Em declaração conjunta, Leão XIV e Bartolomeu I reforçam o caminhar rumo à plena comunhão das Igrejas

No sábado, 29, véspera da festa de Santo André, o primeiro apóstolo a ser chamado irmão do apóstolo Pedro e padroeiro do Patriarcado Ecumênico, o Papa Leão XIV e o Patriarca Bartolomeu I assinaram no Palácio Patriarcal, em Istambul, uma declaração conjunta, reafirmando a continuidade da busca por um caminho para a plena comunhão das duas igrejas irmãs.

Fotos: Vatican Media

A assinatura se insere nas atividades da 1ª viagem apostólica de Leão XIV, inicialmente à Turquia, desde a quinta-feira, 27, por ocasião dos 1.700 anos do primeiro Concílio de Niceia, e que ainda terá uma etapa no Líbano, entre 30 de novembro e 2 de dezembro.

“Seguindo o exemplo dos nossos veneráveis predecessores e obedecendo à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, continuamos a caminhar com firme determinação na via do diálogo, no amor e na verdade (cf. Ef 4, 15), rumo à tão esperada restauração da plena comunhão entre as nossas Igrejas irmãs. Conscientes de que a unidade cristã não é simplesmente o resultado de esforços humanos, mas um dom que vem do alto, convidamos todos os membros das nossas Igrejas – clero, monges, pessoas consagradas e fiéis leigos – a procurarem intensamente a realização da oração que Jesus Cristo dirigiu ao Pai: ‘para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti […] e o mundo creia que Tu me enviaste’ (Jo 17, 21)”, lê-se no início da declaração.

RECORDAÇÃO DO CONCÍLIO DE NICEIA

A declaração também reafirma que o Concílio de Niceia, realizado em 325, “foi um evento providencial de unidade. No entanto, o propósito de comemorar este evento não é apenas recordar a importância histórica do Concílio, mas estimular-nos a estar continuamente abertos ao mesmo Espírito Santo que falou por meio de Niceia, enquanto enfrentamos os muitos desafios do nosso tempo”.

Leão XIV e Bartolomeu I agradecem a todos os líderes e delegados de outras Igrejas e comunidades eclesiais que participam das comemorações dos 1.700 anos do Concílio de Niceia, e asseguram que tem procurados enfrentar, por meio do diálogo teológico, os obstáculos que impedem a restauração da plena comunhão entre todos os cristãos.

“Devemos também reconhecer que o que nos une é a fé expressa no Credo de Niceia. Esta é a fé salvadora na pessoa do Filho de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai, que por nós e pela nossa salvação se encarnou e habitou entre nós, foi crucificado, morreu e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu e de novo há de vir para julgar os vivos e os mortos”.

“Através da vinda do Filho de Deus, somos iniciados no mistério da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – e somos convidados a tornar-nos, em e por meio da pessoa de Cristo, filhos do Pai e coerdeiros com Cristo pela graça do Espírito Santo. Dotados desta confissão comum, podemos enfrentar juntos os desafios partilhados no testemunho da fé professada em Niceia, com respeito mútuo, e trabalhar em conjunto em vista de soluções concretas, com esperança genuína”, afirmam.

CELEBRAR A PÁSCOA NA MESMA DATA

O Santo Padre e o Patriarca expressam convicção de que a comemoração dos 1.700 anos do Concílio de Niceia “pode inspirar novos e corajosos passos no caminho rumo à unidade”.

No documento, é lembrado que entre as suas decisões, o Concílio de Niceia estabeleceu os critérios para determinar a data da Páscoa, comum a todos os cristãos: “Somos gratos à divina providência por este ano, em que todo o mundo cristão celebrou a Páscoa no mesmo dia. É nosso desejo comum continuar o processo de explorar uma possível solução para celebrarmos juntos a Festa das Festas todos os anos. Esperamos e oramos para que todos os cristãos, ‘com toda a sabedoria e inteligência espiritual’ (Cl 1,9), comprometam-se com o processo de chegar a uma celebração comum da gloriosa ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo”.

