A natividade do Senhor na arte plástica

O SÃO PAULO destaca algumas obras de diferentes épocas que retratam o Natal

FERNANDO GERONAZZO E FLAVIO ROGÉRIO LOPES

Reprodução

Ao longo de dois milênios, os cristãos se utilizam das artes para expressar sua fé e evangelizar. Da iconografia bizantina do Oriente às pinturas e afrescos de nomes consagrados do Ocidente, as passagens da vida de Jesus e dos santos estão registradas em igrejas, pequenas capelas, catedrais e basílicas, levando a todos os fiéis, inclusive àqueles que não sabem ler, a história da salvação.  

O mistério da Encarnação do Verbo e a natividade de Jesus Cristo são temas dos mais retratados pela arte cristã, desde os primeiros séculos do Cristianismo. 

“Segundo São Máximo, o Confessor (580-662), é o centro ao qual convergem todas as linhas do cosmo. Por isso, as primeiras imagens da natividade colocavam em evidência a manjedoura de Jesus”, explica Wilma Steagall De Tommaso, doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP e professora do Museu de Arte Sacra de São Paulo.

A partir do século VI, progressivamente, há uma mudança na composição do quadro. O ícone se torna decisivamente mariano, e a Theotòkos, a Mãe de Deus, passa a ocupar o posto principal. O conteúdo da imagem se amplia e praticamente resume a história da salvação”, destaca Wilma De Tommaso. 

Os reis magos representam a humanidade em busca do Paraíso; os pastores, representantes do povo eleito, próximo a Deus, ao anúncio dos anjos vão adorar o Deus que desceu à terra. No centro está a gruta escura de Belém, que recebe aquele que é a Luz do mundo. A Virgem Maria, em destaque, próxima ao Menino, é a oferta da humanidade para que Deus realize a obra da Salvação, o envio de seu Filho, Jesus, Deus-Homem.

Ícone da Natividade século XV

Uma das mais famosas expressões do Natal do Senhor na tradição bizantina, dos cristãos orientais, o Ícone da Natividade convida à contemplação do conjunto dos mistérios do Cristianismo: a Encarnação, a Morte e a Ressurreição, por meio dos seguintes sinais: 

Montanha – Representa a montanha que é Cristo, o Novo Sinai, de onde Deus se revela e se faz visível e acessível ao homem.
Anjos – Que cantam, contemplando o céu e a terra: “Glória a Deus nas alturas e na Terra paz aos homens que o Senhor ama”. Representam a natureza angélica que acode ao evento extraordinário; um deles, destacado do grupo, encontra-se falando com um ou mais pastores.
Pastores – Representam o povo “que caminha nas trevas e que viu uma grande luz” (Is 9,1). Aos pés do pastor, há um menino tocando uma flauta, que é a antítese da música celestial e faz referência a um hino bizantino, que diz: “Interrompendo o som das flautas dos pastores, a armada celestial gritava”

Gruta – No centro do ícone, abre-se uma gruta que mostra as entranhas da montanha. Representa o inferno e a morte sobre as quais se encontra Cristo, e que tentam engoli-lo. É a mesma voracidade obscura que se fala no ícone da Ressurreição.
Virgem – Fora da gruta se vê a representação da Mãe de Deus. Geralmente, está recostada, algumas vezes sentada e, outras vezes, 
ajoelhada, como neste caso. A Virgem, geralmente, não olha para o Menino, mas para o infinito, custodiando e refletindo em seu coração tudo aquilo que de extraordinário aconteceu com ela. 
Menino – Entre a Virgem e a entrada da gruta aparece o Menino envolto em panos, colocado mais que em um presépio, mas em um sepulcro de forma tradicionalmente retilínea. O Menino está envolto como numa mortalha. Evoca a figura mortuária, em concreto, a imagem de Lázaro que o presépio-sarcófago contribui para evidenciá-la.
Animais – No interior da gruta, distinguem-se o boi e o jumento, que têm diversos significados, como a representação das forças instintivas irracionais que emergem das profundezas da alma humana e levam ao pecado, e que Cristo abrandará por meio de sua Vida, Morte e Ressurreição. 
José – Na parte inferior, aparece José, pensativo e afastado. Diante de um homem vestido com peles e apoiado em um bastão. José personifica o drama humano: o homem ante o mistério. José se interroga frente ao mistério. 
Pastor-Demônio – Fala com José, apoiado num bastão. É o diabo, vestido com peles de cabra, que o tenta sobre a virgindade de Maria, dizendo-lhe, segundo os textos apócrifos: “Como este bastão que eu levo não pode produzir brotos, do mesmo modo, um velho como tu não pode engendrar e uma virgem não pode engravidar?”
Árvore – Que brota de um tronco seco. “Um rebento brota do tronco de Jessé; um broto surge de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor; por ele, o Senhor resgatará o seu povo” (Is 11,1-2) Representa uma resposta às palavras do pastor-demônio. “Deus não é escravo das leis que regulam a vegetação; é seu Criador e, se fez brotar a vara de Araão, muito mais pode fazer com que uma Virgem floresça e dê frutos” (Cirilo de Jerusalém. Catequese XII, 28).
Magos – Representam os homens excluídos da Antiga Aliança que o Novo Reino Messiânico há de incluir na Nova Aliança.
Mulheres – Preparam o banho do Menino. Segundo a tradição apócrifa, a mulher que segura o Menino é Eva, que lhe dá a vida mortal, enquanto Maria, a imortal. Neste ícone, o Menino se apresenta com feição de gente maior, com entradas nos cabelos porque é, desde o princípio, verdadeiramente homem. O banho, por sua vez, é a imagem do Batismo do Senhor. 

(Matéria publicada no Jornal O SÃO PAULO em  20 de dezembro de 2019)

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