No Encontro Mundial das Famílias, casal brasileiro fala dos desafios das redes sociais na formação dos filhos 

Na terça-feira, 21, o casal de brasileiros Gustavo Huguenin, 36, e Fabíola Goulart, 35, embarcou para a Itália para mais uma das suas “viagens missionárias”. Casados há quase sete anos, o designer e a jornalista irão participar do X Encontro Mundial das Famílias, aberto na quarta-feira, 22, e que segue até o domingo, 26, em Roma. 

Arquivo pessoal

O casal, que atualmente mora em Florianópolis (SC), foi convidado pelos organizadores do evento para participar de um dos painéis temáticos que integram a programação do encontro. Eles irão refletir com famílias do mundo todo a partir da pergunta: “As redes sociais são um ‘ambiente’ para os nossos filhos?”. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o casal falou sobre as expectativas e abordou alguns aspectos do que vão compartilhar durante sua palestra. 

O SÃO PAULO – Como vocês receberam o convite para participar do Encontro Mundial das Famílias? 

Fabíola Goulart – No primeiro contato que fizeram conosco, nós pensamos que seria um evento preparatório on-line do Encontro Mundial das Famílias. Só depois fomos entender que o evento seria sobre a vida on-line, mas presencial. Quando nos demos conta do que se tratava, ficamos muito mais felizes e apreensivos, porque é um desafio grande. Nós vamos falar para famílias do mundo inteiro, com realidades bem distintas em relação às redes sociais, até mesmo quanto ao acesso às tecnologias. Por isso, pensamos em como abordar esse tema do ponto de vista global, mas, ao mesmo tempo, levar um pouco da nossa experiência com as redes. 

E esse tema está bastante presente na vida e na história de vocês, não é? 

Gustavo Huguenin – Por mais que tenhamos ficado surpresos com o convite, nós compreendemos que é algo relacionado à nossa história como casal, que está muito ligada à nossa missão, não apenas ao nosso trabalho profissional, como também ao nosso apostolado. As redes sociais são um ponto muito importante porque tivemos experiências extraordinárias relacionadas a elas, especialmente devido à Jornada Mundial da Juventude. Nós trabalhamos no comitê [organizador local] de três edições da jornada, especialmente na equipe de redes sociais, o setor com a maior quantidade de idiomas. Conversamos com pessoas de um universo de 22 línguas. Essa experiência ampliou a nossa visão sobre a Igreja, a nossa compreensão das diferenças culturais, da relação dos jovens de diferentes gerações com a Igreja, porque já estamos há dez anos envolvidos com as redes sociais da JMJ. 

Como vocês prepararam o conteúdo da palestra? 

Gustavo – A primeira coisa que pensamos é no desafio de transmitir uma mensagem sobre um tema tão amplo em 15 minutos. Então, pensamos o que precisamos comunicar nesse tempo para responder à pergunta proposta para o painel. Outro ponto ressaltado pelos organizadores é que não deve ser uma fala acadêmica, mas um testemunho de vida, conectado com a realidade, com uma linguagem simples, para que as pessoas nos compreendam. Também não se trata de um congresso de comunicação, que teria outra linguagem e formato do conteúdo. Consideramos a variedade de plataformas, as diferentes faixas etárias dos filhos, culturas e situações. Nesse sentido, apresentaremos três palavras-chave ou pistas de ação que ajudam as famílias a entender as redes sociais e auxiliá-las a um discernimento em família sobre essa realidade. 

Fabíola – Obviamente, levantamos os perigos do ambiente digital, porque é importante que tenhamos clareza de que eles existem, mas também as possibilidades. Para isso, nos baseamos muito nas falas do Papa Francisco, que reconhece os riscos, mas tem um olhar positivo em relação às redes. Nós também enviamos o conteúdo da nossa palestra para outras pessoas, como padres, comunicadores e, em especial, pais de filhos de diferentes idades para nos dizerem se a reflexão, de fato, estava conectada com a realidade de suas vidas. Pensamos nisso, porque o fato de ainda não termos filhos é um desafio para desenvolver esse tema. Mas, ao mesmo tempo, há um aspecto positivo, pois podemos ajudar os pais a terem um olhar para o ambiente digital que vá além das preocupações que já são conhecidas por eles, sobretudo a partir da nossa experiência com a juventude, ajudando os pais a compreenderem o ponto de vista dos filhos. 

Quais as palavras-chave que vocês indicam? 

Gustavo – Para tornar a nossa mensagem mais clara, nos baseamos na “identidade”, que visa a fortalecer nos filhos a compreensão sobre si mesmo. Quando eu sei quem sou, quais meus valores, princípios, não deixo com que qualquer voz que eu ouça no ambiente digital possa me afetar. A segunda palavra é o “diálogo”, a interação entre os pais e os filhos para que eles se ajudem, pois parece que só os pais podem ajudar, mas os filhos também. A terceira palavra é o “testemunho”, isto é, o que eu posso contar aos outros, o que as pessoas podem ouvir de mim. Nós acreditamos que, se dentro de casa há uma forte identidade cristã, os jovens vão carregar isso onde quer que estejam, inclusive no ambiente digital. Quantos jovens podem se inspirar no outro por atitudes de bondade, generosidade, até mesmo por um testemunho de fé? Talvez falte aos pais perceberem que seus filhos podem apresentar ao mundo esse testemunho da vida real. 

Fabíola – Um dos casais de pais a quem mostramos a palestra destacou que as dicas que damos não podem ser aplicadas apenas para os desafios do ambiente digital. Se trocarmos a rede social pela escola ou qualquer outro ambiente, também vale o caminho da identidade, diálogo e testemunho. Em vez de os pais simplesmente reclamarem porque o filho está muito conectado, tentarem se perguntar por qual razão ele passa tanto tempo nas redes, o que ele busca, como ele se sente quando está ali dentro e por que ele não está tendo essa mesma experiência em casa, no relacionamento em família, no off-line. Será que falta algo no relacionamento em família que faz o filho buscar relacionamentos na rede? Questionamentos como esse são importantes, mas nem sempre são feitos. Quando cultivamos a amizade com os filhos, a educação baseada nos valores e em uma identidade cristã forte, não vamos nos preocupar tanto quando eles estiverem na praça com os amigos, assim como na internet e em outros lugares. Por isso, buscamos provocar uma reflexão que seja útil tanto para os pais aterrorizados com as redes sociais e seus possíveis riscos quanto para aqueles que pensam que está tudo bem e nem acompanham seus filhos nesse ambiente. 

Qual é a expectativa de vocês para o encontro? 

Fabíola – Estamos muito felizes! Será muito rico ouvir as outras palestras, conhecer a história dos outros casais que vão compartilhar suas experiências. Além disso, estamos ansiosos para ouvir qual será a mensagem de Deus para a nossa família. 

Gustavo – Nossa expectativa maior é participar do encontro como um todo do que poder falar no painel. Nós vamos a Roma com a consciência de que estaremos no coração da Igreja, mas antes fazemos parte de uma paróquia, onde vivemos a vida sacramental em comunidade, participamos do grupo de oração, onde a Fabíola é catequista. Seremos parte da Igreja em Roma, assim como somos na nossa comunidade. 

Clique aqui e Saiba como acompanhar e participar do X Encontro Mundial das Famílias

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

Deixe um comentário