O que já se sabe sobre a nova varíola e como é possível se proteger?

Inicialmente chamada de ‘Monkeypox’, doença pode receber nova nomenclatura da OMS. Apesar de já existir vacina, acesso ao imunizante ainda é limitado em todo o mundo

O que já se sabe sobre a nova varíola e como é possível se proteger?, Jornal O São Paulo
Gerd Altmann e Pete Linforth/Pixabay

Há cerca de três meses, um surto de varíola começou a gerar preocupações em todo o mundo. Desde então, aproximadamente 35 mil casos da doença já foram identificados em cerca de 90 países. 

A rápida disseminação da ‘Monkeypox’ – nome pelo qual a doença se tornou conhecida, sendo também chamada de ‘Varíola dos Macacos’ – foi constatada primeiramente na Europa e se espalhou por outros países. Com isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu, no fim de julho, uma declaração de “emergência global”, alertando que a situação requer atenção por parte das nações. 

No Brasil, o primeiro caso foi registrado no dia 9 de junho, e até o fim da primeira quinzena de agosto já eram quase 2,5 mil confirmações por parte do Ministério da Saúde. Até 10 de agosto, o estado de São Paulo detinha o maior número de casos do País, 1.748, seguido pelo Rio de Janeiro, com 278, Minas Gerais, 102, e Distrito Federal, 92. 

NEM O ALARDE, NEM A INDIFERENÇA 

A primeira morte decorrente por esta varíola no Brasil ocorreu em 28 de julho. Foi de um homem de 41 anos, com baixa imunidade, e que estava internado em Belo Horizonte (MG). Ele tinha outras comorbidades acentuadas e histórico de tratamento quimioterápico. 

Para o médico José Ângelo Lauletta Lindoso, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, é preciso ter cautela para lidar com a situação. 

“É o ponto primordial. Não se pode criar uma circunstância de alarde muito grande [a ponto] de pensar que é uma situação caótica, mas também não se pode relaxar e acreditar que está tudo tranquilo”, avalia. “Precisamos entender mais a doença, a dinâmica de transmissão e como deve ser a proteção”, ressalta o infectologista. 

“Outro ponto fundamental é não estereotiparmos as pessoas contaminadas”, lembra o médico, que também é professor do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). 

O QUE É ESSA DOENÇA? 

A chamada ‘Monkeypox’ é uma doença viral transmitida para humanos por meio do contato com animal ou humano infectado, ou ainda com materiais contaminados com o vírus. 

Não se trata de uma nova doença. A nomenclatura ‘Monkeypox’ vem da descoberta inicial do vírus em macacos, no ano de 1958. “Apesar de o vírus ter sido isolado primeiramente em macacos, não são eles que o estão transmitindo hoje”, ressalta Lindoso. 

Inclusive, para evitar estigmatizações, preconceitos e até a morte de macacos, a OMS abriu consulta para que se defina um novo nome para a doença, atendendo a um pedido feito inicialmente por um grupo de cientistas, e que ganhou mais adeptos ao longo das últimas semanas. 

Entre humanos, o vírus foi identificado pela primeira vez na década de 1970 na República Democrática do Congo, país africano. Desde então, a doença se tornou endêmica em partes do centro e do oeste da África. 

“Existem dois clados (linhagens) do vírus ‘Monkeypox’ na África. Um gera letalidade maior do que o outro”, destaca Lindoso. 

A linhagem da África Ocidental, que é a que está circulando nos países não endêmicos, parece causar doenças menos graves em comparação com a da Bacia do Congo (África Central). A taxa de mortalidade da primeira é de 1% a 3%, já a outra tem uma taxa de letalidade de até 10%. 

SINTOMAS 

Lindoso explica que a doença se manifesta com diferentes sintomas em cada pessoa, sendo os mais comuns: febre, dor de cabeça, dor muscular e no corpo, fadiga, ínguas (aumento dos gânglios linfáticos) e lesões (bolhas), que surgem na pele e em diferentes partes do corpo, como boca e genitais. 

“As lesões são chamadas de pústulas (bolhas com pus). Elas começam mais na forma com pus e vão evoluindo para uma lesão crostosa (casca)”, explica o infectologista. 

São essas lesões que caracterizam clinicamente um caso como suspeito de ‘Monkeypox’. “Se a pessoa tiver apenas febre, íngua, cefaleia (dor de cabeça) e fraqueza, não podemos considerar um caso suspeito”, detalha. 

Lindoso comenta que, mesmo a febre e a dor no corpo sendo sintomas comuns nos primeiros dias de infecção, nem todos os contaminados os apresentam. “Há quem apresente diretamente as lesões sem ter esse período inicial que chamamos de prodrômico e que pode ser comum em muitas outras doenças, até mesmo na COVID-19.” 

DO QUE DIFERE DA COVID-19? 

O médico frisa também a diferença entre a COVID-19 e a atual varíola: “A COVID-19 é um vírus respiratório, e até agora o que se sabe é que a ‘Monkeypox’ não atinge a parte pulmonar”. 

Outra diferença é que enquanto a COVID-19 pode se desenvolver de uma forma mais grave e gerar problemas neurológicos ou renais, a ‘Monkeypox’ é uma doença autolimitada (tem um percurso específico), com sintomas que duram de duas a quatro semanas. 

COMO SE SABE SE ESTÁ COM A DOENÇA? 

O diagnóstico dessa nova varíola é obtido por meio do exame de PCR, mesma técnica usada para a COVID-19. “É o único exame disponível até o momento. É colhido o material da secreção e se faz a detecção do DNA do vírus nele”, detalha o infectologista. 

O período de incubação do vírus varia de pessoa a pessoa, mas a média tem sido de 10 a 14 dias. 

“Por ser autolimitada, a doença pode ser curada com o tempo e sem tratamento. Mas pode ser grave em alguns indivíduos, como crianças, mulheres grávidas ou pessoas com imunossupressão, devido a outras condições de saúde”, alerta. 

Lindoso acredita que cerca de 95% dos casos podem ser tratados em casa. “Com exceção dos quadros em que houver muitas lesões na pele, o que pode levar a infecções secundárias, assim como lesões de mucosas anais e na uretra.” 

COMO É TRANSMITIDA? 

De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), essa varíola é transmitida principalmente pelo contato direto próximo com alguém que esteja contaminado com o vírus. 

“O contato direto da pele com a pele com lesões durante a atividade sexual pode propagar o vírus. Às vezes, a erupção se manifesta nos órgãos genitais e na boca, o que provavelmente contribui para a transmissão durante o contato sexual”, consta em um informe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) a respeito da transmissão da doença de pessoa para pessoa. 

A erupção cutânea (feridas na pele), o contato com fluídos corporais (tais como pus ou sangue de lesões cutâneas) e as crostas são particularmente infecciosos. Roupas, roupas de cama, toalhas ou objetos como utensílios/pratos contaminados com o vírus por contato com uma pessoa infectada também podem infectar outras pessoas. 

Ainda de acordo com a Fiocruz, as pessoas podem transmitir a doença enquanto apresentam sintomas (normalmente entre duas e quatro semanas). 

Lindoso orienta que, quando um paciente com lesões tem o diagnóstico confirmado, deve manter isolamento em casa e ter suas roupas e utensílios separados: “É o ideal, até porque o contato com o material que fica na roupa do infectado, por exemplo, pode ser um risco.” 

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