Santos sacerdotes: exemplos de vida aos presbíteros do tempo presente

Na abertura do mês vocacional, O SÃO PAULO destaca a vocação sacerdotal e mostra a trajetória de alguns padres que se tornaram santos e cujo legado é inspirador à atuação ministerial de presbíteros do mundo inteiro

A Igreja dedica o mês de agosto às vocações e, entre tantas possibilidades de concretizá-las segundo o desejo de Deus para cada pessoa, O SÃO PAULO, nesta edição, volta a sua atenção para a grandeza da vocação sacerdotal, uma vez que o Dia do Padre é celebrado na quinta-feira, 4. 

A data é comemorada desde 1929, na memória litúrgica de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, ocasião em que o Papa Pio XI o proclamou patrono dos sacerdotes em virtude de sua humildade, simplicidade e caridade exercidas no cotidiano ordinário de seu ministério. 

Assim como ele, muitos são os sacerdotes que, dados seu exemplo e caminhada de fé, foram elevados à honra dos altares e, até hoje, suas vidas servem de testemunho e estímulo não somente aos fiéis como, sobretudo, aos padres de todo o mundo. 

Leia a seguir a biografia de alguns deles, cuja atuação ministerial e confiança em Deus são modelo e inspiração a todos os presbíteros do tempo presente, que se baseiam em suas trajetórias e ensinamentos a fim de tornar o próprio ministério mais fiel, alegre e fecundo. 

SÃO JOÃO MARIA VIANNEY (CURA D’ARS) 

De origem simples e humilde, João Maria Vianney nasceu no seio de uma família camponesa muito religiosa, em 1786, na cidade de Dardily, na França. Relatos dizem que sua primeira comunhão foi feita dentro de um celeiro. 

Seu trabalho no campo começou ainda na infância e se estendeu por boa parte de sua juventude e, por isso, somente foi à escola quando abriram uma em sua aldeia. Vianney já tinha 17 anos e só então foi alfabetizado e aprendeu a ler e falar francês. Pouco depois, chegou a ser convocado para as tropas de Napoleão, contudo desertou do exército por não se “encaixar” naquela realidade. 

Desde pequeno, Vianney já sabia que queria seguir o sacerdócio. Entrou no Seminário Maior de Lyon, porém, por sua formação escolar tardia, não tinha conhecimento suficiente de latim e enfrentou muitas dificuldades para entender os estudos filosóficos e teológicos. Seguiu, então, para um seminário privado, em Ecculy, e ali conseguiu concluir os estudos. Embora tenha recebido a ordenação sacerdotal em 13 de agosto de 1815, não lhe foi dada a autorização para atender Confissões, pois o julgavam incapaz de guiar as consciências. 

Com a ajuda do Abade Balley, a quem se atribui o mérito de haver percebido naquele incapaz “ilumina- do” os ocultos carismas da santidade, Vianney permaneceu um ano em Ecculy, antes de ser designado como vigário-capelão em Ars, uma aldeia “pagã” com 230 habitantes, conhecida pela fama de seus cidadãos, frequentadores de cabarés, cheios de vícios e bebedeiras. 

Ali, Vianney iniciou uma jornada árdua de oração, catequese e Confissões não só para o povo de Ars, como também dos arredores. Alguns relatos contam que o Padre chegava a ficar 16 horas dentro do confessionário e passava longos dias se alimentando apenas de batatas e ovos cozidos. Essa era mesmo a sua grande missão: levar o perdão e a misericórdia divina para os fiéis. 

Dez anos depois, Ars estava completamente transformada: tavernas desertas e a igreja povoada. A severidade do Vigário local jamais estava separada de incomensurável bondade e generosidade. Possuía somente a desbotada batina que trazia no corpo, porém era capaz de se privar de sapatos e meias na estrada se encontrasse um pobre infeliz, com quem trocava até as calças se as do mendigo estivessem piores que as suas.

Não demorou muito para que a pequena Ars ficasse conhecida como “o grande hospital de almas”. Um fato curioso é que o próprio João Maria Vianney vigiava e jejuava para ajudar os fiéis a alcançarem a redenção dos pecados. “Vou dizer-lhe qual é a minha receita: dou aos pecadores uma pequena penitência e o resto faço eu no lugar deles”, dizia. 

Morreu aos 73 anos, em 4 de agosto de 1859, e até hoje é exemplo de santidade e dedicação para o povo e, especialmente, para os sacerdotes. 

SÃO CHARLES DE FOUCAULD 

Antes de enveredar pelo caminho vocacional, o jovem Charles, nascido em Estrasburgo, na França, em 1858, iniciou uma carreira militar, seguindo os passos de seu avô, que o criou desde que ficou órfão de seus pais aos 6 anos. 

