A solidariedade mantém a esperança da Igreja que sofre

Com a ajuda de benfeitores, a fundação pontifícia ACN apoiou mais de 4,7 mil projetos em 2020, especialmente onde os cristãos encontram dificuldade para vivenciar a fé

Irmãs da Paróquia da Imaculada Conceição de Canaria, em Ayacucho, no Peru, realizam ações caritativas com o apoio da ACN (fotos e gráficos: ACN)

Ao menos em 62 países, o direito à liberdade religiosa não é garantido e os cristãos são perseguidos por extremistas de outras religiões. Em algumas nações, os que professam a fé no Cristo são minoria, e a presença da Igreja só é possível com a ajuda financeira externa dos demais cristãos.

Nessas realidades e também diante de situações de guerras, catástrofes naturais e crises globais, como a atual pandemia de COVID-19, a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) atua em favor dos cristãos para que possam manter suas atividades de culto, evangelização e a própria sobrevivência.

Em 2020, a partir dos donativos de mais de 345 mil benfeitores, a ACN destinou 68,6 milhões de euros a 4.758 projetos, em 138 países. Outros 12,2 milhões de euros foram usados em favor de cristãos desfavorecidos e perseguidos. Em ações de comunicação e publicidade para obter mais doações, os gastos foram de 12,8 milhões de euros e na manutenção da estrutura da fundação pontifícia foram usados 8,5 milhões de euros. Os dados estão no relatório de transparência da ACN, disponível em https://www.acn.org.br/transparencia.

Destinação dos recursos

De acordo com Regina Lynch, diretora de projetos da ACN, em 2020, a maior necessidade dos apoiados foi a manutenção das atividades da Igreja, em razão das restrições advindas da pandemia de COVID-19.

“O que mais afeta a Igreja é que, durante o lockdown, não há missas públicas nem a capacidade de conduzir os habituais programas de assistência espiritual e social nas paróquias. Além disso, em muitos países parceiros, a coleta durante a missa de domingo assegurava a sobrevivência dos sacerdotes e religiosos. Durante o lockdown, essa fonte de renda desapareceu de um dia para outro”, disse em entrevista publicada no relatório, detalhando que as ajudas existenciais aos sacerdotes cresceram 95% em relação ao ano anterior e às irmãs religiosas, 24%.

Os projetos apoiados pela ACN são preferencialmente de natureza pastoral, mas diante de crises, também há colaborações em ações emergenciais em favor das populações. “Isso vale especialmente para 2020, ano do coronavírus, no qual 9,8 milhões de euros, quase 15% do nosso financiamento, foram utilizados para ajuda de emergência. Uma grande parte foi utilizada pelas Igrejas locais, principalmente para garantir sua subsistência e para a compra de equipamentos de proteção”, consta no relatório.

Nas especificações da ajuda realizada, o maior percentual – 26,7% – foi o de projetos de construção e reconstrução de igrejas e instituições eclesiásticas e 22,8% de subsídios para missa

“O item ‘construção e reconstrução’ historicamente recebe um maior volume de recursos, porque é o que envolve maiores custos absolutos. Ele abrange a reforma ou construção de igrejas, conventos, seminários, casas paroquiais etc. Já o item ‘subsídios para missas’, que é um instrumento de auxílio aos sacerdotes, teve grande importância em 2020, afinal, durante a pandemia, muitos sacerdotes não receberam os recursos provenientes das coletas e tiveram muitas dificuldades de manter suas atividades pastorais. Graças aos ‘subsídios de missas’, foram ajudados 45.655 padres, ou seja, um em cada novo sacerdote no mundo recebeu ajuda da ACN”, detalhou ao O SÃO PAULO Valter Callegari, diretor-executivo da ACN Brasil.

Transparência e busca de benfeitores

A ACN tem escritórios em 23 países, os quais viabilizam a arrecadação dos donativos e sua adequada destinação, e ajudam na avaliação dos projetos, algo que é feito geralmente em até três meses após a chegada de um pedido.

Um destes escritórios é o da ACN Brasil, que assim como os demais busca a máxima transparência das ações realizadas. De acordo com Callegari, a própria publicação desse relatório é um dos instrumentos e prestação de contas aos benfeitores. “Mensalmente, enviamos o informativo Eco do Amor, descrevendo alguns dos projetos apoiados, além das informações veiculadas nas emissoras de TV e nos canais digitais, sempre seguindo o princípio de transparência. A ACN possui uma reputação construída em décadas de trabalho e preza por mantê-la”, ressalta.

