
Em um tempo em que a vida acontece em múltiplas telas, notificações e feeds, a espiritualidade também atravessa o digital. A fé já não se expressa apenas nos espaços físicos, mas circula por mensagens, transmissões, imagens e buscas feitas nas redes sociais. Para uma geração que cresceu conectada, essa integração entre o on-line e o off-line não é exceção, mas parte da experiência cotidiana, inclusive na forma de rezar, buscar sentido e viver a vida comunitária.
Diante desse cenário, o desafio se coloca: como viver a fé de forma autêntica em uma sociedade hiperconectada, sem perder a profundidade da experiência cristã, e de que maneira a Igreja pode ocupar os ambientes digitais sem reduzir a espiritualidade a conteúdos rápidos ou a substitutos da presença comunitária? Essas questões atravessam o conceito de on-life, que ajuda a compreender uma realidade em que tecnologia, relações humanas e vida espiritual se entrelaçam.
O DIGITAL APROXIMA, MAS NÃO SUBSTITUI A PRESENÇA

É a partir desse olhar que Aline Imercio, jornalista e membro da Pastoral da Comunicação do Santuário Nossa Senhora do Sagrado Coração, reflete sobre os desafios e as possibilidades da pastoral digital hoje. Para ela, essa fusão entre o on-line e o off-line já faz parte da vivência de muitos fiéis, especialmente das novas gerações: “Para quem cresceu conectado, é difícil imaginar o dia a dia sem o celular. O digital faz parte da vida, e a Igreja, como comunidade viva, também está inserida nesse contexto”.
Segundo Aline, esse movimento se tornou ainda mais evidente após a pandemia, quando muitas paróquias precisaram se adaptar aos meios digitais para manter o vínculo com os fiéis. “Mesmo comunidades que antes não atuavam nas redes precisaram aprender. Hoje, é comum que as pessoas entrem em contato pelo WhatsApp ou Instagram para buscar informações sobre Batismo, Confissão ou Catequese”, explica.
Ao mesmo tempo, ela destaca que o digital deve ser compreendido como um apoio à vida comunitária, e não como substituto da presença. “É fundamental reforçar que estar na missa, buscar o sacramento da Confissão e ir aos encontros da comunidade continua sendo essencial. O ambiente digital não substitui a experiência presencial”, ressalta.
A hiperconectividade, quando não é bem dosada, também impacta a vivência espiritual. “Muitas vezes, a necessidade de estar conectado o tempo todo faz com que as pessoas se distraiam durante a homilia ou deixem de viver plenamente um momento importante, porque estão preocupadas em registrar tudo no celular”, observa Aline.
A PASCOM NÃO SE RESUME AO FEED

Nesse contexto, a Pastoral da Comunicação assume um papel que vai além da divulgação de eventos e horários. “A missão principal da Pascom é evangelizar por meio da comunicação”, afirma Aline, ao lembrar que essa pastoral já existia antes das redes sociais, e se valia de meios como jornais, folhetos e registros da vida comunitária, e que hoje se amplia com as novas linguagens digitais.
Ela também destaca que a Pascom exerce um papel importante no diálogo com as demais pastorais e serviços da Igreja.
Segundo Aline, nem todas as áreas da comunidade se sentem à vontade no ambiente digital, o que torna necessária uma postura acolhedora por parte da equipe de comunicação. Ao incentivar a partilha de informações, pedidos e registros das atividades, a Pascom contribui para integrar os trabalhos e ampliar a participação da comunidade, sem substituir outras pastorais, mas ajudando a tornar suas ações conhecidas e valorizadas.
Esse contato constante com o público revela as dores, dúvidas e expectativas de quem está do outro lado da tela. Para Aline, saber lidar com essas manifestações é parte da missão pastoral.
O COMPROMISSO COM A FÉ

Aline chama a atenção para um desafio que atravessa toda a pastoral digital hoje: a circulação de fake news e conteúdos manipulados, como as deepfakes. Segundo ela, a Pastoral da Comunicação precisa ter extremo cuidado com tudo o que publica e compartilha. “Mesmo no ambiente digital, falamos em nome da comunidade e do que é sagrado. Por isso, é fundamental apurar, verificar e ter discernimento antes de divulgar qualquer informação”, alerta.
Para ela, o critério é claro: o mesmo respeito presente na liturgia, no jornal paroquial e na acolhida deve existir nas redes sociais: “A comunicação é um serviço à evangelização. Seja no papel, seja no digital, ela exige verdade, discernimento e compromisso com a fé”.
Por ThayNa Franzo
Assessora de imprensa e membro da Pascom da Paróquia Santo Inácio de Loyola e São Paulo Apóstolo, Região Sé.


