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‘A missão da Igreja não é outra senão dar testemunho de Jesus Cristo e do Reino de Deus’

Afirmou o Cardeal Odilo Scherer, durante Simpósio Missionário realizado com os seminaristas da Arquidiocese de São Paulo

‘A missão da Igreja não é outra senão dar testemunho de Jesus Cristo e do Reino de Deus’

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, fez a conferência de abertura do Simpósio Missionário do Seminário Arquidiocesano Imaculada Conceição, na manhã desta quinta-feira, 2. A iniciativa, realizada pelas plataformas digitais, acontece no lugar da missão anual de férias dos seminaristas, que, este ano, não pôde acontecer devido à pandemia do novo coronavírus.

A programação do simpósio que segue até o sábado, 4, conta conferências, grupos de estudo e partilha de experiências missionárias. Os seminaristas acompanham as atividades a partir de cada uma das quatro casas de formação sacerdotal da Arquidiocese.

Dom Odilo abordou o tema da centralidade missão para a fé cristã. Ele recordou a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2017, na qual o Pontífice destacou que, a Igreja é, por sua natureza, missionária. “Se assim não for, deixa de ser a Igreja de Cristo, não passando de uma associação entre muitas outras, que rapidamente perderia a sua finalidade e desapareceria”, ressalta a mensagem.

“O Papa tem repetido muitas vezes que a Igreja não é uma ONG do bem, mas é, justamente, a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo, que tem o testemunho próprio a partir dele e em função da ação do Espírito Santo”, afirmou o Cardeal

NATUREZA MISSIONÁRIA

O Arcebispo também destacou que se a Igreja existe há dois milênios, não é em função da própria capacidade, mas porque é uma realidade humana e divina. “O humano é frágil e muitas vezes falha, o divino é firme e confere vitalidade sempre nova ao humano”, destacou.

Ainda recordando as palavras do Papa, Dom Odilo enfatizou que a missão não é apenas uma ação fundamental, mas faz parte da essência da Igreja. “Quando dizemos ‘creio na Igreja’, isso também significa imediatamente dizer que cremos na Igreja que é missionário por vontade de Jesus Cristo desde a origem… Sem ser missionária, ela não é a Igreja que Jesus Cristo quis e perde bem depressa a sua razão de ser e a sua vitalidade”, reforçou.

“A missão da Igreja não é outra senão dar testemunho de Jesus Cristo e do Reino de Deus no mundo, está intimamente ligada com o próprio Jesus, que diz que como o Pai o enviou ele nos enviou. No meio das buscas humanas por verdade, bondade, beleza, justiça, felicidade, sentido da vida, a igreja é missionária de Jesus Cristo Salvador, que é caminho, verdade e vida”, sublinhou o Cardeal.

CONTINUAR A MISSÃO DE JESUS

Em seguida, o Arcebispo destacou os pressupostos bíblicos da ação missionária, recordando que a primeira missão é a o próprio Deus Pai, que enviou seu Filho ao mundo para anunciar a todos Boa-Nova, nova da salvação. “Jesus tem a missão de revelar Deus aos homens e de lhes mostrar os caminhos para ele… Batizado no rio Jordão, o Espírito Santo desceu sobre ele, que começou a realizar sua missão”, disse.

“Toda a ação evangelizadora de Jesus, os sinais, milagres, os exemplos que ele deu, são impulsionados pela força missionária que o anima em vista da glória de Deus Pai e da salvação da humanidade”, continuou Dom Odilo. Ele também recordou  que Cristo reuniu os discípulos e os preparou para continuarem sua missão depois de sua ascensão ao céu, escolheu os apóstolos e os preparou de maneira especial para serem missionários e,  já durante a sua vida pública, enviou os 72 discípulos para realizarem experiências missionárias.

“Após a ressurreição, Jesus conferiu aos apóstolos a sua própria missão com o dom do Espírito Santo, dizendo: ‘Assim como o Pai me enviou eu vos envio…’”, lembrou o Cardeal.

‘A missão da Igreja não é outra senão dar testemunho de Jesus Cristo e do Reino de Deus’

AO LONGO DA HISTÓRIA

Dom Odilo também recordou como a Igreja realizou sua missão ao longo da história, que foi marcada por vários momentos fortes. “Houve tempos de crise na vida eclesial que levaram a um novo impulso missionário”, destacou.

A primeira expansão missionária, ainda na era apostólica alcançou o Oriente Médio, a Ásia Menor (hoje Turquia), a Grécia e Roma, incluindo depois o norte da África, Egito, Etiópia, Arábia, chegando até a Índia. “Muitas perseguições de martírios fizeram parte desta primeira expansão missionária”, frisou o Arcebispo.

No século III, a missão se estendeu pelo norte da África e pela Europa Ocidental. A partir do século IV, houve uma decadência do Império Romano do Ocidente, marcadas por conflitos doutrinais e teológicas na Igreja e pela realização de concílios que forma muito importantes para a definição das verdades da fé cristã.

“A Igreja não deixou de ser missionária nesse tempo. O novo impulso missionário leva a missão para o restante da Europa”, lembrou o Cardeal.

