a Confederação dos Tamoios – uma aliança militar tupinambá que,com apoio francês, combatia a presença portuguesa na região – Anchieta se ofereceu como refém, permanecendo por cinco meses entre os tamoios, na região da atual Ubatuba. Nesse período, produziu cartas que descrevem o cotidiano tamoio com detalhes etnográficos, e compôs, na areia da praia, segundo a tradição, o famoso “Poema à Virgem”, com quase 6 mil versos.

Foi fundador de vários aldeamentos jesuítas – onde indígenas convertidos eram concentrados sob supervisão missionária, evitando que fossem escravizados ou mortos pelos colonos. Via esses aldeamentos como refúgio protetor. Há numerosos documentos mostrando jesuítas, incluindo Anchieta, intercedendo junto a autoridades coloniais para evitar que indígenas fossem ilegalmente capturados para trabalho forçado. Essa proteção, contudo, teve preço elevado. A concentração populacional em espaços reduzidos, combinada com a introdução de doenças do Velho Mundo, transformou os aldeamentos em armadilhas mortais. Em 1563, Anchieta relata uma epidemia em Piratininga que matou mais de 3 mil povos indígenas.

O nome de Anchieta está por toda parte no Brasil: cidades, escolas, universidades, paróquias e logradouros. Essa presença reflete a força de seu legado simbólico na construção da identidade brasileira.

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