
Durante a COP30, em novembro de 2025, em Belém (PA), os representantes do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (Fabc) e do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Secam) lançaram o documento “Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções”, que antes foi apresentado ao Papa Leão XIV, em julho do ano passado.
O texto exorta os líderes governamentais a trabalharem pela efetiva implantação do Acordo de Paris e faz um chamado à Igreja e a todas as pessoas para que “vivam a ‘conversão ecológica’ (Papa Francisco) e enfrentem ‘as feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo da diferença e por um paradigma econômico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres’ (Papa Leão XIV)”.
EQUIDADE, JUSTIÇA E PROTEÇÃO
Os signatários enfatizam que limitar o aquecimento global a 1,5°C aos níveis da era pré-industrial é urgente para evitar efeitos catastróficos, e indicam três caminhos indispensáveis para tal:
Equidade: “As nações ricas devem pagar sua dívida ecológica com um financiamento climático justo, sem endividar ainda mais o Sul, para reparar perdas e danos e promover resiliência na África, América Latina e Caribe, Ásia e Oceania”
Justiça: “Promover o decrescimento econômico e acabar com os combustíveis fósseis, interrompendo todas as novas infraestruturas e taxando adequadamente aqueles que se beneficiaram deles, inaugurando uma nova era de governança que inclua e priorize as comunidades mais afetadas pelas crises do clima e da natureza”.
Proteção: “Defender os povos indígenas e tradicionais, os ecossistemas e as comunidades empobrecidas; reconhecendo a maior vulnerabilidade de mulheres, meninas e novas gerações; e a migração climática como um desafio de justiça e direitos humanos”.
AÇÕES CONCRETAS
No documento, também se aponta que as soluções a serem pensadas “devem unir justiça, ecologia, direitos da natureza e dignidade humana”, bem como levar em conta a ecologia integral, a qual “propõe uma mudança estrutural nas economias e nos modelos de desenvolvimento, superando paradigmas tecnocráticos e extrativistas que perpetuam a exploração dos povos e a degradação ambiental”.
- Os signatários instam os tomadores de decisão a algumas ações concretas, entre as quais:
- O cumprimento do Acordo de Paris e a implementação das NDCs – compromissos assumidos por cada país para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e de adaptação às mudanças do clima – à altura da urgência da crise climática;
- Transformação do sistema econômico em um modelo restaurador que priorize o bem-estar das pessoas e garanta condições para a vida sustentável no planeta;
- Promoção de políticas climáticas e de natureza ancoradas nos direitos humanos;
- Compartilhamento e implementação de soluções tecnológicas éticas, descentralizadas e apropriadas;
- Alcance do desmatamento zero até 2030 e restauração dos ecossistemas vitais;
- Que os países ricos (Norte Global) reconheçam e assumam sua dívida social e ecológica e se comprometam com um financiamento climático justo, acessível e eficaz, que não gere mais dívidas aos países mais pobres ou em desenvolvimento (Sul Global);
- Que os Estados implementem mecanismos de governança climática com participação ativa e vinculante das comunidades, da sociedade civil e das organizações baseadas na fé;
- Adoção de políticas que transformem os ciclos produtivos e a cultura de consumo, tornando-os mais justos e sustentáveis;
- Seguimento de políticas alinhadas com os limites planetários: redução da demanda e do consumo, metas de decrescimento e transição para modelos econômicos mais circulares, solidários e restauradores.
ADVERTÊNCIAS URGENTES
O documento base é composto por oito capítulos. No primeiro, são apresentados dados sobre o aquecimento global e seus impactos ao redor do mundo: “Estimou-se recentemente que cerca de 500 milhões de pessoas viviam em áreas que sofreram desertificação recente, ou seja, entre os anos 1980 e 2000. As secas e a desertificação ameaçam diretamente as colheitas, os recursos hídricos, a segurança alimentar e estão relacionadas à pobreza, ao deterioramento da saúde e ao deslocamento. Segundo o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], as mudanças climáticas já contribuem para os deslocamentos e crises humanitárias, afetando desproporcionalmente regiões como África, América Latina e Ásia”.