Entre os mais de 345 mil benfeitores, 10% estão no Brasil. “Nossos benfeitores são em sua maioria mulheres, com idade acima de 50 anos, que ajudam com um valor mensal, conforme a possibilidade, mas com o claro entendimento de ser a ponte de amor entre aqueles que podem ajudar e aqueles que mais necessitam. À ACN e a todos os beneficiados por tal generosidade, somos imensamente gratos. Cerca de 10%, ou 35 mil benfeitores da ACN, são brasileiros. Entretanto, quando pensamos que estamos no país com o maior número de católicos no mundo, percebemos que temos muito potencial para ampliar nossa ajuda ao mundo cristão. Vamos imaginar o que aconteceria se milhões de católicos do Brasil começassem a ajudar os cristãos que sofrem perseguição e miséria em outros países: seria uma verdadeira revolução da fé e do amor, que o Papa Francisco tanto nos pede”, comenta.

Em 2020, a ACN recebeu 5.727 solicitações de ajuda, mas só pôde atender 4.758 projetos. Assim, mais de 900 não foram contemplados.

Callegari detalha que a situação de urgência é um dos principais fatores que determinam a aprovação de um pedido de ajuda: “Também existe um conjunto de diversos outros critérios que vão desde a quantidade de beneficiados, da capacidade do parceiro obter recursos, do histórico no cumprimento de projetos anteriores e da devida prestação de contas, dentre outros. Um objetivo permanente é obter mais doações e, desta forma, apoiar o maior número possível de projetos”.

Em todos os continentes

Mantendo a tendência de anos anteriores, o continente africano liderou o ranking do envio de ajuda da ACN e também foi o que mais recebeu auxílios relacionados à pandemia de COVID-19.

“A África é o continente que mais recebe recursos há muitos anos, pelas imensas carências, dificuldades e penúrias que a região enfrenta. Além disso é uma Igreja recente, com necessidades que outras regiões já superaram há décadas. Algumas regiões, às vezes, apresentam mais situações de emergência, como o Oriente Médio, que, por força dos atos dos terroristas islamistas, até alguns anos recebeu da ACN maior apoio. Em outras, como a América Latina ou a Europa Oriental, a Igreja ainda possui necessidades estruturais não atendidas que a ACN procura apoiar de maneira regular e constante”, detalha Callegari.

África

A ACN destinou ao continente 21,3 milhões de euros em 2020 (32,6% do total de donativos). Os cristãos têm necessitado de auxílio especialmente na região do Sahel e em Moçambique, onde são perseguidos, violentados e expulsos de suas comunidades por extremistas islâmicos. Outra situação que chama a atenção é a da Nigéria: nos dois primeiros meses de 2020, o Boko Haram assassinou 350 cristãos e, desde 2015, mais de 200 igrejas foram incendiadas e mais de 70 religiosos sequestrados e mortos. Igrejas também têm sido atacadas na Etiópia. Na República Democrática do Congo, a ACN enviou ajuda para o combate ao coronavírus, o que permitiu que muitos padres tivessem como sobreviver e ajudassem os mais pobres e doentes.

Oriente Médio

A ajuda para o Oriente Médio foi de 9,3 milhões de euros (14,2% do total). Os cristãos procuram manter sua fé em meio a guerras, a perseguições jihadistas, ao declínio econômico e à atual pandemia. Na Síria, a ACN ajudou na subsistência dos religiosos, em iniciativas educacionais, assistência médica e reconstrução de igrejas. Para o Líbano, o montante enviado foi de 3,9 milhões de euros, destinados especialmente para ações emergenciais após a explosão no porto de Beirute, em agosto de 2020, que danificou severamente muitas instalações da Igreja, incluindo hospitais católicos. Também houve apoio a pessoas mais necessitadas de alimentos e itens de higiene.

Europa Central e Oriental

Do total de donativos a projetos, 19,1% foram destinados ao continente. No leste europeu, as verbas permitiram que sacerdotes e religiosas pudessem sobreviver em meio a um cenário de igrejas fechadas. No norte da Europa, onde os cristãos são minoria, a ACN apoia especialmente a formação geral e continuada de sacerdotes, religiosos e leigos. Na Albânia, por exemplo, os recursos ajudaram a manter seminários, permitiram a compra de veículos para assistência espiritual e a realização de reformas em edifícios da Igreja.

