No centenário do rádio no Brasil, as histórias de 4 sacerdotes com as vidas ligadas a este meio de comunicação

Há exatos cem anos, em 7 de setembro de 1922, acontecia a primeira transmissão oficial de rádio no Brasil. Naquele dia, no Rio de Janeiro, foi transmitido pelas ondas do rádio – e captado por cerca de 80 aparelhos receptores – o discurso do presidente Epitácio Pessoa, proferido na Praça XV, além de um concerto da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, no Theatro Municipal.

Em poucos anos, as transmissões de rádio se espalharam pelo Brasil, bem como as emissoras, algumas das quais católicas. Nesta edição, O SÃO PAULO conta a trajetória de quatro sacerdotes que têm suas vidas marcadas pelo amor ao rádio.

Padre Landell de Moura: o desbravador da tecnologia radiofônica

No centenário do rádio no Brasil, as histórias de 4 sacerdotes com as vidas ligadas a este meio de comunicação, Jornal O São Paulo
Foto: Reprodução

Diante de olhares surpresos, o Padre Roberto Landell de Moura (1861-1928) realizou a primeira demonstração pública de uma transmissão de rádio em 16 de julho de 1899. A partir do Colégio Santana, na zona Norte de São Paulo, sua voz e o Hino Nacional puderam ser ouvidos na Ponte das Bandeiras, distante cerca de 4km. Um ano depois, em 3 de junho de 1900, a tecnologia por ele desenvolvida para transmitir informações sonoras por meio de ondas eletromagnéticas levou sua voz e outros sons ainda mais longe: à Avenida Paulista, distante cerca de 8km do Colégio.

Nascido em Porto Alegre (RS), Padre Landell estudou Teologia em Roma e por lá também se interessou por temas de Física e Química. Em 1887, de volta à sua terra natal, buscou apoio para a produção do aparelho que era capaz de transmitir mensagens sonoras pelo ar, mas não obteve suporte institucional nem financeiro. O mesmo aconteceu quando veio para São Paulo.

Em 1901, patenteou seu invento e partiu para os Estados Unidos, onde, com dinheiro do próprio bolso e empréstimos, conseguiu patentear três de seus projetos: o “Transmissor de Ondas” – que é a tecnologia do rádio; o “Telefone sem fio”; e o “Telégrafo sem fio”. De volta ao Brasil, em 1904, continuou a divulgar sua invenção, mas não encontrou patrocínios para produzi-la.  

Padre Roberto Landell de Moura morreu aos 67 anos, em 1928, vítima de tuberculose. Como só conseguiu patentear seu invento em 1901, não é oficialmente considerado o inventor do rádio, já que em 1896 o italiano Guglielmo Marconi patenteou um aparelho que também era capaz de transmitir sons pelo ar.

Um detalhado trabalho sobre os feitos do Sacerdote brasileiro é o livro “Padre Landell: o brasileiro que inventou o wireless”, da Editora Insular, lançado este ano por Hamilton Almeida, biógrafo do Sacerdote.

Padre Vítor Coelho: de Aparecida, uma fé que ressoa em todo o Brasil

No centenário do rádio no Brasil, as histórias de 4 sacerdotes com as vidas ligadas a este meio de comunicação, Jornal O São Paulo
Foto: Centro de Documentação e Memória do Santuário de Aparecida

Ainda está na memória de muitos brasileiros a voz que ao meio-dia recordava, pelo rádio, que “Os ponteiros apontam para o infinito” e que às 15h conduzia a Consagração a Nossa Senhora Aparecida.

Padre Vítor Coelho de Almeida (1899-1987), natural de Sacramento (MG), foi ordenado sacerdote em 1923, na Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas). Acometido por tuberculose, esteve internado entre 1941 e 1948 no Sanatório Divina Providência, em Campos do Jordão (SP), mas já na fase final de recuperação da saúde, em 1947, iniciou sua trajetória de “Apóstolo do Rádio”, pela rádio ZYL-6 daquela cidade.

A partir de 1951, passou a se dedicar à rádio Aparecida, em um frutuoso trabalho por 36 anos, durante os quais foi apresentador de muitos programas, com uma voz firme e carismática, que chegava a diferentes locais, partilhando os muitos saberes do Padre sobre questões de fé, cultura e sociedade.

Morto em 1987, em decorrência de um edema pulmonar, o “Apóstolo de Aparecida” teve seu processo de canonização iniciado em 1998. No último dia 5 de agosto, o Papa Francisco assinou o decreto pelo qual proclama como Venerável o Padre Vítor Coelho de Almeida, um dos passos que indicam o avanço da causa, o que poderá torná-lo beato em breve.

A notícia fez muitos fiéis recordarem do tempo em que ouviam o Sacerdote pelo rádio: “Muito se deve ao agora Venerável Padre Vítor Coelho de Almeida pela propagação da fé em Deus e em Nossa Senhora Aparecida pelas ondas do rádio. Sou devota, assim como meus pais, graças a ele”, escreveu Marli Nucci Vacaro nas redes sociais do jornal O SÃO PAULO (@jornalosaopaulo) na ocasião. “Minha avó o ouvia todos os dias pelas ondas curtas da rádio Aparecida, às 15h, na Consagração. Era uma voz emblemática e marcante do rádio brasileiro”, também recordou o internauta Prado Junior.

