Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Caminhos que revelam a história de São Paulo

Caminhos que revelam a história de São Paulo
Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

A história da cidade de São Paulo pode ser compreendida não apenas por meio dos livros, mas também a partir de suas ruas, bairros e construções que, apesar das transformações impostas pelo tempo, ainda preservam a memória de sua formação. Esses espaços ajudam a contar como um pequeno povoado se transformou na maior cidade do País. 

Entre os locais que permitem essa leitura do passado destacam-se o Pateo do Collegio, a Freguesia do Ó e a Penha. Cada um deles revela etapas distintas do processo de ocupação, expansão territorial e construção da identidade paulistana.

Caminhos que revelam a história de São Paulo

PEDRA FUNDAMENTAL

A origem da cidade remonta a uma simples construção de pau-a-pique, erguida em um território então habitado por povos indígenas. Fundado em 25 de janeiro de 1554 por religiosos da Companhia de Jesus, o Colégio de São Paulo de Piratininga, conhecido hoje como Pateo do Collegio, marca o ponto inicial do surgimento da capital paulista. 

Ao longo dos séculos, o local passou por diversas transformações arquitetônicas e institucionais. Após a expulsão dos jesuítas, em 1759, o conjunto chegou a sediar o governo da Capitania e, mais tarde, da Província de São Paulo, função que exerceu entre 1765 e 1912. 

Atualmente, o complexo reúne a Igreja de São José de Anchieta, o Museu Anchieta, a Biblioteca Padre Antônio Vieira, o Café do Pateo e o monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, em homenagem ao Padre José de Anchieta e ao cacique Tibiriçá. 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o historiador Luiz Raphael Tonon destacou que a expansão da cidade a partir do Pateo do Collegio segue o modelo de povoamento adotado pelos jesuítas nas missões implantadas em diferentes regiões do Brasil. Segundo ele, nos séculos XVI e XVII, São Paulo ainda dava seus primeiros passos como vila, já contando com a presença de colonos portugueses e com registros de casamentos entre europeus e indígenas, uniões que contribuíram para a formação da população local. 

“Com a fundação do Pateo do Collegio, a vila começou a se expandir. Muitas das famílias que receberam essas terras tornaram-se tradicionais e continuam, até hoje, exercendo influência na cultura, na economia e na preservação da memória histórica paulistana”, explicou o historiador. 

Caminhos que revelam a história de São Paulo

FILHOS DA IGREJA 

Os primeiros registros da Freguesia do Ó datam do final do século XVI. De acordo com Tonon, Manuel Preto, um dos primeiros colonizadores de São Paulo, e sua esposa, Águeda Rodrigues, adquiriram em 1580 uma fazenda que, anos depois, em 1615, foi doada a Nossa Senhora para a construção de uma capela. “Esse tipo de doação era um costume bastante comum no Brasil colonial, quando bens eram oficialmente destinados, em cartório, a santos e à Virgem Maria”, observou. 

O nome Freguesia do Ó tem origem no latim Filii Ecclesiae, que significa “filhos da Igreja”. A denominação, considerada uma honraria, foi oficializada por decreto da rainha Maria I, em 1796. 

Desde os primeiros tempos, os sinos da Igreja de Nossa Senhora do Ó tornaram-se verdadeiros narradores da história paulistana. Entre os episódios lembrados estão as despedidas dos paulistanos que partiram para a Guerra do Paraguai e o anúncio de acontecimentos marcantes do período imperial. 

“Os sinos também tocaram durante a retirada da Laguna, episódio da Guerra do Paraguai, e na passagem de Dom Pedro I, que chegou a entrar na antiga igreja para rezar antes de seguir viagem rumo a Campinas. Anos depois, Dom Pedro II também participou de celebrações religiosas no local, enquanto se hospedava nas proximidades da freguesia”, relatou Tonon. 

Em 1954, durante o Congresso Nacional da Padroeira do Brasil, a igreja voltou a ocupar papel central. Na ocasião, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida foi trazida de Aparecida para São Paulo e recebida na Igreja do Ó, onde permaneceu por alguns dias. Registros indicam que cerca de 20 mil fiéis aguardavam a chegada da padroeira na esplanada do templo. 

Historicamente, a região também se destacou pela produção de cana-de-açúcar voltada à fabricação de cachaça, atividade predominante até meados da década de 1950, quando o bairro iniciou um processo de industrialização. Foi ainda na Freguesia do Ó que funcionou uma das primeiras praças de pedágio do estado, instalada sobre uma ponte no rio Tietê a partir de 1741. 

Caminhos que revelam a história de São Paulo

DO ALTO DA COLINA 

O bairro da Penha surgiu a partir da construção de uma capela no alto de uma colina, característica geográfica que deu origem ao nome, associado à ideia de penhasco. Desde o período colonial, a região tornou-se ponto de parada de viajantes que seguiam do Rio de Janeiro rumo ao interior paulista. Durante a Revolução de 1924, chegou a sediar temporariamente a capital do Estado. 

Os registros mais antigos da Igreja da Penha datam de 1682, com referências posteriores em 1684 e 1688. A devoção teria sido introduzida por uma família de colonizadores estabelecida na região. O Padre Jacinto Nunes, filho de Mateus Nunes de Siqueira, foi responsável por estruturar a capela e destinar bens de seu testamento à sua manutenção, conforme documento registrado em cartório em 1684. 

O templo também está ligado a um dos episódios mais importantes da história do Brasil. Registros do diário de viagem de Dom Pedro I indicam que, ao retornar do litoral em direção a São Paulo, o príncipe visitou a Igreja da Penha para rezar, pouco tempo antes da proclamação da independência. 

Ao longo do século XX, o bairro acompanhou o crescimento urbano da capital. Em 1900, passou a contar com o bonde elétrico, que se consolidou como um importante meio de transporte até sua extinção, em 1966. Atualmente, a Penha mantém sua relevância cultural com espaços como o Centro Cultural da Penha e áreas de lazer como o Parque Linear Tiquatira. 

AUTORES DESTA HISTÓRIA 

Para Tonon, às vésperas dos 472 anos de São Paulo, revisitar o Pateo do Collegio, a Freguesia do Ó e a Penha é reconhecer esses espaços como testemunhas vivas da formação da cidade. 

“Hoje, a história colonial de São Paulo parece quase apagada diante da correria e das constantes transformações do espaço urbano. Por isso, especialmente neste tempo de celebração do aniversário da cidade, é fundamental revisitar os vestígios que restaram daquele período inicial. Não se trata de preciosismo, mas de identidade. Conhecer a própria história e os lugares ligados a ela é, sobretudo, compreender quem somos”, concluiu. 

Deixe um comentário