‘Que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus’

Exortou o Cardeal Scherer, na 1º sessão da Assembleia Arquidiocesana do Sínodo, realizada no sábado, 4

‘Que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus’
Cardeal Odilo Pedro Scherer preside os trabalhos da 1a sessão da assembleia sinodal arquidiocesana, realizada na Fapcom, no sábado, dia 4
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Ao som do hino do sínodo arquidiocesano, cantado em coro, as bandeiras da Arquidiocese, do sínodo e das regiões episcopais, bem como os cartazes com o decreto e o regulamento do sínodo e os banners com as imagens de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, São José de Anchieta, Santa Paulina, Beato Mariano de la Mata e Beata Assunta Marchetti foram entronizados no auditório da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom), na manhã do sábado, 4, e conduzidos até o palco, onde já estavam a imagem de São Paulo Apóstolo e de Nossa Senhora da Assunção, a vela do sínodo e o crucifixo. 

Assim começou a celebração da 1º sessão da assembleia sinodal arquidiocesana, conduzida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, da qual participaram os sete bispos auxiliares da Arquidiocese, clérigos, consagrados e leigos convocados para a assembleia, que juntos também cantaram o Veni Creator Spiritus (“Vem, Espírito Criador”), antes da proclamação da Palavra de Deus (Ap 2,1-7), recordando a passagem em que o Espírito Santo falou às Igrejas da Ásia Menor, no final do século I, quando estas enfrentavam situações de perseguição, desânimo, heresia, divisão, esfriamento da fé e perda da alegria do Evangelho e do fervor missionário. 

ESCUTA AO ESPÍRITO 

Na homilia, Dom Odilo ressaltou que este mesmo Espírito Santo hoje anima e orienta a Igreja, para que não perca o seu “primeiro amor”. 

“O primeiro amor é Jesus Cristo Ressuscitado, o anúncio do Evangelho e do amor de Deus, portanto, da alegria da fé, da esperança e da caridade. É do primeiro amor que vem a motivação cristã para enfrentar as dificuldades do dia a dia”, ressaltou o Arcebispo Metropolitano, enfatizando ainda que o sínodo arquidiocesano “tenta ser o exercício de escuta atenta e de discernimento da voz do Espírito à nossa Igreja em São Paulo”. 

“Nosso sínodo, a partir de tudo que vimos e ouvimos, chama-nos agora a fazer esta assembleia como um intenso caminho de comunhão, conversão e renovação missionária – comunhão, não dispersão; conversão, segundo o chama- do do Espírito Santo; e renovação, fervor missionário, Igreja ‘em saída’ – para sermos mais e melhor testemunhas de Deus, de Cristo, do Evangelho do Reino nesta cidade”, prosseguiu. 

‘O QUE DEVEMOS FAZER?’ 

Dom Odilo exortou que os participantes da assembleia tenham sempre essa pergunta em mente, a fim de se chegar a diretrizes e orientações para a vida pastoral e evangelizadora da Igreja em São Paulo diante de desafios como o de ir ao encontro dos católicos distantes; a evangelização das crianças, adolescentes e jovens; tornar as comunidades e instituições católicas efetivamente missionárias; agir para a transmissão da fé em família; vencer a apatia e o desânimo pela fé; superar o clericalismo; e adequar as organizações e estruturas pastorais às necessidades e desafios da missão atual. 

“Que o Espírito Santo nos guie e seja o protagonista da nossa assembleia sinodal. Saibamos ouvir e saibamos falar com discernimento. Saibamos ter em conta o grande bem da Igreja, não meu bem particular, o bem do meu grupo. Aqui não importa tanto que cada um faça valer a sua ideia, mas que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus que vêm de tantas maneiras até nós”, sublinhou o Arcebispo. “É para a glória de Deus, para o bem da Igreja e sua missão, e para as próximas gerações que estamos aqui”, ressaltou. 

DINÂMICA DOS TRABALHOS 

Os trabalhos da sessão foram iniciados com a leitura completa do Regulamento da assembleia sinodal arquidiocesana, no qual se detalha como devem ser realizadas as sete sessões, uma a cada mês, até dezembro; a composição da presidência e dos serviços de coordenação; quais são os membros da assembleia; como se darão as votações, as quais “não têm a finalidade de alcançar um acordo majoritário vinculante, mas de verificar o consenso dos membros sinodais sobre as propostas formuladas”. 

