Baixa cobertura vacinal coloca o Brasil em risco para a volta da poliomielite

Baixa cobertura vacinal coloca o Brasil em risco para a volta da poliomielite, Jornal O São Paulo
Sociedade Brasileira de Imunizações

Até o fim dos anos 1980, uma doença causava temor em muitos pais: a poliomielite, diretamente associada à paralisia infantil e que também pode prejudicar músculos respiratórios, neste último caso sendo altamente letal. A pólio, como também é conhecida, pode deixar outras sequelas, como a dificuldade de falar, atrofia muscular, problemas nas articulações e o pé torto. 

Graças a um esforço de vacinação, os casos de poliomielite – doença que também afeta adultos – caíram de 350 mil, em 1988, para apenas 29 em todo o mundo, em 2018. No Brasil, desde 1990 não há registros da doença. Entretanto, esta conquista pode estar em risco devido à queda vertiginosa na vacinação infantil. 

MENOS CRIANÇAS VACINADAS A CADA ANO 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a cobertura vacinal recomendada para evitar a reintrodução do poliovírus é de 95%, mas desde 2016 o Brasil não atinge esta meta de vacinação em crianças menores de 5 anos de idade. 

O Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, prevê que as três primeiras doses contra a poliomielite sejam aplicadas em bebês aos 2, 4, e 6 meses de vida, via injeção intramuscular da Vacina Inativada Poliomielite (VIP), e que, depois, haja duas doses de reforço, aos 15 meses e aos 4 anos, com a Vacina Oral Poliomielite (VOP), a conhecida gotinha. 

Em 2021, o percentual de crianças menores de 5 anos vacinadas contra a pólio foi inferior a 70%. Até 17 de outubro, 65,6% dos 14,3 milhões de crianças que são alvo da campanha deste ano foram imunizadas, cenário que fez muitas cidades brasileiras prorrogarem por tempo indeterminado a campanha de vacinação que terminaria em setembro. 

O RISCO DE A DOENÇA VOLTAR 

Atualmente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) coloca o Brasil, o Haiti, o Peru e a República Dominicana como países com risco muito alto para a volta da poliomielite nas Américas. 

“Estamos com baixa cobertura vacinal, não temos vigilância ambiental que permita detectar o vírus nos esgotos para rapidamente desencadear medidas para contê-lo, e há alguns anos não conseguimos atingir as metas de identificar e diagnosticar os casos de paralisia flácida aguda, algo que precisa ser feito rapidamente para que se confirme ou se descarte um caso de poliomielite. Por isso, o Brasil está entre esses países de risco muito alto para a volta da pólio”, detalhou, ao O SÃO PAULO, o médico Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). 

No dia 1o, o Ministério da Saúde lançou um plano nacional de resposta para detecção e surto de poliomielite no Brasil. Entre os objetivos, está o de fortalecer a vigilância epidemiológica das paralisias flácidas agudas, garantir o acesso universal aos serviços de vacinação contra a poliomielite e aumentar a vigilância laboratorial. O poliovírus é transmitido mais frequentemente de pessoa a pessoa por via fecal-oral e, com menor incidência, por meio da água e alimentos contaminados. Na maioria das vezes, o infectado fica assintomático. 

E POR QUE AS METAS DE VACINAÇÃO NÃO SÃO ATINGIDAS? 

Na avaliação de Cunha, a disseminação de fake news sobre os efeitos das vacinas em crianças ajuda a explicar a queda da cobertura vacinal contra a pólio, mas a questão é multifatorial, e envolve o que muitos especialistas têm chamado de 5Cs. 

“O primeiro C é o da complacência, ou seja, a falsa sensação de segurança que as pessoas têm sobre uma doença que elas nunca viram. O segundo C é sobre a confiança, decorrente do questionamento não apenas quanto à segurança e eficácia da vacina, mas também de seus efeitos adversos, e essa confiança só é conquistada pelos discursos de todos os atores envolvidos, ou seja, dos governantes, das instituições e profissionais de saúde, mas a confiança foi muito abalada pela disseminação da desinformação e de fake news pelos grupos antivacinas no Brasil.” 

“O terceiro C – prosseguiu Cunha – é a conveniência, ou seja, a necessidade de uma boa estrutura física e logística, bem como de vasto horário de atendimento nas unidades de saúde, com profissionais capacitados e valorizados para poder informar a população sobre eventuais dúvidas; o quarto C é o da comunicação, pois precisamos ter peças publicitárias para divulgar as campanhas e falar da importância da vacinação; e, por fim, o contexto, entendendo que é exatamente na população mais vulnerável que estão as mais baixas coberturas vacinais, e que elas são as que mais sofrem com a doença e têm dificuldade de acesso às vacinas”, detalhou o presidente da SBIm. 

CONSCIENTIZAR SOBRE OS IMPACTOS REAIS 

Com o histórico de atuação em prol da saúde de gestantes e crianças, a Pastoral da Criança está preocupada com a baixa cobertura vacinal infantil. Segundo Nelson Arns Neumann, doutor em Saúde e coordenador internacional da Pastoral, é fundamental que as famílias mais pobres tenham em conta que serão as mais prejudicadas se houver a volta da poliomielite. 

“Uma família de classe média até poderá pagar uma fisioterapia se o filho tiver poliomielite, poderá se valer de bons equipamentos para superar em partes a paralisia infantil, mas uma família mais pobre não terá como adaptar a casa inteira ou ter todos os serviços disponíveis”, comentou. 

O coordenador da Pastoral também faz um chamado para que a comunidade do entorno se mobilize para viabilizar a vacinação das crianças mais pobres. “Uma mãe que precisa levar uma criança pequena em uma unidade de saúde para tomar vacina, se tem mais filhos, certamente terá dificuldades para se deslocar até o serviço de saúde. E, se a família mora longe das unidades de saúde, como fará? Lembro que minha mãe, a doutora Zilda Arns [fundadora da Pastoral da Criança], mobilizava os casais das comunidades para ver quais podiam buscar os profissionais da uni- dade básica de saúde para levá-los até as comunidades rurais ou quilombolas para aplicar a vacinação”, recordou. 

Neumann avaliou que o Governo federal precisa ampliar investimentos na divulgação da campanha de vacinação, e lembrou que a Pastoral da Criança, por meio do aplicativo Visita Domiciliar, fornece uma série de materiais explicativos, incluindo conteúdos sobre vacinação: “Quando conversamos com as mães, muitas dizem que procuram informações sobre Saúde das crianças no Google, mas que já ‘caíram’ em alguma fake news. Com o aplicativo, elas vão ter acesso a uma informação correta, que é homologada pela comunidade científica e pelo Ministério da Saúde”. 

PARCERIA COM AS ESCOLAS 

Para Cunha, parcerias entre as áreas de Saúde e Educação muito ajudariam a diminuir a quantidade de crianças que estão em atraso com a vacina da pólio. “Tivemos uma experiência bem-sucedida no Brasil na campanha de vacinação contra o HPV para meninas, em 2014, nas escolas, que resultou em uma adesão altíssima”, lembrou. 

O presidente da SBIm também vê como fundamental a retomada do cumprimento da condicionalidade de que as famílias que recebem o Auxílio Brasil estejam com o calendário vacinal das crianças em dia. Essa obrigatoriedade, suspensa em março de 2020 por causa da pandemia, foi retomada apenas em setembro deste ano. 

A SBIm desenvolveu uma campanha informativa sobre os riscos da poliomielite e a importância da vacinação. Os detalhes podem ser vistos no site https://paralisiainfantil.com.br

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