Durante a adolescência, sua fé havia sido deixada de lado, porém, durante uma perigosa exploração em Marrocos, entre 1883 e 1884, quando tinha em torno de 25 anos, viu-se diante de uma pergunta: “Deus existe?”. O questionamento que habitava seu coração se transformou em um pedido: “Meu Deus, se você existe, deixe-me conhecê-lo!”, caracterizando a oração incessante que marcaria toda a sua vida. 

De volta à França, Foucauld partiu em busca de respostas para o seu anseio interior e pediu a um sacerdote que o acompanhasse e instruísse. 

Embora demorasse muito para descobrir o que Deus esperava dele, tempos depois, em uma peregrinação à Terra Santa, ao visitar os lugares relacionados à vida de Cristo, encontrou sua vocação: consagrar-se inteiramente a Deus, imitando Jesus numa vida escondida e silenciosa. 

Ordenado sacerdote em 1901, aos 43 anos de idade, Charles de Foucauld foi para o deserto do Saara, na Argélia, primeiro para Beni Abbès, a fim de ser pobre entre os mais pobres; depois, dirigiu-se mais ao sul, para Tamanrasset, com os tuaregues do Hoggar. 

Como sacerdote, viveu uma vida de oração, meditando continuamente as Sagradas Escrituras, no desejo incessante de ser para cada pessoa “o irmão universal”. Considerado testemunha da fraternidade e exemplo de missionariedade, morreu na noite de 1º de dezembro de 1916, aos 58 anos, assassinado por um bando de saqueadores que estavam de passagem. Foi beatificado pelo Papa Emérito Bento XVI, em 2005, e canonizado pelo Papa Francisco no dia 15 de maio passado. Sua memória é celebrada em 1º de dezembro. 

SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE 

Para a Igreja Católica, ele é um mártir da fé, tanto que São João Paulo II se referia a ele como “santo do nosso século difícil”. Para os judeus, um herói da 2º Guerra, reconhecido pelo Estado de Israel como “justo entre as nações”. 

Nascido na Polônia no fim do século XIX, ingressou na vida religiosa com apenas 13 anos, em 1907. Cinco anos depois, mudou-se para Roma e, em 1914, assumiu o nome religioso de Maximiliano Maria Kolbe, sendo ordenado padre em 1918. Durante seu período na Itália, fundou o movimento Milícia da Imaculada. 

Já nessa época, embora jovem, sua saúde dava sinais de fragilidade: além de ter sido diagnosticado com tuberculose, era comum sofrer com as frequentes pneumonias. 

Regressou a seu país natal em 1919 e se fixou em Cracóvia, como professor num seminário franciscano. Além de uma comunidade religiosa e de um convento, fundou uma revista e uma estação de rádio e, quando da ocupação nazista em seu país, em 1939, já era tido como um importante formador de opinião, o que chamou a atenção dos alemães, sobretudo pelas críticas que fazia aos invasores em suas publicações. 

Depois de muitos interrogatórios, Kolbe acabou preso pela Gestapo — a polícia secreta dos nazistas — em fevereiro de 1941 e, em maio, foi levado até o campo de concentração de Auschwitz. Todas essas circunstâncias eram encaradas por ele como uma missão de fé e ele dizia que era preciso ter compaixão e rezar pelos nazistas. 

Seus quadros de pneumonia se agravavam devido aos banhos frios e à pouca disponibilidade de vestes para se aquecer, além da mísera oferta de comida. O Sacerdote cantava, rezava e nunca deixava de atender, mesmo sob as piores condições, a quem o procurava para uma confissão ou aconselhamento. 

Em julho daquele ano de 1941, houve uma fuga e três prisioneiros conseguiram escapar. O oficial nazista responsável pelo campo determinou que, como represália, dez pessoas escolhidas aleatoriamente entre os encarcerados fossem condenadas à morte. Estas seriam levadas a uma cela subterrânea, onde ficariam sem luz, sem água e sem comida até morrer. Durante aquele dia, os nazistas obrigaram que todos os prisioneiros ficassem em pé, em fila, sob o sol, até que as vítimas fossem selecionadas. 

Então começaram a separar os que iriam para a morte. Um dos selecionados, o judeu Franciszcek Gajowniczek, começou a gritar, aos prantos: “Minha pobre mulher! Meus filhos! Jamais tornarei a vê-los!”. Foi quando Kolbe se ofereceu para morrer no lugar do homem. 

Na derradeira prisão, Padre Kolbe e os outros dez prisioneiros ficariam até a morte. O religioso era visto cantando e buscando confortar os demais até o último minuto. Rezava e celebrava missas. Havia a expectativa de que ele não sobrevivesse por muito tempo, já que tinha a saúde frágil, certa idade e já estava havia dois meses enfrentando a precariedade do campo de concentração. 