Outro ponto especificado no regulamento é de que, diante da natureza consultiva do sínodo arquidiocesano, “cabe ao Arcebispo de São Paulo acolher, com liberdade, ‘coram Deo’ (em consciência diante de Deus), as indicações sinodais formuladas pelos membros da assembleia e emanar as declarações e decretos sinodais”. 

INDICATIVOS DO 1º RELATÓRIO GERAL 

Na sequência, houve a leitura pormenorizada do 1° Relatório geral para a assembleia sinodal arquidiocesana, feita pelos relatores, o Cônego José Arnaldo Juliano e a Irmã Helena Corazza, FSP. 

‘Que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus’
Cônego José Arnaldo Juliano dos Santos e Irmã Helena Corazza apresentam 1º Relatório geral

O livreto com o texto do Relatório, contendo 49 páginas, foi distribuído aos participantes da assembleia. Nele se apresenta o histórico do caminho percorrido e detalhes do que foi visto e ouvido durante a pesquisa sobre a realidade religiosa e pastoral da Arquidiocese, feita em 2018; do levantamento paroquial realizado pelos padres nas paróquias no mesmo ano; da etapa do sínodo nas regiões episcopais e vicariatos ambientais (do Povo da Rua; da Educação e Universidade; e da Comunicação), em 2019; das reflexões do Clero no Curso Anual em 2019; e das conclusões da Assembleia pré-sinodal ocorrida nas paróquias este ano. 

Na pesquisa sobre a realidade religiosa e pastoral feita nas 295 paróquias territoriais em 2018 foram respondidos 21 mil questionários por pessoas católicas e não católicas, e as respostas dadas por 14.709 católicos foram compiladas, abordando aspectos como a relação deles com a Igreja, a participação nas iniciativas pastorais e caritativas, o acesso aos sacramentos e o modo como se informam sobre a Igreja. 

Já o levantamento paroquial mapeou, por exemplo, que nos últimos dez anos foram construídas 88 igrejas na Arquidiocese, 214 passaram por alguma reforma predial e que aproximadamente 255 mil pessoas participam das missas aos fins de semana. 

Nos relatórios no âmbito das regiões episcopais, alguns dos aspectos que chamam a atenção são o pedido por cursos e momentos formativos para as lideranças e agentes de pastoral; melhor preparação dos ministros ordenados e leigos para ocupar os serviços essenciais na Igreja; e a necessidade de melhorias nos processos de acolhida. 

Também são elencadas preocupações quanto à evangelização da juventude no contexto urbano; a necessidade de adaptação e flexibilidade pastoral; de maior incidência das ações das pastorais sociais; de investimentos em comunicação; de formação permanente e organização das iniciativas da Pastoral Familiar; foco na iniciação à vida cristã infantil, juvenil e adulta; maior integração pastoral; revisão do Diretório dos Sacramentos; urgência em formar novas lideranças; atenção à Pastoral Presbiteral; necessidade de maior presença da Igreja nas escolas e no universo da saúde; entre outras. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, os relatores do sínodo arquidiocesano opinaram que muito avançou na Igreja em São Paulo nestes cinco anos de caminhada sinodal, especialmente diante da pandemia de COVID-19. 

“A Igreja em São Paulo aprendeu que deve se organizar na questão da ação da caridade, inclusive uma das propostas feitas na fase de pré-assembleia, neste ano, é o de se criar um comitê de crise, para que estejamos preparados para momentos como este vivido na pandemia ou diante de catástrofes naturais”, disse o Cônego José Arnaldo. 

“Percebemos uma grande sensibilidade para a humanização, com maior cuidado às pessoas, atenção a seus sofrimentos, suas perdas. Também a dimensão missionária veio muito mais forte nos relatórios da pré-assembleia do que nos de antes, no sentido de ir ao encontro das pessoas em todas as situações, além da dimensão do acolhimento”, destacou a Irmã Helena Corazza. 

PONTOS DE ATENÇÃO 

A partir do que foi apresentado no Relatório, o Padre Boris Agustín Nef Ulloa, um dos peritos do sínodo, comentou alguns dos aspectos mais ressaltados e outros não mencionados, mas que podem ser discutidos na assembleia sinodal. 

‘Que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus’
Padre Boris Agustín, um dos peritos do sínodo, analisa apontamentos do 1º Relatório geral

De acordo com o Sacerdote, uma das evidências é que “as respostas da fase de pré-assembleia apontam para um crescimento sobre a sensibilidade humana se comparado aos primeiros relatórios. Foram enxergadas em maior grau as dores, as fragilidades, as feridas e os dramas humanos”. 