Já os séculos  VII e VIII foram marcados pelo início do Islamismo que afetou diretamente a Igreja. “Nesse período houve uma grande crise do Cristianismo justamente nos lugares da suas origens”, acentuou Dom Odilo.

CISMAS E REFORMAS

No século XI, houve o grande cisma do oriente, em 1054, que deu origem à Igreja Ortodoxa, que desencadeou uma grande crise na Igreja, superada com um novo impulso missionário. 

Sobre a Idade Média, o Arcebispo recordou os inúmeros movimentos de reforma e consequente impulso de renovação missionário provocado pelo o surgimento de novas ordens religiosas, especialmente as mendicantes, como os franciscanos e dominicanos, que provocaram uma ação missionária para as regiões dominadas pelo islamismo.

O Renascimento, nos séculos XV e XVI, houve uma má compreensão do humanismo que levou a neo-paganismo e provocou uma decadência moral e religiosa. “Isso provocou o cisma do ocidente, com a reforma protestante que dividiu a Igreja na Europa. Contudo, veio, depois o Concílio de Trento, as novas ordens  e ordenas missionárias, dentre elas os jesuítas, que trouxeram um novo impulso missionário e renovação da Igreja”, destacou Dom Odilo, lembrando que, essa época, também houve a expansão missionária para a América e par ao extremo oriente, como o Japão, China e Índia.

Nos séculos XVIII e XIX, houve uma nova crise na Igreja causada pelo iluminismo e o racionalismo. “Esses movimentos filosóficos sempre punham o trabalho da Igreja como algo a ser superado e desvalorizado. A resposta foi um novo impulso missionário para levar a Igreja se renovar no meio dos povos”, salientou o Cardeal, referindo-se a expansão do Cristianismo na África.

SÉCULO XX

Já no século XX, em 1919, o Papa Bento XV lançou um novo e forte apelo missionário na Igreja com publicação da carta apostólica Maximum Illud, na qual ele chama toda a Igreja a um novo ânimo missionário, recordando que essa é a ação primordial da Igreja.

Assim já se começava a preparar aquilo que teve forte eco no Concílio Vaticano II (1962-1965), para “renovar a Igreja na missão”,  como afirmou São Paulo VI, anos depois. “Se olharmos o conjunto dos documentos produzidos pelo concílio, todos eles trazem o impulso e a preocupação missionária”, sublinhou Dom Odilo.

Depois do Concílio, o magistério pontifício destacam o aspecto missionário da Igreja. Em 1974, São Paulo VI promoveu um Sínodo dos Bispos sobre a evangelização no mundo contemporâneo, sobre o qual, no ano seguinte, ele escreveu a exortação apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi.

“Nessa exortação, o Papa manifesta a preocupação da Igreja em ser fiel a missão de evangelizar e preservar a pureza do mistério da fé, de tornar compreensível, enquanto possível, ao longo do nosso tempo, os tesouros do Evangelho e da fé cristã”, comentou o Arcebispo, acrescentando que Paulo  VI enfatizou que a Igreja e a missão são realidades ambivalentes.

MISSÃO PERENE

Em 1990, São João Paulo II escreveu encíclica Redemptoris missio, para reafirmar a perene validade a atualidade da ação missionária da Igreja, sublinhando, logo no início do documento, que “a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento”.

Dom Odilo explicou que essa encíclica do Papa Wojtyla foi escrita em uma época em que havia correntes de pensamento dentro da Igreja que questionava se a ação missionária ainda era necessária na Igreja. No documento, o Santo Padre ressaltou, ainda que “o número daqueles que ignoram Cristo e não fazem parte da Igreja está em contínuo aumento”, e exortou: “Povos todos, abri as portas a Cristo!”.

‘A missão da Igreja não é outra senão dar testemunho de Jesus Cristo e do Reino de Deus’

NOVA EVANGELIZAÇÃO

O Cardeal também lembrou  a realização do Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização para a transmissão da fé, do qual participou, em 2012. Convocado pelo hoje Papa Emérito Bento XVI, essa assembleia manifestou a necessidade de atualizar a ação missionária da Igreja. “Era impressionante ver como de todos os países falavam da necessidade renovar o impulso missionário”, relatou Dom Odilo. 

Meses depois, em fevereiro de 2013, o Bento XVI renunciou ao pontificado e coube ao seu sucessor, o Papa Francisco, redigir a exortação apostólica referente a esse sínodo, que foi intitulada Evangelli gaudium, cujo conteúdo será aprofundado na conferência desta sexta-feira, 3, às 9h, feita pelo Cardeal Cláudio Hummes, Arcebispo de Arcebispo Emérito de São Paulo e presidente da recém criada conferência eclesial para a Amazônia.

Nesta tarde desta quinta-feira, o Bispo da Diocese de Pemba, em Moçambique, Dom Luís Fernando Lisboa, compartilha com os seminaristas sua experiência missionária de mais de uma década nesse país africano. No sábado, o Padre José Arnaldo Juliano, teólogo e perito do sínodo arquidiocesano, destacará a preocupação missionária da Igreja em São Paulo. Essas conferências serão transmitidas pelas mídias digitais da Arquidiocese.

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