Linguagem neutra’: o debate pela inclusão vai muito além da questão de gênero

Linguagem neutra’: o debate pela inclusão vai muito além da questão de gênero, Jornal O São Paulo
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Ao longo do tempo, aspectos da vida em sociedade até então consagrados tendem a se revestir de uma nova condição: uns deixam de existir, outros são atualizados e novos passam a fazer parte do dia a dia das pessoas. Isso é motivado por diversas razões, como o avanço tecnológico, o advento de novas conjunturas econômicas, mudanças culturais, necessidades sanitárias, entre outras.

De alguns anos para cá, um movimento presente em todo o Brasil, liderado por vários grupos que clamam por maior espaço de representação e igualdade social, tem reivindicado a atualização de um instrumento essencial, considerado a base de toda a comunicação, e o mais utilizado pelos brasileiros no cotidiano: a língua portuguesa.

REPRESENTATIVIDADE

Os integrantes desses grupos, conhecidos pela sigla LGBTQIAP+, afirmam que a mudança linguística é necessária pelo fato de essas pessoas não se identificarem com os gêneros biológicos binários masculino e feminino e, por isso, a língua de Camões, hoje, segundo elas, não seria capaz de abarcar as multifacetadas formas de representá-las em relação à sua visão acerca da própria sexualidade.

Além de alegar essa falta de representatividade, essas pessoas consideram que a língua portuguesa seria machista, justamente pelo fato de que, ao utilizar determinadas palavras que se referem a ambos os gêneros gramaticais, a terminologia masculina é utilizada em detrimento da feminina, gerando assim o que consideram uma desigualdade.

PROPOSTA

A fim de sanar essa “disparidade” e eliminar preconceitos, tais grupos propõem a modificação da língua portuguesa por meio da chamada “linguagem neutra”, com a adoção de determinadas terminações nas palavras que, acreditam, as deixariam sem vínculo algum a um determinado gênero, o que consideram uma maneira de tornar a língua mais tolerante. Assim, muitos têm empregado palavras que seriam “neutras”: usam outro grafema no lugar da vogal desinencial (amig@s, alunes, professorxs), os dois gêneros em todas as frases (os prezados irmãos e as prezadas irmãs – a chamada ‘linguagem inclusiva’) ou apresentam as duas vogais (as/os queridas/os amigas/os).

“O grande problema dessa percepção machista da gramática portuguesa é confundir gênero gramatical com gênero/sexo biológico (ou identitário). O gênero gramatical não reflete necessariamente o sexo da pessoa. Caso contrário, teríamos que fazer uma revisão profunda em palavras como ‘a criança, a vítima, a testemunha, a pessoa’, nas quais os masculinos não estariam contemplados. O poeta, o canalha, o déspota, o motorista seriam menos homens porque a palavra termina em ‘a’?”, questiona Rafael Rigolon, que, além de biólogo, é especialista em Etimologia.

EXPLICAÇÃO

É necessário ressaltar que as características presentes na língua portuguesa foram herdadas da língua latina. No latim, há os gêneros masculino, feminino e neutro. O neutro serve para coisas, grupos de homens e mulheres (ou machos e fêmeas) e grupos em que o sexo não é relevante. Com a evolução do latim para o português, apenas por uma questão de similaridade fonética, o gênero neutro se mesclou ao masculino. Por exemplo, amicus (masculino) e amicum (neutro) se tornaram “amigo” em português; amica virou “amiga”.

“Então, a palavra masculina não se refere só a homem. Se alguém disser ‘não tenho amigo algum’, entende-se que ela não tem amizade com nenhuma pessoa. Se quiser salientar que não tem amigos do sexo masculino, terá que dizer ‘não tenho amigo homem’. Isso porque amigo, naquele contexto inicial, não denota sexo, ou seja, é neutro”, explica Rigolon.

O feminino, por sua vez, é um gênero muito particular e o único que recebe marcação na língua portuguesa. “As mulheres têm um gênero gramatical que as identifica como grupo. No exemplo ‘as professoras’, não há dúvidas da composição 100% feminina. Se a língua portuguesa fosse machista, os homens teriam um gênero que os representasse como grupo, só deles”, conclui Rigolon.

MARCAÇÃO DE GÊNERO

É exatamente a condição apontada por Joaquim Mattoso Câmara Júnior, importante linguista e pesquisador brasileiro, falecido nos anos 1970, em seus estudos sobre a linguagem. Segundo ele, o gênero feminino é, em língua portuguesa, uma particularização do masculino, feita pela terminação “a” em contraposição à terminação neutra “o”.

“Os substantivos com marca de gênero, em português, coincidem exatamente com os que estamos acostumados a considerar femininos. Os outros casos, todos, seriam considerados sem gênero, inclusive os nomes considerados masculinos”, diz Sírio Posseti, pesquisador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em entrevista ao jornal Gazeta do Povo.

“É por isso que dizemos ‘o circo tem dez leões’ mesmo que tenha cinco leões e cinco leoas, mas não dizemos, no mesmo caso, que tem dez leoas. Também é por isso que se pode dizer que ‘todos nascem iguais em direitos’, o que inclui as mulheres, mas não se incluiriam os homens se a forma fosse ‘todas nascem iguais em direitos”, explica Posseti.

INCLUSÃO DE FATO

Além do fato de que nenhuma língua muda seu sistema flexional por vontade de um grupo, mas sim de forma natural e paulatina, e de o gênero gramatical não ter relação com o gênero identitário, normalmente quem adota “x”, “@” e similares para não marcá-lo, negligencia deliberadamente outros aspectos práticos. Esses grafemas tornam as palavras impronunciáveis, gerando desconforto à leitura e, principalmente, à pronúncia. Como se lê “alunxs”, por exemplo?

“O que se chama de ‘linguagem inclusiva’ acaba contraditoriamente excluindo outros grupos. Palavras com ‘x’ e ‘@’ não ajudam disléxicos, estrangeiros, cegos que usam aplicativos de leitura, pessoas com todo tipo de problema de visão, alunos em fase inicial de alfabetização, pessoas com dificuldade cognitiva de leitura, e outras mais”, afirma Rigolon.

Ao contrário, o uso da linguagem neutra exclui pela fonética e ausência de regra linguística a maioria desses grupos, trazendo dificuldade e, em alguns casos, até mesmo impedimento de adaptação.

Se a questão é denotar empatia, se a luta é pela igualdade, a sociedade deve voltar seu olhar não apenas para um grupo específico, mas para todos.

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