Foram duas semanas de desidratação e fome. Restaram vivos apenas Kolbe e outros três companheiros. Então, em 14 de agosto de 1941, quando tinha 47 anos de idade, os nazistas deram a ele [e aos demais] uma injeção letal. Em seguida, incineraram o seu corpo. 

Com o passar do tempo, a importância de Kolbe acabou sendo reconhecida por judeus e católicos. Em 1971, São Paulo VI o beatificou, e São João Paulo II o canonizou, em 1982, inserindo-o no rol dos santos da Igreja Católica. 

SÃO JOÃO BOSCO (DOM BOSCO) 

A cidade italiana de Turim foi o berço de João Bosco, que ali nasceu em agosto de 1815. Tornou-se órfão de pai com menos de 2 anos de idade e sua mãe, Margarida, o criou sozinha, juntamente com seus dois irmãos, Antônio e José. 

João sentia, desde a infância, o desejo de se tornar sacerdote. Aos 9 anos, teve um sonho que lhe ficaria gravado na mente por toda a vida, e lhe revelaria a sua missão: “Torna-te humilde, forte e robusto”, disse-lhe uma senhora tão brilhante como o sol, “aquilo que vês acontecer a estes lobos que se transformam em cordeiros, tu o farás aos meus filhos. Serei a tua mestra. A seu tempo, tudo compreenderás”. Esta era a antecipação de uma extraordinária vocação educativa e pastoral. 

Em 1835, João Bosco entrou para o seminário e, em junho de 1841, aos 26 anos de idade, foi ordenado sacerdote, escolhendo como programa de vida “Dai-me almas e levai o resto”. 

Dom Bosco foi ao encontro da realidade daqueles jovens que não tinham onde viver e necessitavam tanto de acolhimento quanto de uma nova evangelização. Criou os oratórios e, por meio deles, as catequeses e orientações profissionais que seriam a grande alavanca para resgatar a dignidade da juventude abandonada. 

Em 1859, tendo o auxílio do Papa Pio IX, fundou a Congregação dos Salesianos, sob a proteção de São Francisco de Sales, que foi o Santo da mansidão. 

Em 31 de janeiro de 1888, depois de uma vida dedicada a Deus e à salvação das almas, partiu, aos 72 anos e, por isso, esse dia ficou dedicado à sua memória litúrgica. Foi beatificado e canonizado por Pio XI em 2 de junho de 1929 e em 1º de abril de 1934, respectivamente. Por ocasião do centenário de sua morte, São João Paulo II o declarou “pai e mestre da juventude”. 

Padre Pio de Pietrelcina tinha como nome de batismo Francesco Forgione. Nasceu na Itália, em 25 de maio de 1887.


Aos 15 anos, em 1902, entrou no noviciado da Ordem dos Capuchinhos e adotou o nome de “Frei Pio”. Foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910. 

Tinha grande compaixão pelo sofrimento das pessoas e, por isso, logo percebeu que sua missão sacerdotal era a de acolher em si o sofrimento do povo, como uma espécie de “catalizador”. A confirmação disso foram os estigmas de Cristo que Padre Pio recebeu em seu próprio corpo e que duraram mais de 50 anos. 

Entregou-se inteiramente ao ministério de confessor e passava até 14 horas por dia no confessionário. Em muitos casos, quando o fiel não tinha coragem de confessar um pecado grave, Padre Pio o revelava por inspiração divina. Isso ajudava muito os fiéis a se libertarem de seus males. 

Faleceu em 23 de setembro de 1968, aos 81 anos, com fama de santidade. Foi beatificado e canonizado por São João Paulo II e aquela data passou a ser a sua memória litúrgica. 

Padre Tiago Alberione, fundador da Família Paulina, nasceu na Itália, em 1884. Com 16 anos, Tiago ingressa no seminário, e no dia 29 de junho de 1907 foi ordenado sacerdote. 

No seminário, desempenha o papel de diretor espiritual e de professor de diversas disciplinas. Conclui que o Senhor o convoca para uma nova missão: pregar o Evangelho a todos os povos, usando os modernos meios de comunicação. Percebendo a importância das mídias na missão evangélica, publicou em 1912 a revista “Vida Pastoral”, destinada aos sacerdotes. Depois lançou, em 1921, o jornal “O Domingo”, um periódico para uso das paróquias. Em 1931 nasceu a revista semanal “Família Cristã” e, ao longo dos anos, várias outras publicações seriam criadas. 

Entre 1962 e 1965, Tiago Alberione acompanhou os trabalhos e participou do Concílio Vaticano II. Em 28 de junho de 1969, o Padre Alberione foi recebido por São Paulo VI, que lhe manifestou uma grande admiração.

Padre Tiago Alberione faleceu aos 87 anos, no dia 26 de novembro de 1971, em Roma. 

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