
O primeiro Papa a visitar o Principado de Mônaco na era moderna – antes dele, só Paulo III, em 1538 –, Leão XIV foi ao pequeno país europeu para fazer um grande agradecimento por sua generosidade material e espiritual, mas também um pedido de solidariedade com os mais necessitados.
A viagem no sábado, 28 de março, durou pouco mais de 12 horas, entre a partida de helicóptero do Vaticano e o retorno, à noite. Governado por um príncipe soberano, atualmente Alberto II, o país localizado territorialmente no litoral da França é um dos poucos que tem o catolicismo como religião oficial.
O CONTEXTO DA VIAGEM

Mônaco é o segundo menor país do mundo, depois da Cidade-Estado do Vaticano. É menor do que o menor município do Brasil. Com uma população de 39 mil pessoas, só 24% são monegascos, já que a maioria dos habitantes migrou de países vizinhos como França e Inglaterra. E a idade média é superior a 50 anos.
“O dom da pequenez e uma herança espiritual viva levam vocês a colocar vossa riqueza a serviço do direito e da justiça, especialmente em um momento histórico em que a ostentação da força e a lógica da opressão prejudicam o mundo e comprometem a paz”, declarou o Papa após a acolhida do Príncipe.
RIQUEZA E DISTRIBUIÇÃO

Mônaco também é um país muito rico, com grande número de bilionários, considerado um “paraíso fiscal”, ou seja, muito atrativo para a acumulação de recursos financeiros e imobiliários. Diante dessa realidade, a viagem do Papa foi, por um lado, um agradecimento pela generosidade de Mônaco, que tem feito doações importantes para iniciativas de caridade e sustentabilidade da Santa Sé.
Por outro lado, o Pontífice fez um alerta àqueles que possuem tantos recursos materiais: é preciso estar atentos às necessidades dos outros, abertos à solidariedade e à justiça social.
A quem muito será dado, muito será pedido, indicou ele: “Aos olhos de Deus, nada se recebe em vão! Como Jesus nos sugere na parábola dos talentos, o que nos foi confiado não deve ser enterrado, mas sim colocado em circulação e multiplicado no horizonte do Reino de Deus”.
“Cada talento, cada oportunidade, cada bem que nos é confiado tem um destino universal, uma necessidade intrínseca de não ser retido, mas sim redistribuído, para que a vida de todos seja melhor”, afirmou, ainda, fazendo referência ao princípio da “destinação universal dos bens”, da Doutrina Social da Igreja.
VALORES PARTILHADOS

O Papa também enfatizou o fato de que Mônaco, sendo um país católico, pode ser um ponto de luz no meio da secularização europeia. Em muitos países do continente, a religião atualmente é bastante relegada à esfera privada e perde espaço na esfera pública.
“Mesmo em uma cultura pouco religiosa e bastante secularizada, a maneira como o Magistério Social aborda os problemas pode revelar a grande luz que emana do Evangelho para o nosso tempo, uma época em que, para muitas pessoas, é tão difícil ter esperança”, observou.
Em novembro de 2025, o Príncipe Alberto II vetou uma lei que previa a legalização do aborto no principado, mantendo a legislação restritiva atual que só permite o procedimento em alguns casos específicos e, portanto, indo na contramão de algumas políticas de países europeus. O Santo Padre fez uma referência indireta a esse fato durante a missa: “É a misericórdia que salva o mundo: ela cuida de cada vida humana, desde o momento em que brota no ventre até o momento em que se extingue, em toda a sua fragilidade. Como nos ensinou o Papa Francisco, a cultura da misericórdia rejeita a cultura do descarte.”
Outro ponto partilhado entre Mônaco e a Santa Sé, conforme expressões recentes tanto de Leão XIV quanto de seu antecessor direto, o Papa Francisco, é a “ecologia integral”. O atual Pontífice elogiou o fato de que o pequeno país tem se mostrado “pronto a proteger sempre com amor toda vida humana, em qualquer momento e circunstância, para que ninguém seja jamais excluído da mesa da fraternidade”.
CARLO ACUTIS E MENSAGEM AOS JOVENS

Como é tradição em suas viagens apostólicas, o Santo Padre vai ao encontro de representantes da população e da Igreja local, além de autoridades civis, religiosas, seminaristas e jovens.
Em seu encontro com a juventude local, o Papa disse que o amor é o que realmente dá sentido à vida: “O que dá solidez à vida é o amor: a experiência fundamental do amor de Deus, em primeiro lugar, e depois, por extensão, a experiência iluminadora e sagrada do amor mútuo. E amar-se, se por um lado requer abertura para crescer e, portanto, para mudar, por outro lado exige fidelidade, constância e disposição para o sacrifício no dia a dia”.
Outra grande novidade foi a de que, pela primeira vez, o Pontífice usou a expressão “Padroeiro da internet” em referência a São Carlo Acutis, canonizado em setembro de 2025 – em suas palavras, um modelo de amor à Eucaristia e ao próximo para os jovens de hoje.





