Nascido em Tenerife, em 1534, José de Anchieta chegou ao Brasil aos 19 anos com a saúde fragilizada por problemas na coluna. Transformou suas múltiplas habilidades – gramática, teatro, medicina, poesia –em instrumentos de evangelização. Escreveu a primeira gramática do tupi, fundou cidades, tratou doentes e compôs milhares de versos. Sua missão durou 44 anos até sua morte em 1597. Canonizado em 2014, é reconhecido como Apóstolo do Brasil.

Fonte: Wikimedia
Simão de Vasconcelos (1597-1671), em sua obra magna Crônica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil (1663), afirmou que os jesuítas que trabalharam no Brasil no primeiro século da colonização batizavam, catequizam, administravam os sacramentos, ensinavam, defendiam a liberdade, curavam doenças.
Em todos esses aspectos – e em muitos outros – São José de Anchieta (1534-1597) foi um expoente. Catequista, professor, escritor, tradutor, teatrólogo, botânico, boticário… muitos e variados foram os trabalhos desenvolvidos por Anchieta no chamado “Novo Mundo”. Com múltiplos dons, Anchieta entregou-se plenamente à missão confiada pela Companhia de Jesus: propagar a fé católica.
A formação de um missionário. Sua história começa em San Cristóbal de la Laguna, Tenerife, onde nasceu em 19 de março de 1534. José de Anchieta era filho de Juan de Anchieta (basco) e Mencía Díaz de Clavijo y Llarena (castelhana), sendo o terceiro de 12 filhos. Desde a infância, José demonstrava grande facilidade de aprendizagem, sobretudo no estudo de línguas. Sua vocação para os estudos já indicava uma inclinação ao Ensino Superior.
Foi nesse contexto que Juan de Anchieta enviou o seu filho a Portugal, a fim de cursar Humanidades na Universidade de Coimbra, na qual foi matriculado aos 14 anos. Ali, José conviveu com membros da recente ordem religiosa fundada pelo seu parente Inácio de Loyola (1491-1556): a Companhia de Jesus, aprovada pelo Papa Paulo III (1468-1549), em 1540. Também em Coimbra, conheceu o teatro de Gil Vicente (1465-1536), cuja influência marcaria sua futura atuação missionária no Brasil.
Cópias das cartas dos primeiros missionários jesuítas circulavam pela universidade e José, impactado pelas relatos, despertou interesse pela vida religiosa. Aos 17 anos, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus, em Coimbra. Durante esse período, José começou a sofrer intensamente as dores advindas de um deslocamento de sua espinha dorsal – dores estas que o acompanhariam por toda a sua vida.
Preparava-se a expedição que traria ao Brasil o segundo Governador Geral, Dom Duarte da Costa (1505-1560), quando José foi escolhido para integrar o terceiro grupo de missionários que partiria com a expedição para o Brasil. Chegaram em Salvador no dia 13 de julho de 1553.
Muitos talentos a serviço da fé. Desde a sua chegada, Anchieta dedicou-se ao estudo da língua indígena. Após três meses, Anchieta foi destinado pelo Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570) – chefe da missão jesuíta no Brasil – à Capitania de São Vicente onde, em 25 de janeiro de 1554, participou da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga (atual Pateo do Collegio).
Neste colégio, Anchieta ensinava latim aos futuros sacerdotes e as primeiras letras e a doutrina cristã para os indígenas. O missionário pôde reconhecer a língua nativa a ponto de escrever um manual para todos os missionários na América portuguesa, a Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil, publicada em 1595.
Além da gramática, Anchieta foi responsável por uma vasta produção literária que inclui textos para evangelização, cartas, relatos históricos, peças teatrais, poesias e poemas, sendo uma das mais famosas obras o seu Poema à Virgem (1563), com mais de 5 mil versos, escrito durante a Confederação dos Tamoios (1554-1567), quando Anchieta foi mantido refém no conflito entre indígenas e colonos.
Anchieta, por meio de uma atenta observação dos costumes indígenas, utilizou a arte e especialmente o teatro como instrumento para transmissão da fé. A primeira peça teatral do Brasil foi escrita por Anchieta na Vila de São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), para celebrar o Natal de 1561. A peça, também encenada em outras vilas do litoral do Brasil, recebeu o nome de Pregação Universal.
Além do trabalho intelectual e espiritual, Anchieta também se dedicou aos trabalhos da vida prática, seja na produção de roupas e alpargatas, seja na função de boticário, atuando no tratamento médico da população local. Foi hábil em aliar os saberes europeus aos conhecimentos tradicionais indígenas.
A sua famosa carta de 1560, escrita em São Vicente, é hoje considerada um verdadeiro tratado etnobiológico: nela, encontramos uma grande riqueza de detalhes sobre a fauna, a flora, a geologia, o clima e a medicina tradicional indígena. Um documento escrito sem pretensões científicas, mas um relato minucioso de um atento observador que ao estudar o uso e as propriedades de cada espécie vegetal, pôde aliar todo esse conhecimento aos saberes do Velho Continente para curar os corpos adoentados no contato com o homem branco. Não por acaso, foi no Pateo do Collegio, antigo Colégio de São Paulo de Piratininga, que surgiu a primeira botica de São Paulo, conduzida pelas mãos de José de Anchieta.
De provincial a santo: o legado de Anchieta para o Brasil. Ordenado sacerdote em 1566, Anchieta foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus do Brasil em 1577, cargo que exerceu por dez anos. Devido ao agravamento de suas condições de saúde, Anchieta pediu a dispensa do cargo de Provincial e foi para Vitória, onde dirigiu o colégio dos jesuítas até 1595. Finalmente, retirou-se para Reritiba (atual cidade de Anchieta), onde faleceu no dia 9 de junho de 1597.
Desde seus tempos de noviço, Anchieta já contraíra fama de santo, sendo-lhe atribuídos diversos milagres. Além disso, a grande ação evangelizadora, a defesa da liberdade dos indígenas, o cuidado com os doentes e a imensa ação educativa promovida por Anchieta, fizeram com que ainda em vida fosse motivo de devoção. Quando da sua morte em Reritiba, seu corpo foi levado para Vitória pelos indígenas, onde foi enterrado no Colégio de São Tiago.
Após a exumação, seus restos mortais foram transferidos para a Catedral de Salvador, na Bahia, e um fêmur permaneceu exposto na igreja de Vitória, sendo transferido para Roma em 1610.
Em 1759, os jesuítas foram expulsos do Brasil e os restos mortais de Anchieta foram enviados à Portugal. O baú de jacarandá que continha os ossos e o manto de José de Anchieta só foram encontrados em 1965, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O referido baú com os ossos e o manto foi transferido para o Brasil, a pedido do Governo de São Paulo e da Companhia de Jesus, e estes estão preservados desde então no Pateo do Collegio.
Em 2014, Anchieta foi oficialmente declarado santo pelo Papa Francisco, em uma cerimônia no Vaticano e devido ao importante trabalho realizado em terras brasileiras, declarado Apóstolo do Brasil.
Um canário que se formou em português para evangelizar no Brasil, expoente de uma Igreja sem fronteiras, que fez uso de todos os seus dons Ad Maiorem Dei Gloriam.


