Medo excessivo de voltar às atividades de antes? É hora de buscar ajuda!

Comportamento conhecido como ‘Síndrome da Cabana’ tem sido relatado neste período de volta à rotina presencial

Reprodução

Com o avanço da vacinação contra a COVID-19 no Brasil, muitas atividades sociais interrompidas ou limitadas na fase mais aguda da pandemia estão sendo retomadas, como, por exemplo, a ida dos estudantes às escolas, o trabalho presencial, as consultas médicas de rotina e as missas sem limitação na quantidade de fiéis.

No entanto, tem sido crescente o relato de pessoas que apresentam um medo excessivo de sair do ambiente em que permaneceram durante o isolamento social ou de ter qualquer tipo de socialização no local onde vivem, ainda que sejam assegurados todos os protocolos recomendados para se evitar o contágio com o coronavírus.

Esse receio mais extremo de ressocialização é conhecido como “Síndrome da Cabana” ou “Síndrome da Caverna”. Seus primeiros registros datam de 1900, e reportam que caçadores norte-americanos que ficavam isolados em cabanas por longos períodos durante o inverno, ao retornarem à sociedade, tinham dificuldades em manter o mesmo nível de interação social que realizavam anteriormente.

“Esse conceito voltou a ser usado agora por causa da pandemia e o período longo de isolamento. Trata-se de uma ansiedade ou angústia que se dá quando alguém pensa em se encontrar com outras pessoas, pensa na socialização”, explicou, ao O SÃO PAULO, Ronaldo Coelho, psicólogo e psicanalista.

Sinais

Coelho afirma que o primeiro sinal de que alguém possa ter um quadro de “Síndrome da Cabana” é o de que a pessoa evita qualquer possibilidade de contato com as demais.

“O medo não é só o de sair de casa, mas também de não querer se socializar de modo algum, de evitar estar em um ambiente com outras pessoas, enfim, de preferir ficar isolado, não querer receber ninguém em casa também. Além disso, quando se cogita a possibilidade de sair de casa, essa pessoa fica bastante ansiosa, preocupada e até tem uma reação agressiva”, detalha.

O psicanalista destaca que essa síndrome não é considerada uma doença, mas um comportamento que pode ocorrer com algumas pessoas que por um longo período permaneceram em isolamento e que temem que qualquer tipo de contato social, ainda que com as devidas medidas de proteção já conhecidas, as coloque em risco de contágio.

O que fazer?

De acordo com Coelho, não há um passo a passo para o tratamento da síndrome. A primeira atitude, porém, é fazer com que a pessoa reconheça seu verdadeiro medo.

“Para muitos, o que pode ter acontecido é que a pandemia se tornou uma oportunidade de não precisar se relacionar. Para estes, a atual situação não é vista como um problema, mas como algo positivo que legitimou aquilo que essa pessoa anteriormente sentia, pois ela apenas se socializava por necessidade de pertencer a uma sociedade, não porque gostasse de se relacionar. Por isso, quando a pessoa se pergunta o que ela está evitando efetivamente, uma série de pistas aparecem, mas isso é muito singular, são razões próprias”, explica.

Coelho afirma que o caminho que será adotado pelo psicólogo ou o psicanalista é o de ajudar a pessoa a refletir sobre as razões dessa insegurança para se relacionar com as demais, sendo, assim, fundamental que diante dos sinais da síndrome se procure orientação médica especializada.

Quando é hora de buscar ajuda?

O “termômetro” sobre o momento em que é preciso buscar a ajuda de um psicólogo ou de um psicanalista está em perceber o quanto esta angústia ou receio limita as ações na vida de uma pessoa.

“Algumas podem até entender que a socialização não faz falta, mas é preciso que façam o seguinte questionamento:

‘O quanto isto o tira da vida?’. Se essa postura tira coisas importantes da sua vida, acabará por tirar tanto que uma hora a própria vida pode começar a perder o sentido. É fundamental que a pessoa não chegue a este ponto. Em qualquer nível de dificuldade de socialização, a terapia pode ajudar, mas, quando se percebe que a vida está muito limitada, aí está o ‘termômetro’ que aponta que é preciso se cuidar, buscar ajuda profissional”, afirma.

A partir de sua experiência clínica, Coelho relata que a “Síndrome da Cabana” tem sido mais comum em pessoas que estão nos grupos de risco para a COVID-19, naquelas que têm alguma complicação por causa da doença, em seus familiares e naquelas que já tinham dificuldades para a socialização antes mesmo da pandemia e canalizaram isso para o medo de se contagiar com o coronavírus.

A escuta é a melhor colaboração de familiares e amigos

Aos amigos e parentes de alguém que esteja com sinais da “Síndrome da Cabana”, o psicanalista assegura que a melhor ajuda que podem dar é ter uma postura compreensiva e de escuta a essa pessoa, sem impor soluções.

“Quando nos colocamos como alguém que procura entender antes de julgar ou de dar um conselho, tudo fica mais fácil, o canal de comunicação se abre. Assim, um familiar ou amigo que tenha uma preocupação verdadeira com essa pessoa deve procurar entender o que está acontecendo, perguntar primeiro antes de falar qualquer coisa”, ressalta Coelho.

O psicanalista lembra ainda que o ideal é se colocar ao dispor dessa pessoa dentro daquilo que ela achar que possa ser uma efetiva contribuição. “Isso faz com que ela perceba que não está sozinha, que se precisar haverá alguém para ajudá-la. A partir desse momento, pode-se pensar junto com ela se não é o caso de procurar um analista, um psicólogo, que vai ajudar a facilitar esse percurso”, conclui, enfatizando ser indispensável a orientação médica especializada nesses casos.

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