Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Em procissão, fiéis recordam a sepultura de Jesus e meditam sobre sua paixão

Em procissão, fiéis recordam a sepultura de Jesus e meditam sobre sua paixão - Jornal O São Paulo
Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na tarde da Sexta-feira Santa, 3, após a Ação Litúrgica da Paixão do Senhor na Catedral da Sé, presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, fiéis participaram da tradicional procissão pelas ruas do centro histórico de São Paulo, recordando o sepultamento de Jesus.

Em seguida, já no interior da Catedral, teve lugar o sermão das sete palavras de Cristo na cruz — prática devocional surgida na Igreja entre os séculos XVI e XVII, especialmente difundida a partir das pregações do jesuíta Francisco del Castillo no Peru, e posteriormente consolidada na espiritualidade da Sexta-feira Santa como meditação sobre as últimas palavras de Jesus registradas nos Evangelhos. Neste ano, a reflexão foi conduzida por Matthias Grenzer, professor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da PUC-SP.

Leia, a seguir, os principais trechos do sermão:

1. ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem’ (Lc 23, 34)

Ao iniciar sua reflexão, o pregador ressaltou que o perdão pronunciado por Jesus na cruz rompe com a lógica da vingança e da retribuição. Trata-se de uma atitude que não ignora a gravidade da injustiça sofrida, mas a enfrenta de modo novo. “O perdão não nasce da negação da violência, mas da decisão de não permitir que ela determine o futuro”, afirmou. Segundo ele, essa palavra inaugura um horizonte em que a misericórdia se apresenta como força transformadora, capaz de interromper ciclos de ódio e abrir possibilidades de reconciliação, mesmo nas situações mais extremas.

2. ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso’ (Lc 23, 43)

Ao dirigir-se ao condenado ao seu lado, Jesus manifesta a proximidade de uma salvação que não se apoia em méritos, mas na confiança. Grenzer destacou que “a promessa feita ao crucificado revela que o acesso à vida plena não depende de uma trajetória sem falhas, mas da abertura sincera ao encontro com Cristo”. A cena evidencia que, mesmo diante da morte iminente, permanece a possibilidade de acolher a graça. Trata-se, segundo o pregador, de uma palavra que reafirma a esperança e rompe com qualquer visão de desespero definitivo.

3. ‘Mulher, eis aí o teu filho. Filho eis aí a tua Mãe!’ (Jo 19, 26-27)

Nesta palavra, o pregador chamou atenção para o surgimento de uma nova forma de relação entre aqueles que permanecem junto à cruz. “No momento da entrega total, Jesus cria vínculos que não se baseiam em interesses ou afinidades, mas na responsabilidade mútua”, explicou. Ao confiar o discípulo à mãe e a mãe ao discípulo, configura-se uma comunidade que nasce da cruz e é sustentada pelo cuidado. Segundo Grenzer, essa palavra aponta para a dimensão eclesial da fé, na qual cada pessoa é chamada a reconhecer o outro como parte de uma mesma família.

Em procissão, fiéis recordam a sepultura de Jesus e meditam sobre sua paixão - Jornal O São Paulo
Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

4. ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ (Mt 27, 46; Mc15,34)

A expressão do aparente abandono foi apresentada como uma das palavras mais densas do relato da paixão. O pregador destacou que “Jesus não oculta a experiência da dor profunda, nem o sentimento de ausência de Deus, mas os transforma em oração”. Ao citar o salmo, Ele permanece em diálogo com o Pai, mesmo em meio ao sofrimento. Para Grenzer, essa palavra revela que a fé não elimina a angústia, mas permite atravessá-la sem romper a relação com Deus, oferecendo um caminho para compreender o sofrimento humano à luz da confiança.

5. ‘Tenho sede’ (Jo 19, 28)

Mais do que a expressão de uma necessidade física, esta palavra foi interpretada como sinal de uma realidade mais profunda. “A sede de Jesus expressa também o desejo de que sua missão seja acolhida e de que a humanidade responda ao amor de Deus”, afirmou o pregador. Ao mesmo tempo, ela manifesta a plena solidariedade de Cristo com a condição humana. Segundo Grenzer, essa palavra convida a reconhecer as diversas formas de sede presentes na vida humana — de sentido, de justiça, de comunhão — e a percebê-las à luz da experiência de Jesus na cruz.

6. ‘Tudo está consumado’ (Jo 19, 30)
Nesta palavra, evidencia-se a consciência de que a missão confiada por Deus foi levada até o fim. O pregador sublinhou que “não se trata de uma conclusão marcada pelo fracasso, mas da realização plena de um caminho de fidelidade”. A consumação de que fala Jesus não indica um encerramento vazio, mas o cumprimento de uma entrega vivida de modo coerente até as últimas consequências. Segundo Grenzer, a cruz se apresenta, assim, como lugar de revelação, onde se manifesta o sentido profundo da vida de Cristo e de sua missão.

7. ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23.46)
Encerrando o percurso, o pregador destacou a confiança total de Jesus no Pai, mesmo diante da morte. “A última palavra de Jesus não é de desespero, mas de entrega confiante, que reconhece em Deus o fundamento último da existência”, afirmou. Trata-se de um gesto que expressa abandono e confiança ao mesmo tempo, indicando que a vida é colocada nas mãos de Deus. Para Grenzer, essa palavra ilumina a compreensão cristã da morte, não como ruptura definitiva, mas como passagem vivida na confiança e na relação com o Pai.

Em procissão, fiéis recordam a sepultura de Jesus e meditam sobre sua paixão - Jornal O São Paulo
Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Deixe um comentário