Do Relatório emergem três convicções: a missão da Igreja é evangelizar; sua centralidade está em Jesus Cristo, na Eucaristia e na sua Palavra; e que a Arquidiocese precisa de renovação em todos os campos. 

A partir dessas três convicções, prosseguiu Padre Boris, despontam alguns cenários pastorais desafiadores, como: a vivência litúrgica e sacramental adequada; a maior participação da juventude; os processos de escuta e acolhida; o lugar que as pastorais sociais ocupam na evangelização, diante dos desafios sociais da cidade; a presença da Igreja nas comunicações sociais; a presença na área da Saúde e na dimensão hospitalar; a atuação da Igreja em relação à família; o aperfeiçoamento da transparência das questões econômicas e administrativas em âmbito paroquial, regional e arquidiocesano; a formação dos futuros presbíteros; e a dimensão missionária da Igreja. 

Entretanto, segundo ele, alguns aspectos praticamente não são mencionados no Relatório, como a religiosidade popular, a participação das mulheres na Arquidiocese, a ecologia integral e a crescente violência em São Paulo, seja no âmbito social mais amplo, seja no intrafamiliar. 

Diante de tais desafios, alguns caminhos a serem refletidos se referem à formação permanente do laicato; o fortalecimento do processo de iniciação cristã; que a Igreja não tenha uma estrutura engessada de funcionamento; a formação das novas gerações para a missionariedade; o fomento à consciência sobre a dimensão social da evangelização; e o aprofundamento da interculturalidade da Igreja com a sociedade. 

Aos participantes da assembleia, Dom Odilo ponderou que o 1º Relatório geral apresenta as questões manifestadas nestes cinco anos de sínodo arquidiocesano. “Diante disso, o que devemos fazer? Esta é a pergunta que agora vai nos acompanhar daqui até a elaboração das propostas”, ressaltou, pedindo que os participantes olhem não apenas para o interno da Igreja, mas para sua relação com a cidade: “Não somos uma Igreja no vazio, estamos aqui em São Paulo, na complexidade da cidade. Devemos florescer e frutificar onde Deus nos plantou, essa é a missão que nos é dada”. 

A próxima sessão da assembleia arquidiocesana do sínodo será em 2 de julho, na Fapcom. 

EXPECTATIVAS E PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Antes do encerramento da primeira sessão da assembleia sinodal arquidiocesana, houve espaço para falas dos demais participantes. 

‘Que façamos um discernimento comunitário, sinodal, ouvindo os apelos de Deus’

Foram externados alguns pontos a serem debatidos ao longo da assembleia, como a acolhida às novas lideranças na Igreja; a dimensão da vida comunitária; a situação dos trabalhadores na cidade; mecanismos para um acompanhamento da aplicação do que constar no relatório final do 1° sínodo arquidiocesano; a participação político-partidária do laicato; instrumentais para avaliar as conquistas da ciência e da tecnologia à luz da 

Doutrina Social da Igreja; formas de subsidiar financeiramente a formação permanente dos leigos; o diálogo da Igreja com o poder público para melhor atendimento aos mais excluídos; e como aprimorar os canais pelos quais as pessoas possam ter acesso a conteúdos credíveis sobre a Igreja. 

“A palavra sínodo, de origem grega, pode ser traduzida como ‘caminhar juntamente’. Eis uma tarefa grande para a Igreja Católica, uma instituição que tem muitos trabalhos a realizar. Para caminharmos bem, sempre temos que falar sobre como agir como Igreja nesta sociedade.” 
Matthias Grenzer 
professor de Teologia na PUC-SP 

“O sínodo é um momento em que podemos colocar muito daquilo que a nossa geração mais jovem traz consigo: os anseios, os desafios nas realidades pastorais e aquilo que esperamos que a Arquidiocese e o povo de Deus consigam apresentar como proposta de evangelização.” 
Alisson Antunes Carvalho 
seminarista 

“O que eu espero é que, a partir desta assembleia do sínodo, a Igreja em São Paulo caminhe unida, que uma paróquia se preocupe com a outra, para superarem juntas as dificuldades e os desafios.” 
Denise de Oliveira 
leiga consagrada 

“Minha expectativa é que possamos, a partir desta 1° sessão do sínodo, ouvir aquilo que as paróquias, as comissões, as pastorais apresentam como pontos positivos, pontos a serem melhorados e as propostas que temos para a ação evangelizadora.” 
Irmã Ivonete Kurten, FSP 

(Colaborou: Cleide Barbosa/rádio 9 de Julho) 

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