Por Juliana Fontanari e Tatianna Porto

A Comunicação Não Violenta (CNV) é uma ferramenta importante para promover a paz e a reconciliação, princípios presentes na fé cristã que ajudam a fortalecer as relações interpessoais, resolver conflitos e promover o autoconhecimento.
De acordo com Márcia Costa Simões Almeida, psicóloga especialista em CNV, é preciso que as pessoas revejam alguns conceitos para colocar em prática a Comunicação Não Violenta.
“Um pré-requisito seria escutar com empatia e, para isso, é preciso ter uma predisposição da alma. Precisamos desaprender uma cultura secular de comando, controle e dominação – esse conjunto de violências que fomos ensinados a sentir e a reproduzir ao longo de toda a nossa vida – para, então, querer entrar em um novo aprendizado, ou seja, desejar e assumir uma postura de compaixão e paz. É uma proposta muito grandiosa”, afirma a psicóloga.
Márcia detalha que a CNV foi desenvolvida por Marshall Rosenberg, um psicólogo norte-americano “que se preocupou em entender de que forma a linguagem contribui ou não para as relações e como ela pode ser modificada para levar a pessoa a ter relacionamentos saudáveis, de paz e harmonia”.
Rosenberg propôs quatro grandes componentes:
- Observar sem julgar;
- Identificar as necessidades;
- Identificar os sentimentos;
- Aprender a se expressar honestamente – saber pedir às pessoas aquilo que realmente pode nos fazer bem.

O perigo da comunicação não acolhedora
A CNV também é indispensável para a convivência nas paróquias e comunidades, uma vez que ajuda a criar um ambiente de mais unidade e compreensão entre as pessoas. Por outro lado, quando o que se pratica é a comunicação violenta, os resultados podem ser desastrosos, como o que foi relatado à equipe do Pascom em Ação por Maria do Rosário.
“Cheguei ao Brasil em 2008. Meu marido veio primeiro. Depois, minha filha e eu. Na época, ela tinha 10 anos. Ela tem microcefalia e paralisia cerebral moderada. Não falava, mas fisicamente não era possível perceber a sua condição especial. Chegamos aqui em uma quinta-feira e, já no domingo, procurei a igreja perto de casa para não deixar de participar da missa. Não sabia uma palavra em português e, por isso, me concentrava no que era falado para tentar entender o máximo possível. A igreja estava cheia e tivemos de ficar em pé. Sem que eu percebesse, minha filha se afastou de mim, e quando me dei conta, ela estava no presbitério. O padre parecia estar chateado e disse no microfone que aquela criança estava fazendo muito barulho e que os pais deveriam retirá-la dali. Fui buscá-la e todos ficaram olhando. Fiquei envergonhada, saí da igreja e fui para casa chorando, não consegui expressar a minha dor de outra forma”.
Maria do Rosário recorda que em seu país de origem, o Peru, quando comentou que viria ao Brasil, as pessoas a animavam dizendo que havia um bom tratamento para crianças com condição especial, razão pela qual sua decepção com o fato foi ainda maior: “Não tive coragem de voltar àquela igreja. Também tinha medo de ir a outra paróquia e me perder, pois não conhecia nada e não entendia o português. Dois meses depois, decidi voltar, estava sentindo saudade da missa. Quando cheguei, percebi que o mesmo padre estava presidindo. Pedi a Deus que me desse um sinal se deveria ficar ou ir embora. Dessa vez, conseguimos nos sentar, minha filha ficou quietinha, o padre nos viu, se aproximou e a abençoou. Hoje, faço parte de uma comunidade, minha filha fez Catequese e primeira Comunhão em outra paróquia, onde fiz amigos e me sinto muito feliz!”.
O que aprender da CNV para o dia a dia da Pascom?
No 57º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado em 2023, o Papa Francisco escreveu sobre a importância de falar com o coração, testemunhando a verdade no amor, sendo muito sucinto sobre suas aparições relacionadas à comunicação católica: “Sonho uma comunicação eclesial que saiba deixar-se guiar pelo Espírito Santo, gentil e, ao mesmo tempo, profética, capaz de encontrar novas formas e modalidades para o anúncio maravilhoso que é chamada a proclamar no terceiro milênio”. E continua: “Não devemos ter medo de proclamar a verdade.”
Assim sendo, é preciso que o agente da Pascom se comunique de maneira comprometida e responsável com a verdade, seguindo a Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6).
E como usar a Comunicação Não Violenta no exercício pastoral, sobretudo da Pascom? Márcia Almeida responde: “Nós precisamos estudar a Comunicação Não Violenta, precisamos realmente nos debruçar sobre ela para que possamos mudar a nossa maneira de nos comunicar, de nos relacionar e de conviver de forma mais compassiva”, conclui.