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‘Que o futuro prefeito exerça o cargo em favor do bem comum, com especial atenção aos pobres’

O Cardeal Odilo Pedro Scherer compartilhou, em entrevista ao O SÃO PAULO, os desafios de quem assumir a Prefeitura de São Paulo e os cargos de vereadores nos próximos quatro anos

‘Que o futuro prefeito exerça o cargo em favor do bem comum, com especial atenção aos pobres’
Luciney Martins/O SÃO PAULO – set.2016

À frente da Igreja na maior cidade do Brasil, o Cardeal Odilo Pedro Scherer compartilhou, em entrevista ao O SÃO PAULO, suas percepções sobre a realidade da capital paulista e os desafios de quem assumir a Prefeitura nos próximos quatro anos, assim como aqueles que ocuparão os cargos de vereadores.

De igual modo, o Arcebispo de São Paulo ressaltou o papel de todos os cristãos no campo da política em vista do bem comum e afirmou que, em suas campanhas, os candidatos deveriam dar mais atenção às propostas e programas de governo do que aos ataques pessoais contra os adversários políticos.

O SÃO PAULO – Como o Arcebispo de São Paulo vê hoje a cidade de São Paulo? Existem questões que o preocupam? Quais urgências gostaria que o próximo prefeito assumisse em um plano de governo?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – São Paulo é uma cidade complexa, onde nem tudo cabe em um único olhar. Isso vale para a minha resposta, que não pretende ser abrangente e, imagino, vale também para as atenções do prefeito à cidade: elas precisam ser amplas e voltadas às diversas realidades. São Paulo é a cidade mais rica do Brasil, pelo volume de riqueza produzida e circulante; mas talvez também seja a mais pobre, se considerarmos o número de pessoas que vivem ainda em situação de pobreza. Essa grande diferença precisa receber as devidas atenções para que os benefícios da administração pública cheguem também aos mais vulneráveis e carentes da cidade. O futuro prefeito deveria investir pesado nas áreas mais pobres das periferias e áreas decadentes do Centro. O combate à violência e ao crime organizado também merece atenção especial.

A Arquidiocese de São Paulo é uma das instituições com maior capilaridade no município e especial incidência de atuação local. Tem havido canais de diálogo com a Prefeitura e os vereadores em relação aos problemas dos bairros que, de alguma forma, atingem a vida das comunidades?

Quero lembrar que no município de São Paulo há três dioceses inteiras (São Paulo, Santo Amaro e São Miguel Paulista) e outras duas, parcialmente (Campo Limpo e Osasco). Com essas cinco dioceses e suas organizações, a Igreja Católica, de fato, está capilarmente presente na cidade. Há, sim, diálogo com as autoridades municipais, embora isso possa crescer em benefício da população. A Igreja Católica vem prestando inúmeros serviços à população de São Paulo.

A atual pandemia evidenciou as desigualdades sociais, algo especialmente mensurado pelo aumento da fome entre os mais pobres e da maior quantidade de pessoas em situação de rua. Qual a postura que o senhor espera do próximo prefeito em relação a esses aspectos?

De fato, a pandemia deixou mais clara a desigualdade social, a penúria e precariedade em que vivem muitos habitantes de São Paulo. Essas carências aumentaram durante a pandemia e as muitas manifestações de solidariedade da população, de organizações da sociedade civil e também das Igrejas ajudaram a aliviar a situação de necessidade. Não sei se, de fato, dá para afirmar que houve pessoas que passaram fome em São Paulo durante esse tempo de pandemia. A situação da população em situação de rua é dolorosa e não é de fácil solução. Penso, porém, que a cidade bem teria condições de solucionar essa situação, com vontade e entendimento político. É fundamental dar oportunidades de trabalho e geração de renda a essa população e assistência social sistemática àqueles que não estão em condições de prover o necessário por si mesmos. É um desafio a enfrentar pela cidade inteira.

Como os católicos devem se engajar na política e viver as eleições, para que sejam uma oportunidade de testemunho de fé e colaboração para o bem comum?

Antes de tudo, é importante que os católicos se interessem pela vida política, que diz respeito a todos. Devem ocupar o seu espaço e dar sua contribuição para o bem comum, com suas ideias e iniciativas, com o exercício de uma cidadania responsável e solidária. Se a Igreja Católica recomenda que os clérigos não se filiem a partidos, nem militem neles para disputar cargos políticos, ela também recomenda que os cristãos leigos entrem com coragem na vida política e participem eficazmente nas suas diversas instâncias.

Pelo que o senhor tem acompanhado das discussões nestas eleições, mais se tem apresentado meras promessas ou há, de fato, programas consistentes que possam ajudar na solução dos problemas da cidade?

Infelizmente, esse é o modo tradicional de se fazer a campanha eleitoral e não é apenas no Brasil. Seria necessário que os candidatos dessem maior atenção às propostas e programas de governo, do que aos ataques pessoais contra outros candidatos. É necessário que apareçam as grandes questões, que devem merecer a atenção dos candidatos e partidos.

O número 276 da encíclica Fratelli tutti fala do respeito da Igreja à autonomia da política e afirma que, embora os ministros não devam fazer política partidária, “não podem renunciar à dimensão política da existência”. O senhor pode explicar isso?

O filósofo grego Aristóteles já disse que o homem é “um animal político”. Onde há convivência, é preciso organizar a convivência, harmonizar as diversas correntes de pensamento e buscar juntos o melhor para a vida comum. Isso faz parte da dimensão política de cada pessoa que vive em sociedade. Também os clérigos devem fazer isso a seu modo, ajudando as comunidades da Igreja a se empenhar na busca do bem comum. Eles não o farão mediante a luta partidária e a busca do poder, mas, sobretudo, ajudando a preparar o povo para a vida política e a formar bons líderes que possam assumir cargos políticos com competência e honestidade.

O que o senhor e a Igreja esperam de um candidato a prefeito ou vereador que se declara católico?

Espero que ele tenha postura coerente com o Evangelho, com a fé e a moral católicas e que exerça o seu cargo com competência e honestidade. Que esteja sempre do lado da justiça e do direito e exerça o seu cargo em favor do bem comum, com especial atenção aos pobres.

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