Com base no livro ‘Pastoral Digital: uma mudança paradigmática’ (Paulinas Editora) e em experiências concretas de agentes da Pascom, a reportagem aponta caminhos práticos para integrar as tecnologias à evangelização e transformar o ambiente digital em espaço de acolhimento e fé

A presença da Igreja no ambiente digital já não pode ser vista apenas como apoio à divulgação de avisos ou atividades paroquiais. As redes sociais, plataformas digitais e ambientes virtuais se tornaram um verdadeiro espaço de missão, no qual a evangelização é chamada a acontecer de forma autêntica, integrada e profundamente humana.
Segundo a Irmã Joana T. Puntel, FSP, uma das autoras do livro “Pastoral Digital: uma mudança paradigmática”, é importante compreender que a evangelização no digital não se resume ao domínio de ferramentas. “Não se trata de abrir uma ‘gaveta espiritual’ quando entramos nas redes, mas de expressar aquilo que somos por inteiro. A evangelização nasce de uma vivência integrada do Evangelho”, afirma.
Essa compreensão está em sintonia com o caminho recente da Igreja. O Documento Final da primeira sessão do Sínodo sobre a Igreja sinodal (2023) reconhece que a cultura digital modifica profundamente as formas de relação das pessoas consigo mesmas, com os outros, com o mundo e com Deus. Por isso, o texto afirma que o ambiente digital não é apenas uma área específica da missão, mas uma dimensão essencial do testemunho cristão na cultura contemporânea.
Nesse contexto, Irmã Joana alerta para um risco recorrente: reduzir a evangelização à simples produção de conteúdo. “Saber usar as ferramentas não significa, automaticamente, evangelizar. A técnica só faz sentido quando está a serviço de uma vivência cristã autêntica”, explica. Para ela, comunicar no digital exige coerência com as atitudes de Jesus, como a honestidade, a transparência, o amor, o perdão e a caridade.
A pastoral digital também pode se tornar um verdadeiro espaço de acolhimento, especialmente para pessoas afastadas da comunidade presencial. Inspirada no documento Rumo à Presença Plena, publicado pelo Dicastério para a Comunicação em 2023, a Irmã paulina recorda a Parábola do Bom Samaritano como chave pastoral para as redes: sair da própria bolha, superar preconceitos e reconhecer no outro o rosto de Cristo. “Não somos chamados a julgar, mas a anunciar. A verdade é Jesus”, reforça.
DA REFLEXÃO À PRÁTICA NAS PARÓQUIAS
Na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na Vila Mariana, Região Ipiranga, Beatriz Pereira, a agente da Pascom, relata que a comunicação digital nasceu da escuta da comunidade e de sua própria história pastoral. Após a pandemia, o tradicional jornal impresso “Paróquia Viva” deu lugar a uma atuação totalmente digital, mantendo o cuidado editorial e adaptando linguagens e formatos.
“Percebemos que vídeos curtos, notícias atuais e conteúdos que valorizam as pessoas da comunidade geram mais engajamento”, explica Beatriz. A criação de um podcast com agentes pastorais, a divulgação constante de serviços da paróquia e a valorização dos voluntários ajudaram a aproximar fiéis e a levar pessoas à secretaria paroquial e às celebrações.
Já na Paróquia São José, em Pirituba, Região Lapa, a Pastoral da Comunicação se estruturou na época da pandemia, com apoio do pároco e integração com as demais pastorais. Segundo a agente Patrícia Barbosa, o principal critério é respeitar a realidade local. “Nem todo conteúdo que funciona em outra paróquia serve para a nossa. O critério principal é a evangelização”, enfatiza.
Mesmo com poucos recursos no início, a equipe utilizou celulares pessoais, organizou cronogramas e, aos poucos, conquistou equipamentos básicos. “As redes sociais digitais têmsido um meio real de aproximação. Muitas pessoas passaram a conhecer a paróquia a partir das publicações”, relata.
EQUILÍBRIO, COMUNIDADE E VIDA SACRAMENTAL

Para os agentes da Pascom, um dos maiores desafios é manter o equilíbrio diante da sobrecarga de trabalhos e da escassez de voluntários. Por isso, a vivência comunitária e espiritual é fundamental. “Não basta comunicar bem; é preciso viver a fé em comunidade”, recorda Irmã Joana no livro.
A pastoral digital, portanto, não substitui a vida sacramental, mas deve conduzir a ela. “As comunidades digitais precisam levar à comunidade presencial. A vivência da fé passa pelo encontro, pela Eucaristia e pela comunhão”, conclui a Religiosa.
Por Benigno Naveira
Jornalista, assessor de imprensa e membro da Pastoral da Comunicação da Região Lapa.
Por Elias Rodrigues
Jornalista, assessor de imprensa e coordenador da Pascom da Paróquia do Divino Espírito Santo, na Região Sé.


