Mais do que um conjunto de tecnologias, a Sociedade Digital é um novo ambiente de vida que interpela a comunicação pastoral e o testemunho cristão. Para falar mais sobre o tema, o caderno Pascom em Ação entrevistou o Doutor em comunicação e professor na PUC-Minas, Moisés Sbardelotto

Falar em Sociedade Digital é reconhecer que vivemos uma profunda mudança cultural que vai muito além do uso de tecnologias. A digitalização não apenas introduziu novas ferramentas de comunicação, mas transformou a maneira como habitamos o mundo, construímos relações, produzimos sentido e expressamos nossas buscas mais profundas.
Hoje, o ambiente digital é um espaço real de vida, convivência, debate, aprendizado, sofrimento, oração e esperança. Por isso, também se torna um lugar decisivo para a missão da Igreja e para a missão realizada pela Pastoral da Comunicação.
A Sociedade Digital se caracteriza pela conexão permanente, imediatismo, circulação intensa de informações e pela crescente quebra das barreiras entre o on-line e o off-line. É uma comunicação que acontece em rede, de forma interativa, fragmentada e fortemente visual. Nesse contexto, a exposição constante, a lógica da performance e a pressão por respostas imediatas desafiam a escuta, o discernimento, a interioridade e o silêncio, elementos essenciais para relações verdadeiramente humanas e evangelizadoras.
Para Moisés Sbardelotto, Doutor em Ciências da Comunicação e professor na PUC-Minas, a sociedade digital não deve ser vista apenas como uma sociedade “tecnologizada”, mas como um verdadeiro ambiente cultural, simbólico e relacional, no qual, hoje, se constroem vínculos, narrativas e sentidos, inclusive, religiosos e pastorais. A internet e as plataformas digitais não são simples instrumentos, mas espaços em que a vida acontece.
Ele identifica quatro características centrais da cultura digital, os chamados “4 Is”:
A informação, hoje amplamente acessível, mas também excessiva, gerando desinformação e saturação;
A interatividade, que transforma o espectador em sujeito ativo da comunicação, com potencial de participação e criatividade, mas também de reatividade e polarização;
A imediaticidade, marcada pela aceleração do tempo e pela dificuldade de sustentar processos longos de amadurecimento e espera;
A imaginação, própria de uma cultura fortemente visual, capaz de ampliar as linguagens expressivas, mas também de produzir superficialidade e espetacularização.
“Essas transformações afetam diretamente a comunicação da Igreja. Um dos grandes desafios é o risco de submeter o anúncio do Evangelho à lógica do mercado digital, medindo sua eficácia por curtidas, visualizações e engajamento. Quando a comunicação eclesial se deixa capturar por essa lógica, perde densidade evangélica e corre o risco de se tornar proselitismo. Em um ambiente marcado por fragmentação, discursos de ódio e desinformação, a Igreja é chamada a testemunhar outro modo de comunicar, baseado na escuta, no respeito, no diálogo e na coerência de vida”, afirma Moisés Sbardelotto.

Seguindo esse pensamento também ecoa a mensagem do Papa Leão XIV, em seu discurso para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, ao afirmar que “precisamos preservar o dom da comunicação com a mais profunda verdade do homem, à qual devemos orientar também toda inovação tecnológica”. Trata-se de recordar que essas ferramentas devem estar a serviço das pessoas, da comunhão e do encontro, e nunca substituírem a relação humana por curtidas e métricas.
Moisés Sbardelotto lembra que os comunicadores católicos que navegam por essa sociedade são chamados a ser luz para evangelizar com a verdade: “Um comunicador digital católico é seguidor de Alguém que afastou de si a tentação da fama, da riqueza e do poder (cf. Mt 4,1-11), que não serviu a dois senhores (cf. Mt 6,24), não condescendeu com a mercantilização da casa do Pai (cf. Jo 2,13-22) e se fez servo de todos, a ponto de lavar-lhes os pés (cf. Jo 13,1-11), sendo fiel até a morte, e morte de cruz. Como recorda o documento Rumo à Presença Plena [publicado pelo Dicastério para a Comunicação, em maio de 2023], ‘na Cruz tudo foi invertido’. Não houve ‘likes’ e praticamente nenhum ‘seguidor’ no momento da maior manifestação da glória de Deus. Todas as medidas humanas de ‘sucesso’ são relativizadas pela lógica do Evangelho”.
A Sociedade Digital, portanto, não é apenas um desafio, mas também uma grande oportunidade. Um espaço no qual Deus já está presente e atuante, convidando a Igreja a habitar as redes com delicadeza, verdade, discernimento e compaixão. Para a Pascom, o chamado é claro: comunicar não apenas para postar conteúdos, mas para testemunhar uma presença humana e evangélica, capaz de gerar encontro, comunhão e esperança em meio à velocidade e ao ruído do nosso tempo.
“Em um ambiente marcado por fragmentação, discursos de ódio e desinformação, a Igreja é chamada a testemunhar outro modo de comunicar, baseado na escuta, no respeito, no diálogo e na coerência de vida.”
(Moisés Sbardelotto)
Por Nathália Santos
Agente da Pascom na Paróquia Santo Antônio de Lisboa, na Vila Ede, Região Santana.