SOLUÇÕES INEFICIENTES E O NEGACIONISMO

O segundo capítulo aponta que o aporte financeiro de 300 bilhões de dólares anuais, acordado entre as nações na COP29, “continua insuficiente frente às necessidades reais de adaptação, mitigação e perdas e danos: por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima, de forma conservadora, que são necessários cerca de 500 bilhões de dólares ao ano apenas para medidas de adaptação às mudanças climáticas.
Após apontarem que há uma dívida climática do Norte Global com o Sul Global, os signatários indicam que “para saldar essa dívida climática, o Norte Global deve tomar medidas decisivas: deter o dano ambiental, investir em iniciativas para mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas e compensar os danos que não podem ser revertidos […] Não se trata apenas de fundos, mas de um roteiro claro que assegure sua chegada às comunidades mais vulneráveis”.
O texto recorda ainda, em seu capítulo terceiro, que esses efeitos são intensificados pelo negacionismo acerca do problema, já que isso influencia a postura de “governos de países indispensáveis para um acordo global para enfrentar as causas do aquecimento global”.
CAMINHOS PARA A CONVERSÃO ECOLÓGICA E SOBRIEDADE FELIZ
Após assegurarem, no capítulo 4, que a Igreja na África, Ásia e América Latina e Caribe eleva sua “voz profética que clama por paz a partir de uma conversão ecológica que transforme o modelo de desenvolvimento atual, baseado no extrativismo, na tecnocracia e na mercantilização da natureza”, os signatários listam caminhos para tal conversão ecológica – um dos conceitos centrais tratados pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si’ (LS) – a qual convida “a um novo estilo de vida marcado pela sobriedade feliz. Essa mudança implica uma transformação pessoal, comunitária, cultural e de valores que atravessa as estruturas políticas e econômicas”.
Entre os caminhos apontados no documento estão:
- Reduzir o consumo supérfluo e garantir o necessário para uma vida digna para todos, com limites à acumulação de riquezas, a uma economia financeirizada e a investimentos militares;
- Aumentar as iniciativas pastorais e educativas sobre o cuidado da casa comum, a ecologia integral, os direitos humanos, a sustentabilidade ambiental e a economia popular e solidária;
- Suscitar experiências espirituais de contemplação e amor a toda a criação, favorecendo relações de fraternidade universal com todas as criaturas, com ênfase na formação das novas gerações;
- Garantir o acesso das comunidades à terra e a seus planos de vida nos territórios;
- Incentivar projetos de soberania alimentar, energética e cultural;
- Manter diálogo permanente com a comunidade científica para que as ações climáticas, baseadas nas melhores evidências, respondam às necessidades locais, regionais e globais;
AS FALSAS SOLUÇÕES
No capítulo 6 do documento, os signatários lembram que é urgente erradicar as concepções que vinculam a ideia de “progresso” e “desenvolvimento” ao uso intensivo de combustíveis fósseis. Nesse sentido, ressaltam: “É gravemente contraditório utilizar os lucros da extração de petróleo para financiar o que se apresenta como uma transição energética, sem que exista um compromisso efetivo com sua superação”.
Também fazem veementes críticas ao conceito de “economia verde”, por considerá-lo “uma lógica técnico-instrumental a serviço da reestruturação ecológica do capitalismo… Implica criar um aparato legal que ajude a precificar toda a natureza, transformada em um ativo negociável com as regras do mercado, entre aqueles que têm acesso…”.
A partir dessa perspectiva, há questionamentos sobre propostas como os “créditos de carbono”, uma vez que estes continuam a permitir que grandes poluidores emitam gases poluentes e perpetuem a exploração dos ecossistemas em benefício econômico, além de aumentar a pressão sobre as comunidades locais, levando a migrações e deslocamentos; à “mineração em nome da transição energética”, já que a “corrida por minerais como lítio, cobalto e níquel, necessários para tecnologias chamadas ‘limpas’, como baterias e carros elétricos, devasta territórios e sacrifica comunidades, especialmente no Sul Global”; e à “monocultura energética”, uma vez que os megaprojetos de energia hidrelétrica, solar e eólica são feitos sem consulta às populações locais, resultam em concentração do poder econômico e destroem os ecossistemas.