Padre Zezinho: ‘O rádio é um veículo libertador’

No centenário do rádio no Brasil, as histórias de 4 sacerdotes com as vidas ligadas a este meio de comunicação, Jornal O São Paulo
Foto: Arquivo pessoal

A estreia do Padre Zezinho, SCJ, no rádio foi com o programa “Um olhar sobre a cidade”, em 1970, na rádio 9 de Julho, a convite do Padre Lucas Caravina. Naquela época, a Igreja começava a ter um olhar mais atento para as potencialidades e riscos dos meios de comunicação social, com a publicação do decreto Inter mirifica, em 1966.

Nascido em Machado (MG) em 1941, e ordenado sacerdote em 1966, aos 25 anos, Padre Zezinho chegou ao rádio após já ter iniciado sua trajetória como compositor e cantor. Além do programa “Um olhar sobre a cidade”, passou a apresentar o “A hora e a vez da família”, atração que marcou época. Não demorou muito para que seus programas chegassem a mais de 30 rádios em diferentes partes do País.

“Tive programas em várias rádios, sempre na linha da Catequese falada e cantada. O rádio é um veículo libertador. Pode haver quem o use de maneira errada, mas a Igreja tenta usá-lo de maneira certa. Quando temos rádio e tevê nas mãos, o nosso dever sagrado é o de orientar o povo e não o de fazer propaganda política. Nós somos catequistas e orientadores”, destacou, ao O SÃO PAULO, Padre Zezinho, hoje com 81 anos.

Padre Zezinho foi o último a apresentar um programa na rádio 9 de Julho antes que os transmissores da emissora fossem lacrados pelo regime militar, em 5 de novembro de 1973, um silenciamento que durou até 1999, quando a rádio voltou ao ar.

“Eu comecei a fazer rádio em um período de exceção política no Brasil. Tinha havido a mudança radical de governos a partir de 1964, e a coisa se tornou mais pesada com o tempo. Com isso, houve dificuldades até para a Igreja Católica, sobretudo em São Paulo, onde fecharam a 9 de Julho. Dom Paulo Evaristo Arns e outros bispos achavam que não havia mais liberdade suficiente para o povo e, por isso, a Igreja foi lutar pelos direitos humanos, seguindo a Doutrina Social da Igreja. Eu estive neste grupo. Não queríamos derrubar governo algum, mas, sim, libertar a comunicação católica. Queríamos o direito de pregar a Doutrina Social da Igreja, e isso nos custou caro, mas não tivemos medo. Fecharam a rádio, mas não a nossa boca”, recordou.

Ainda hoje, Padre Zezinho envia seus programas para a rádio Aparecida, por meio das Paulinas-Comep, e também para outras três emissoras em São Paulo e no Paraná.

Padre Reginaldo Manzotti: ‘O rádio está em minha essência de evangelização’

No centenário do rádio no Brasil, as histórias de 4 sacerdotes com as vidas ligadas a este meio de comunicação, Jornal O São Paulo
Foto: Rádio 9 de Julho/Arquivo

Criador da Associação Evangelizar É Preciso, em 2005, o Padre Reginaldo Manzotti é conhecido nacional e internacionalmente: são mais de 7,3 milhões de seguidores no Facebook e mais de 4,4 milhões no Instagram; 3,34 milhões de pessoas inscritas em seu canal do YouTube e quase 715 mil seguidores no Twitter.

Entretanto, foi no rádio que o Sacerdote começou a evangelizar pelos meios de comunicação. “Minha trajetória na rádio começou em 1997, com um programa de 5 minutos chamado ‘Oração da Tarde’, na rádio Paranavaí. Em 2004, estreou o programa ‘Experiência de Deus’, com transmissão ao vivo, das 13h às 14h, na rádio Clube B2 AM 1430, em Curitiba (PR). No mesmo ano, recebi um convite do Irmão Lauro Pazeto e Armando Célia Junior para que o programa fosse transmitido em um novo horário: de segunda-feira a sábado, das 10h às 11h. Desde então, mais de 1.600 emissoras de todo o País retransmitem o programa, além de outros países como Inglaterra, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Angola, Paraguai, Bolívia e Uruguai”, relatou o Sacerdote à reportagem.

“Depois de todos esses anos, ainda é engraçado que muitas vezes sou reconhecido mais pela minha voz do que pela minha aparência. Por isso, afirmo que o rádio está em minha essência de evangelização”, enfatizou.

Padre Reginaldo Manzotti avaliou que pelo fato de o rádio ser a grande companhia para as pessoas em diferentes momentos, é nesse meio de comunicação que elas buscam por respostas diante de um momento de desespero. “Eu sempre escuto isso: estava querendo uma resposta e ouvi sua voz, sua mensagem e parei para ouvir. Pelo rádio, entro na intimidade do lar de milhões de brasileiros, e o faço com muita humildade, levando a Palavra de Deus e, por muitas vezes, o consolo, a esperança e a força na superação de um problema que parecia não ter solução”, recordou.

Padre Manzotti revelou o que é mais desafiador para evangelizar nesse meio de comunicação: “Foi e ainda é um grande desafio apresentar um conteúdo evangelizador, motivacional e, ao mesmo tempo, catequético em tempos de imediatismo, que nada é feito para durar”, afirmou, destacando, ainda, que neste contexto o maior desafio para a evangelização é manter a fidelidade da mensagem proposta, “não ficar em uma superficialidade fugaz, mas buscar o que realmente edifica o ser humano, a família. O grande desafio é fazer materiais atrativos e com um conteúdo edificante”, disse o Sacerdote de 53 anos de idade.

(Com informações da Agência Brasil, Portal A12, Memorial Padre Zezinho e Associação Evangelizar é Preciso)

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