Ásia/Oceania

A esses continentes foram enviados 11,8 milhões de euros (18% dos recursos). Afetadas pela pandemia, as igrejas na Ásia receberam ajuda da ACN para adquirir equipamentos de proteção e manter sua sustentabilidade financeira, incluindo a existência de padres e religiosas. Ajudas também foram destinadas a países onde os cristãos, por serem minoria, foram excluídos das assistências governamentais e de ONGs, como se verificou no Paquistão e na Índia.

América Latina

A América Latina foi o destino de 14,8% das doações, totalizando 9,7 milhões de euros. Com lockdown ou alguma restrição para o funcionamento das igrejas, verificou-se a redução das coletas, e foi preciso ajudar as dioceses com a manutenção dos templos e a subsistência do clero. Muitas famílias perderam renda e encontraram nas ações caritativas da Igreja um auxílio. Na Venezuela, por exemplo, a ACN apoia a manutenção de oito refeitórios de paróquias em San Carlos. Também houve apoio para a formação de seminaristas na Bolívia e para a reconstrução de templos incendiados no Chile.

Brasil

Em 2020, a ACN apoiou 209 projetos no Brasil e voltou especial atenção à realidade da Igreja na Amazônia, onde padres e religiosos encontraram dificuldades para manter os trabalhos de assistência espiritual em razão da pandemia. Parte das verbas também foi usada para a compra de equipamentos de proteção contra o coronavírus nas comunidades mais pobres.

“O perfil da ajuda ao Brasil é relativamente similar à maioria dos países, com projetos em construções e reformas; veículos de transporte, como automóveis mais resistentes para as paróquias e comunidades interioranas; ajuda para religiosas e sacerdotes; formação de seminaristas; material pastoral, como livros e apostilas etc., entre muitos outros. Um ponto muito importante aqui no Brasil é a ajuda para a aquisição de barcos para a região amazônica. Sem eles, muitas comunidades nem sequer receberiam a visita de um sacerdote”, detalha Callegari.

TIPOS DE AJUDAS OFERECIDAS PELA ACN

– Subsídios para missa: donativos relacionados com o pedido de celebração de missa para os falecidos, doentes, pessoas em crises em suas vidas ou outras causas. Destinam-se para garantir a subsistência imediata dos sacerdotes e das suas paróquias. Em 2020, esse auxílio chegou a 45.655 padres.

– Formação de sacerdotes, religiosos e leigos: permite que mantenham uma formação adequada em realidades em que isso pode estar em risco em razão da pobreza, guerras e perseguições. Em 2020, foram beneficiados 14.009 seminaristas, 473 sacerdotes e 18.389 leigos.

– Ajuda existencial para religiosas: no ano passado, 18.126 religiosas contaram com a ajuda da ACN para a própria subsistência.

– Construção e reconstrução de edifícios da Igreja: 744 edifícios foram construídos e reparados com a ajuda da ACN em 2020, como igrejas, mosteiros, centros pastorais e estações missionárias.

– Meios de transporte para assistência espiritual: em 2020, a ACN financiou a compra de 283 veículos, 166 motos, 783 bicicletas e 11 barcos.

– Ajuda de emergência: ações em auxílio aos cristãos que são obrigados a deixar seus lares e comunidades por serem expulsos, sofrerem violência, viverem em locais de conflito ou serem afetados por catástrofes naturais.

– Distribuição de Bíblias, livros religiosos e meios audiovisuais: em 2020, foram produzidos e distribuídos, com a ajuda da ACN, mais de 590 mil livros religiosos.

– Visibilidade à situação dos cristãos perseguidos: a ACN produz o Relatório de Liberdade Religiosa e outros materiais e publicações em mídia impressa, produtos audiovisuais e mídias sociais sobre a perseguição aos cristãos. Também participa de eventos internacionais para denunciar tais perseguições e viabiliza que os perseguidos tenham sua voz ouvida em instâncias internacionais. Além disso, realiza o Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos (6 de agosto), o Terço das Crianças (18 de outubro) e a Red Week – Quarta-feira Vermelha (em novembro), quando centenas de edifícios em todo o mundo são iluminados de vermelho para conscientizar sobre a realidade dos cristãos perseguidos.

COMO COLABORAR COM A ACN?
http://acn.org.br/doacao
Telefone: 0800 77 099 27
Qualquer pessoa pode colaborar com o valor que conseguir, e não há a obrigação de que seja uma contribuição permanente. A ACN não aceita doações de órgãos governamentais.

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