“Rejeitamos o paradigma tecnocrático explorador, mas apoiamos o desenvolvimento e a implementação de tecnologias éticas, descentralizadas e apropriadas para o desenvolvimento sustentável, projetadas e decididas conjuntamente com os povos e comunidades”, lê-se em um dos trechos.
PAUTAS ESSENCIAIS

No capítulo 7, o documento traz uma extensa reflexão sobre princípios e valores a serem considerados nas discussões sobre os compromissos climáticos, a fim de que não se perpetuem injustiças. Entre os aspectos mencionados estão:
- Proteção dos territórios e domínios ancestrais e a soberania dos povos originários, tradicionais, camponeses e pescadores artesanais, o que inclui a não devastação das florestas do Sul Global;
- Proteção e fomento à agricultura familiar, que além da produção de alimentos coopera para a gestão sustentável da água e do solo;
- Restauração de terras degradadas, na medida em que a prevenção e reversão da desertificação são cruciais para mitigar os impactos da mudança climática e garantir a segurança alimentar, especialmente em regiões vulneráveis;
- Exigência de que os países do Norte Global assumam maiores esforços de mitigação e financiamento das adaptações necessárias nos países do Sul Global, sem que isso gere mais dívidas a estes últimos. “Urge também chamar à responsabilidade os diversos países de renda média que estão se tornando grandes emissores de gases de efeito estufa”.
- Adoção de um sistema econômico “que reduza a demanda e o consumo excessivo e fomente economias solidárias, circulares e restauradoras”.
- Abandono de um modelo econômico que “propõe crescimento infinito em um planeta finito” e transição para um modelo “regenerativo e distributivo, que reconheça os limites ecológicos do planeta e coloque o cuidado com a vida no centro, substituindo a lógica extrativista por uma economia do bem e do cuidado com a casa comum”.
- Adoção de políticas e programas de energia renovável “descentralizados e sensíveis às necessidades das mulheres”; além de “garantir um financiamento climático equitativo que leve em conta também as necessidades das mulheres”.
- Segurança e proteção para as cidades, cada vez mais vulneráveis a fenômenos climáticos extremos. Para tal, além da adoção de políticas de prevenção de desastres, “é essencial implementar programas sociais que promovam habitação digna e segura, saneamento básico, infraestrutura verde e solo permeável, além de projetos urbanísticos focados no transporte coletivo e na redução de emissões”.
- Reconhecimento de que a migração climática – deslocamentos induzidos pelas mudanças climáticas – é um tema central de direitos humanos dentro de um contexto de adaptação à mudança climática.
RESISTÊNCIA, FORTALECIMENTO COMUNITÁRIO E ESPERANÇA
Na conclusão do documento, os signatários enfatizam: “É hora de exigir que os Estados honrem os compromissos assumidos e impulsionem políticas públicas que fomentem a agroecologia, a reflorestação comunitária, a soberania e a segurança alimentar dos povos indígenas, comunidades tradicionais, camponesas e periferias urbanas, em profunda harmonia com a Criação”.
Convidam, ainda, para a formação de uma coalização “que una atores do Sul Global, como a Igreja, governos, povos originários, academia, organizações sociais e ecológicas, com aliados coerentes de todos os setores e países do Norte Global, comprometidos com a ética, equidade e justiça para a humanidade em todo o planeta”.
O documento é concluído com o anúncio da criação do Observatório Eclesial sobre Justiça Climática, promovido pela Conferência Eclesial da Amazônia: “Essa iniciativa acompanhará, vigiará e animará o cumprimento dos acordos das COPs, assim como denunciará os descumprimentos que perpetuam o sofrimento dos povos”.