HÁ 60 ANOS, O FIM DAS EXCOMUNHÕES MÚTUAS

“Este ano, comemoramos também o 60º aniversário da histórica Declaração Conjunta dos nossos veneráveis predecessores, o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecumenico Atenágoras, que pôs fim à troca das excomunhões de 1054. Damos graças a Deus porque aquele gesto profético fez com que as nossas Igrejas buscassem ‘em um espírito de confiança, estima e caridade mútua o diálogo que, com a ajuda de Deus, conduzirá a uma nova convivência, para o bem maior das almas e a vinda do reino de Deus, naquela plena comunhão de fé, concórdia fraterna e vida sacramental que existiu entre elas durante os primeiros mil anos da vida da Igreja’ (Declaração Conjunta do Papa Paulo VI e do Patriarca Ecuménico Atenágoras, 7 de dezembro de 1965)’.

Leão XIV e Bartolomeu I pedem, também, que todos aqueles que “ainda hesitam, perante qualquer forma de diálogo, a ouvirem o que o Espírito diz às Igrejas (cf. Ap 2, 29) urgindo-nos, nas circunstâncias atuais da história, a apresentar ao mundo um testemunho renovado de paz, reconciliação e unidade”.

TRABALHOS E ORAÇÕES COM VISTAS À PLENA COMUNHÃO

Ainda no texto, o Papa e o Patriarca reforçam o apoio ao trabalho da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, “que na sua fase atual está a examinar questões que historicamente têm sido consideradas causas de divisão”.

“Paralelamente ao papel insubstituível que o diálogo teológico desempenha no processo de aproximação entre as nossas Igrejas, reconhecemos também os outros elementos necessários a este processo, incluindo os encontros fraternos, a oração e o trabalho partilhado em todas as áreas onde a cooperação já é possível. Exortamos veementemente todos os fiéis das nossas Igrejas, e especialmente o clero e os teólogos, a acolherem com alegria os frutos alcançados até agora e a trabalharem para o seu contínuo crescimento”.

UNIDADE CRISTÃ E PAZ

“A meta da unidade cristã inclui o objetivo de contribuir de maneira fundamental e vivificante para a paz entre todos os povos”, lembram os signatários da declaração conjunta.

“Juntos, levantamos fervorosamente as nossas vozes para invocar o dom da paz de Deus sobre o nosso mundo. Tragicamente, em muitas regiões do nosso planeta, conflitos e violência continuam a destruir as vidas de tantas pessoas. Apelamos àqueles que têm responsabilidades civis e políticas para que façam tudo o que for possível para garantir que a tragédia da guerra cesse imediatamente, e pedimos a todas as pessoas de boa vontade que apoiem o nosso apelo”.

Leão XIV e Bartolomeu I enfatizam ainda: “Rejeitamos qualquer uso da religião e do nome de Deus para justificar a violência. Acreditamos que o diálogo inter-religioso autêntico, longe de ser causa de sincretismo e confusão, é essencial para a coexistência de povos de diferentes tradições e culturas”.

Expressam, ainda, que “tendo em mente o 60º aniversário da declaração Nostra Aetate, exortamos todos os homens e mulheres de boa vontade a trabalharem juntos para construir um mundo mais justo e solidário e a cuidarem da criação, que nos foi confiada por Deus. Só assim a família humana poderá superar a indiferença, o desejo de domínio, a ganância pelo lucro e a xenofobia”.

Por fim, o Santo Padre e o Patriarca ressaltam que Deus jamais abandonará a humanidade, razão pela qual não se deve jamais perder a esperança: “O Pai enviou o seu Filho Unigênito para nos salvar, e o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, concedeu-nos o Espírito Santo, para nos tornar participantes da sua vida divina, preservando e protegendo a sacralidade da pessoa humana. Pelo Espírito Santo, sabemos e experimentamos que Deus está conosco. Por isso, em nossa oração, confiamos a Deus todos os seres humanos, de modo particular aqueles que padecem necessidade, os que passam fome, solidão ou doença. Invocamos sobre cada membro da família humana todas as graças e bênçãos ‘para que tenham ânimo nos seus corações, vivendo bem unidos no amor, e assim atinjam toda a riqueza, que é a plena compreensão, o conhecimento do mistério de Deus» (Cl 2,2)’ nosso Senhor Jesus Cristo”.

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