Livro-entrevista de Ratzinger sobre a fé e os desafios do pós-Concílio é reeditado no Brasil

Livro-entrevista de Ratzinger sobre a fé e os desafios do pós-Concílio é reeditado no Brasil
Escola Ratzinger /Divulgação

Uma das obras mais conhecidas do então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Emérito Bento XVI, acaba de ser reeditada após 37 anos de seu lançamento. Agora com o título “Relatório sobre a fé. Vittorio Messori conversa com o Cardeal Joseph Ratzinger”, fiel ao original italiano, o livro-entrevista havia sido publicado em 1984 como “A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga”

Dividido em 13 capítulos, dos quais um é mais pessoal e os demais são propriamente crítico-analíticos, o livro reúne uma série de entrevistas concedidas por Ratzinger ao escritor e jornalista italiano Vittorio Messori.

A tradução do original em italiano foi revisada pelo editor Rudy Albino de Assunção, doutor em Sociologia, considerado um dos maiores tradutores das obras de Joseph Ratzinger e que, desde 2012, se dedica à propagação de seus escritos, especialmente por meio da Escola Ratzinger, responsável pela publicação da nova edição.

PÓS-CONCÍLIO

A obra foi lançada poucos anos após Ratzinger assumir o cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que exerceu até sua eleição como pontífice, em 2005. A conversa se deu um ano antes da realização da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, convocada por São João Paulo II para comemorar os 20 anos da conclusão do Concílio Vaticano II.

O Purpurado alemão fez uma avaliação das primeiras duas décadas pós-conciliares, com posicionamentos firmes que tiveram bastante repercussão na época. Entre os assuntos, Ratzinger tratou da hermenêutica do Concílio, das diversas noções de eclesiologia que se afirmaram no pós-Vaticano II, assim como das diversas correntes e abordagens teológicas que surgiram nessa época; da compreensão sobre o ministério sacerdotal e o impacto disso na vida dos padres; o papel das conferências episcopais em relação à missão própria dos bispos diocesanos; a catequese e a transmissão da fé; a teologia moral; a reforma litúrgica; a ação missionária e outros temas que provocaram crises em diversos âmbitos da vida eclesial nessa época.

Rudy sublinhou ao O SÃO PAULO que, na entrevista, o Cardeal não faz uma crítica ao Vaticano II, mas a certas interpretações equivocadas e a aplicação deturpada das intuições do Concílio, convidando todos a retornarem à sua letra, isto é, aos fundamentos e determinações expressas nos documentos conciliares. “Ele afirma textualmente que, de modo algum, pode ser imputado ao Concílio a culpa dessas crises, mas a uma deturpação do seu sentido e das suas intenções”, destacou.

QUESTÕES ATUAIS

“De alguma forma, esse livro determinou as discussões preliminares do Sínodo de 1985”, ressaltou Rudy, considerando a obra como fundamental para compreender a Igreja no pósVaticano II, reconhecendo que muitos dos desafios apontados pelo então Prefeito da Doutrina da Fé foram considerados e enfrentados nos pontificados de São João Paulo II, do próprio Bento XVI e continuam sendo temas de atenção do Papa Francisco.

O editor da obra reconhece que, no livro, Ratzinger “coloca o dedo na ferida de muitas questões delicadas”, mas pertinentes para a vida da Igreja. Na época, sem o distanciamento da história e em meio à recente assimilação do Concílio, muitos julgaram a análise do Cardeal como pessimista. “Em uma entrevista para a revista Time, em 1993, Ratzinger afirmou: ‘Pessimista e otimista são categorias emotivas sem valor cognoscitivo’, e ainda disse que, ‘quando analisamos a situação de uma sociedade, não devemos perguntar se devemos fazê-lo de modo otimista ou pessimista; é necessário buscar parâmetros precisos por meio dos quais conhecer as tendências do desenvolvimento e do estado de saúde de uma sociedade’”, acrescentou Rudy.

PERIGO DA INSTRUMENTALIZAÇÃO

O tradutor salientou que a obra também ajuda a conhecer com profundidade o pensamento de Bento XVI, evitando o risco de interpretações distorcidas ou superficiais de seu magistério. Ele acrescentou, ainda, que o testemunho de mútuo respeito e estima entre Francisco e Bento XVI percorre o caminho oposto a qualquer noção que reforce a polarização ideológica ou a contraposição entre seus magistérios.

“Não é legítimo que, em nome de Francisco, seja engavetado o papado de Bento XVI como se nunca tivesse existido, assim como repúdio aqueles que instrumentalizam o pontificado anterior para atacar o atual”, salientou o editor, alertando para o perigo de muitas frases de ambos os pontífices serem retiradas do contexto em favor de certas mentalidades que não prejudicam a comunhão eclesial.

Reiteradas vezes, o Papa Francisco reconhece o legado teológico e magisterial de seu predecessor, chegando a citá-lo em seus documentos. Um exemplo significativo é a encíclica Lumen fidei, publicada em 2013, por ocasião do Ano da Fé, que foi quase integralmente redigida por Bento XVI, que renunciou antes de sua conclusão, feita por seu sucessor. Tanto que Francisco enfatiza no início do documento:

“Sou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De fato, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a ‘confirmar os irmãos’ no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho”

CONTINUIDADE

“Ao ser eleito pontífice, o Papa Bento XVI apontava para algo que ele já aludia em 1984: o problema da interpretação do Concílio como uma ruptura tanto de um lado progressista quanto de um lado tradicionalista, e não com uma hermenêutica de continuidade”, observou o editor.

Reforçando o convite do então responsável pela Doutrina da Fé na Santa Sé à necessidade de ler e interpretar o Concílio pelo próprio Concílio, isto é, por seus documentos. “Muitas das coisas que hoje são atribuídas ao Concílio estão longe das determinações explícitas nos seus documentos”, comentou o editor.

Sobre esse aspecto, o próprio Cardeal Ratzinger diz no livro: “É impossível para o católico tomar posição a favor do Vaticano II contra Trento ou o Vaticano I. Do mesmo modo, é impossível decidir-se a favor de Trento e do Vaticano I e contra o Vaticano II”

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