No Jabaquara, paróquia intensifica obra social para dar assistência aos ‘irmãos de rua’

Diante das baixas temperaturas, voluntários da Paróquia Nossa Senhora das Graças têm saído às ruas para levar alimentos e oferecer escuta aos mais necessitados

Arquivo pessoal

Munidos de garrafas cheias de café ou chá, lanches, cobertores, agasalhos e dispostos a conversar: é assim que leigos da Paróquia Nossa Senhora das Graças, no Jabaquara, têm saído em mutirão ao encontro dos irmãos em situação de rua desde maio deste ano.

A ação solidária ocorre durante a noite aos fins de semana e é inspirada pelo projeto “Animando a Esperança”, da Arquidiocese de São Paulo, que encoraja as paróquias a olhar para os mais necessitados do seu entorno (leia mais na página 16). Essa ação foi também motivada pelas baixas temperaturas que castigam ainda mais quem está nas ruas.

“Nós alternamos as saídas. Uma semana fazemos no sábado e na outra, no domingo. Trabalhamos sempre com a população que está nas proximidades, pois há aglomeração nas estações do Metrô Jabaquara e Conceição, e em algumas praças da região”, explicou Jardel Batista Rodrigues, coordenador da ação.

Segundo Rodrigues, embora a Paróquia sempre tenha assistido aqueles que batem na porta do templo na zona Sul, como famílias em situação de vulnerabilidade que retiram cestas básicas mensalmente e pessoas em situação de rua que buscam roupas e calçados, muitas, mesmo precisando, têm dificuldade de ir até a igreja pedir ajuda.

“Percebendo que há bastante gente [pelas ruas] nas imediações da Paróquia, resolvemos ir até eles. Acreditávamos que, assim, conseguiríamos alcançar um número maior de pessoas”, expôs o coordenador, reforçando que o objetivo não é somente entregar algo para aquecer as noites frias, mas, sim, “emprestar o ouvido para que seja um momento em que eles possam falar sobre suas angústias e necessidades”.

Caridade feita de irmão para irmão

De acordo com o Pároco, Padre Ubaldo Steri, que está na Paróquia desde 1972, a ação solidária reflete o modo de atuação da comunidade, que sempre teve por base o envolvimento dos leigos com os “problemas do seu tempo” por meio das ações sociais da Igreja.

“Isso é um pouco a história e o clima com os quais trabalhamos. Nossa característica é de espírito comunitário, em que a pessoa seja sensível e solidária com os vizinhos e com os irmãos que realmente precisam”, afirmou Padre Ubaldo: “Não uma coisa teórica, abstrata nem distante, mas direta. Isso é o que mais marca e é o que produz mais resultado também.”

O Pároco fala, ainda, que, além de direta, a caridade deve ser “feita de irmão para irmão; de pessoa para pessoa. Que [cada um] olhe para o entorno de si, veja nosso povo que está sofrendo e ajude fazendo doações, cada um na medida do possível, para que sejam redistribuídas também para os nossos”. Ele ressalta que é preciso despertar o testemunho de fraternidade e solidariedade.

Rodrigues salienta que, durante as saídas, os voluntários não estipulam tempo para a ação e ficam à disposição dos irmãos em situação de rua que querem conversar. “Levamos o amor de Deus até o coração deles. Afinal, estamos como Igreja fazendo este trabalho, levando uma mensagem de amor, fraternidade e de paz, para que esse momento possa ir além das roupas e do lanche, que seja também algo espiritual”, disse.

A experiência tem proporcionado uma relação de confiança entre os voluntários e os assistidos, que muitas vezes pedem para ouvir uma palavra ou simplesmente querem ser escutados. “Eles falam sobre muitas coisas. Desabafam, choram, cantam. Alguns pedem até para fazer contato com a família”, contou Jardel Rodrigues.

Para atender a tais pedidos, os voluntários emprestam seus celulares. “Alguns têm o número [do familiar] anotado ou sabem de cabeça. Então, fazemos a ligação no momento em que solicitam. Caso eles não saibam [o número], tentamos contato pelas redes sociais”, detalhou Rodrigues, pontuando que, ao estabelecer a comunicação, explica ao familiar que está realizando um trabalho social voluntário e que, por isso, aquele número não é da pessoa que está nas ruas.

Outro ponto importante é que os voluntários priorizam a vontade do assistido, inclusive se ele quer ou não informar a pessoa do outro lado da linha onde está. “Deixamos isso livre. Se ele quiser simplesmente dizer que está vivo e bem, respeitamos.”

Durante a ação, muitos assistidos também expõem questões de saúde. Na medida do possível, os voluntários tentam informar sobre os serviços públicos de acolhimento disponíveis na região.

Preparação da ação solidária

Arquivo pessoal

A ação solidária é viabilizada por meio das doações recebidas pela Paróquia – agasalhos, toucas, meias, cobertores, alimentos etc. As saídas contam com aproximadamente 15 voluntários, que chegam à igreja matriz às 16h30 para preparar as refeições, separar as roupas, os cobertores e tudo mais que será doado. Às 18h, participam da Santa Missa, seja no sábado, seja no domingo, e só depois saem com tudo, em seus próprios carros, para distribuírem aos arredores do bairro.

“Levamos cerca de 50 lanches, 50 cobertores e uma quantidade ‘x’ de roupas para ser distribuída. Normalmente, por noite, são atendidas, em média, 70 pessoas. Isso porque nem todos lancham. Muitos querem, principalmente neste período mais frio, os cobertores”, discorreu Jardel Rodrigues.

O coordenador lembra que, por meio dessa ação, a comunidade está sendo movimentada, pois, mesmo aqueles que não podem estar presentes na distribuição por causa da pandemia, contribuem com as doações e até com a preparação dos alimentos. Isso tem trazido ânimo para os paroquianos.

“Como voluntário, percebo que a ação não só é importante para os necessitados, mas para nós também. Estamos indo em nome da Igreja, fazendo aquilo que está no Evangelho, em que o próprio Jesus fala: ‘tive fome e me destes de comer’”, comentou Rodrigues. “Partimos do princípio de que esse trabalho não apenas oferece um pouco mais de dignidade para eles, mas também nos dá, como cristãos, a oportunidade de colocar em prática aquilo que o Evangelho nos chama a viver.

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Fundada em 16 de julho de 1950, a Paróquia Nossa Senhora das Graças fica na Região Episcopal Ipiranga. As doações podem ser entregues na igreja matriz: Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, 2.313, Cidade Vargas. Outras informações pelo telefone (11) 5588-1227.

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