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Valor Sentimental 

Um filme feito de silêncios e olhares. Um filme que trata da dor profunda, da perda irreparável, da vontade de dar o troco e se vingar e, ao mesmo tempo, do perdão e da compaixão. É um bom filme. Mereceu o Oscar de Melhor Filme Internacional (2026).

Valor Sentimental  - Jornal O São Paulo

VALOR SENTIMENTAL 
(AFFEKSJONSVERDI)

Direção: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning
Duração: 2h13min

Cada vez mais vão surgindo filmes em que o tema central é a relação, dentro de uma família, entre a dedicação à vida profissional e à vida familiar. Todos sabemos, por experiência, que não é uma tarefa fácil. Mas o que quero dizer é que chama a atenção o fato de que o mundo cinematográfico também tenha percebido que não é nada fácil. Por citar um outro filme, veja-se também Jay Kelly, cuja resenha deixo para o próximo mês.

Valor Sentimental é um filme sobre um pai, que se tornou um grande diretor de cinema 20 ou 30 anos atrás, ao custo de abandonar a família, a esposa e duas filhas pequenas, Nora e Agnes. A esposa suicidou-se logo depois que o marido decidiu “experimentar” seu sucesso profissional, e as filhas não sabemos bem como sobreviveram. 

Nora, a mais velha, é uma atriz de teatro, para quem o palco provoca pânico. Aliás, é uma das cenas mais impactantes do filme, logo no começo. Cheguem na hora, não percam. Mais do que uma doença, talvez seja sintoma de uma dor muito mais profunda, que de alguma maneira a persegue ao longo da sua vida e das suas relações, não conseguindo manter um relacionamento profundo e seguro com ninguém, a não ser com a própria irmã, Agnes, mais nova. 

Agnes, pelo seu lado, é casada e tem um filho. Em diversos momentos do filme, a vemos com a sua família, e, em outros momentos, a vemos trabalhando nos bastidores das peças que Nora representa.

Antes de continuar, gostaria de destacar agora o diálogo que acontece entre as duas irmãs, quando a irrupção do pai em suas vidas provoca um vulcão de sentimentos e ressentimentos, dor e angústia. Não darei spoiler, porque acho que é mesmo o ponto alto de todo o filme, e que precisa ser assistido com toda a atenção, mas é uma das melhores cenas, na qual, em poucas palavras, em pequenos gestos e em silêncios que gritam sua dor e seu agradecimento, Agnes dá a medida do que seja amor em uma família.

O enredo do filme? O pai volta à casa, depois de anos de abandono, sem ter dado nenhuma notícia. E volta como se não tivesse ideia da dor e do dano que provocou nas duas filhas pequenas. Volta sem um pedido de perdão. Volta apenas para rodar o seu último filme, aquele que finalmente o consagrará e, como diz a Nora, o papel principal foi escrito para ela e o local da filmagem será a casa em que moram. Será um filme sobre a sua família.

A primeira reação de Nora é visceral. Com uma profunda decepção e com uma raiva que vem das entranhas, larga o roteiro sobre a mesa do restaurante que o pai reservou para jantar e dá as costas quase sem se despedir. Mesmo assim, o pai não desiste. Não da filha, mas do filme. E procura uma atriz de renome, que lhe possa trazer financiamento e sucesso no lançamento. Parece que a desgraça vai se abater mais uma vez sobre as filhas, já com mais de 30 anos.

Mas o roteiro, pouco a pouco, vai dando a volta no drama familiar, a partir do momento em que Agnes percebe que aquele último e grandioso filme do pai, não é um produto do seu narcisismo, mas a única maneira, desajeitada, sem dúvida, e talvez não a melhor, mas a única, que o pai sabe fazer, de pedir perdão.

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