Papa ressalta o valor evangelizador da liturgia celebrada com dignidade

Papa ressalta o valor evangelizador da liturgia celebrada com dignidade, Jornal O São Paulo
Vatican Media

Na carta apostólica Desiderio desideravi, publicada em 29 de junho, o Papa Francisco propôs ao povo de Deus uma reflexão sobre o significado profundo da celebração eucarística e a importância de uma adequada formação litúrgica. 

Em seus 65 parágrafos, o texto reafirma a importância da comunhão eclesial em torno do rito resultante da reforma litúrgica promulgada após o Concílio Vaticano II, em continuidade com o que escreveu em julho de 2021, no motu proprio Traditionis custodes. O Pontífice ressalta que não se trata de uma nova instrução ou de um diretório com normas específicas, mas, sim, de uma meditação para compreender a beleza da celebração litúrgica e o seu papel na evangelização. 

DESEJO DO SENHOR 

O Santo Padre inicia o documento a partir das palavras de Jesus na última ceia: “Desejei tanto comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão” (Lc 22,15), sublinhando que o desejo infinito do Senhor de restabelecer a comunhão com a humanidade “não pode ser satisfeito até que todo homem, de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5,9) tenha comido seu Corpo e bebido seu Sangue: por isso, essa mesma Ceia se fará presente, até o seu retorno, na celebração da Eucaristia”. 

“Cada vez que vamos à missa, a primeira razão é porque somos atraídos pelo seu desejo por nós. De nossa parte, a resposta possível, a ascese mais exigente, é, como sempre, entregar-se ao seu amor, querer deixar-se atrair por ele. Certamente, toda nossa comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo foi desejada por ele na Última Ceia”, enfatiza o Bispo de Roma. 

O Papa recorda, ainda, que “o conteúdo do pão partido é a cruz de Jesus, seu sacrifício em amorosa obediência ao Pai”, e reforça: “Se a Ressurreição fosse para nós um conceito, uma ideia, um pensamento; se o Ressuscitado fosse para nós a memória da memória dos outros... seria como declarar esgotada a novidade do Verbo feito carne”. 

CONCÍLIO 

Ao destacar a importância da constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II para a redescoberta da compreensão teológica da liturgia, Francisco manifesta o desejo de que a beleza do celebrar cristão e de suas necessárias consequências na vida da Igreja, “não fosse deturpada por uma superficial e redutiva compreensão de seu valor ou, pior ainda, de sua instrumentalização a serviço de alguma visão ideológica, seja ela qual for”. 

Em seguida, apresenta a redescoberta da beleza da liturgia como “antídoto ao veneno do mundanismo espiritual”. O Papa, contudo, observa que essa redescoberta não é a busca de um “esteticismo ritual” que se compraz apenas no cuidado da formalidade externa de um rito. Por outro lado, não aprova “o comportamento oposto que confunde a simplicidade com desleixada banalidade, a essencialidade com uma ignorante superficialidade, a concretude do agir ritual com um exasperado funcionalismo prático”. 

RITO E MISTÉRIO 

O Pontífice orienta que cada aspecto da celebração deve ser cuidado (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestes, canto, música...) e cada rubrica deve ser observada. “Bastaria essa atenção para evitar privar a assembleia do que lhe é devido, ou seja, o mistério pascal celebrado na modalidade ritual que a Igreja estabelece. Mas mesmo que se garantisse a qualidade e a norma da ação celebrativa, isso não seria suficiente para tornar plena nossa participação”, reitera. 

“Se faltasse o encanto pelo mistério pascal que se faz presente na concretude dos sinais sacramentais, poderíamos realmente arriscar sermos impermeáveis ao oceano de graça que inunda cada celebração”, escreve Francisco, acrescentando que não bastam os louváveis esforços em prol de uma melhor qualidade da celebração, nem mesmo um apelo à interioridade, pois, “mesmo esta corre o risco de ser reduzida a uma subjetividade vazia se não acolher a revelação do mistério cristão”. 

Citando o teólogo Romano Guardini, muito presente nessa carta apostólica, o Santo Padre afirma que, sem formação litúrgica, “as reformas no rito e no texto não ajudam muito” e faz uma distinção entre a formação para a liturgia e a formação na liturgia. 

FORMAÇÃO 

Francisco insiste na importância da formação, especialmente nos seminários: “Uma abordagem litúrgico-sapiencial da formação teológica nos seminários certamente teria efeitos positivos também na ação pastoral. Não há aspecto da vida eclesial que não encontre nela seu ápice e sua fonte. A pastoral de conjunto, orgânica e integrada, mais do que o resultado de programas elaborados, é a consequência de colocar a celebração eucarística dominical, fundamento da comunhão, no centro da vida comunitária”, afirma, completando: “Não é autêntica uma celebração que não evangeliza, assim como não é autêntico um anúncio que não leva ao encontro com o Ressuscitado na celebração: ambos, sem o testemunho da caridade, são como um bronze retumbante ou um címbalo que estrila”. 

O Papa pede a todos os bispos, presbíteros e diáconos, formadores dos seminários, professores de faculdades e escolas teológicas e catequistas que ajudem o povo santo de Deus a “aproveitar o que sempre foi a fonte primária de espiritualidade cristã” e conclui: “Abandonemos as polêmicas para ouvirmos juntos o que o Espírito diz à Igreja, mantenhamos a comunhão, continuemos a nos maravilhar com a beleza da liturgia”. 

Até o momento, o documento ainda não está disponível em português, mas pode ser acessado em outros idiomas em: https://tinyurl.com/23vvs22t

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