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A missão da Igreja no ambiente digital

Com base no livro ‘Pastoral Digital: uma mudança paradigmática’ (Paulinas Editora) e em experiências concretas de agentes da Pascom, a reportagem aponta caminhos práticos para integrar as tecnologias à evangelização e transformar o ambiente digital em espaço de acolhimento e fé

Arte: Fabio Lopes

A presença da Igreja no am­biente digital já não pode ser vista apenas como apoio à divulgação de avisos ou atividades paroquiais. As redes sociais, plataformas digitais e ambientes virtuais se tornaram um verdadeiro espaço de missão, no qual a evangelização é chamada a acontecer de forma autêntica, in­tegrada e profundamente humana.

Segundo a Irmã Joana T. Pun­tel, FSP, uma das autoras do livro “Pastoral Digital: uma mudan­ça paradigmática”, é importante compreender que a evangelização no digital não se resume ao domí­nio de ferramentas. “Não se tra­ta de abrir uma ‘gaveta espiritual’ quando entramos nas redes, mas de expressar aquilo que somos por inteiro. A evangelização nasce de uma vivência integrada do Evan­gelho”, afirma.

Essa compreensão está em sin­tonia com o caminho recente da Igreja. O Documento Final da primeira sessão do Sínodo sobre a Igreja sinodal (2023) reconhece que a cultura digital modifica pro­fundamente as formas de relação das pessoas consigo mesmas, com os outros, com o mundo e com Deus. Por isso, o texto afirma que o ambiente digital não é apenas uma área específica da missão, mas uma dimensão essencial do testemunho cristão na cultura contemporânea.

Nesse contexto, Irmã Joana alerta para um risco recorrente: reduzir a evangelização à simples produção de conteúdo. “Saber usar as ferramentas não significa, automaticamente, evangelizar. A técnica só faz sentido quando está a serviço de uma vivência cristã au­têntica”, explica. Para ela, comuni­car no digital exige coerência com as atitudes de Jesus, como a hones­tidade, a transparência, o amor, o perdão e a caridade.

A pastoral digital também pode se tornar um verdadeiro espaço de acolhimento, especialmente para pessoas afastadas da comu­nidade presencial. Inspirada no documento Rumo à Presença Ple­na, publicado pelo Dicastério para a Comunicação em 2023, a Irmã paulina recorda a Parábola do Bom Samaritano como chave pas­toral para as redes: sair da própria bolha, superar preconceitos e reco­nhecer no outro o rosto de Cristo. “Não somos chamados a julgar, mas a anunciar. A verdade é Jesus”, reforça.

DA REFLEXÃO À PRÁTICA NAS PARÓQUIAS

Na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na Vila Mariana, Região Ipiranga, Beatriz Pereira, a agente da Pascom, relata que a comuni­cação digital nasceu da escuta da comunidade e de sua própria his­tória pastoral. Após a pandemia, o tradicional jornal impresso “Paró­quia Viva” deu lugar a uma atua­ção totalmente digital, mantendo o cuidado editorial e adaptando lin­guagens e formatos.

“Percebemos que vídeos curtos, notícias atuais e conteúdos que va­lorizam as pessoas da comunidade geram mais engajamento”, explica Beatriz. A criação de um podcast com agentes pastorais, a divulga­ção constante de serviços da paró­quia e a valorização dos voluntá­rios ajudaram a aproximar fiéis e a levar pessoas à secretaria paroquial e às celebrações.

Já na Paróquia São José, em Pirituba, Região Lapa, a Pastoral da Comunicação se estruturou na época da pandemia, com apoio do pároco e integração com as demais pastorais. Segundo a agente Patrí­cia Barbosa, o principal critério é respeitar a realidade local. “Nem todo conteúdo que funciona em outra paróquia serve para a nossa. O critério principal é a evangeliza­ção”, enfatiza.

Mesmo com poucos recursos no início, a equipe utilizou celulares pessoais, organizou cronogramas e, aos poucos, conquistou equipa­mentos básicos. “As redes sociais digitais têmsido um meio real de aproximação. Muitas pessoas passaram a conhecer a paróquia a partir das publicações”, relata.

EQUILÍBRIO, COMUNIDADE E VIDA SACRAMENTAL

A missão da Igreja no ambiente digital - Jornal O São Paulo
Reprodução

Para os agentes da Pascom, um dos maiores desafios é manter o equilíbrio diante da sobrecarga de trabalhos e da escassez de volun­tários. Por isso, a vivência comu­nitária e espiritual é fundamental. “Não basta comunicar bem; é pre­ciso viver a fé em comunidade”, re­corda Irmã Joana no livro.

A pastoral digital, portanto, não substitui a vida sacramental, mas deve conduzir a ela. “As comuni­dades digitais precisam levar à co­munidade presencial. A vivência da fé passa pelo encontro, pela Eu­caristia e pela comunhão”, conclui a Religiosa.

Por Benigno Naveira
Jornalista, assessor de imprensa e membro da Pastoral da Comunicação da Região Lapa.

Por Elias Rodrigues
Jornalista, assessor de imprensa e coordenador da Pascom da Paróquia do Divino Espírito Santo, na Região Sé.

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